Entrevista: No Ritmo de Lucina

“Sol subiu: trabalho
Sol desceu; descanso
cave o poço e beba a água
cave o campo; coma o grão
Poder imperial existe? e para nós o que é?
A quarta; a dimensão do sossego.
E o domínio das feras.” Ezra Pound

Lucina

Quando ouviu João Gilberto cantar no rádio “Chega de Saudade”, Lucina decidiu ser música. E é para matar a saudade dos fãs e entusiastas de sua obra que a consagrada cantora, compositora e instrumentista, ainda com alma de criança, lança em 2014 três álbuns, shows, oficinas e é a protagonista, ao lado de Luhli, do documentário dirigido por Rafael Saar que conta a história das duas. Sobre a iniciativa, a entrevistada analisa: “Há muito várias pessoas tinham essa ideia do documentário, porque fomos ícones da geração 1970 e 1980 e cumprimos um papel único na música”, afirma.

A constatação de Lucina tem lastro. Natural de Cuiabá, capital mato-grossense, ela se encontrou com a carioca Luhli no Rio de Janeiro para fomentarem, com sucesso, uma carreira em parceria que incluiu sete álbuns, músicas gravadas por diversos artistas do primeiro time da MPB, além de contribuir efetivamente com a criação de uma música ligada às raízes campestres no Brasil, através do uso de tambores, violões, violas e letras, de rara sensibilidade, inspiradas nesse universo. “O financiamento do documentário será pela ‘Rio Filme’, logo ele estará nas telonas”, entrega ansiosa.

NOVIDADES
O primeiro trabalho que Lucina anuncia repete o nome de um álbum lançado em dupla com a antiga parceira, Luhli, em 1984, com algum adendo ao final. Mas não se enganem, apesar de estar novamente em dupla, repetir fórmulas não faz parte do horizonte da compositora. “Estou gravando o registro de um projeto meu que foi premiado pelo Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo e apresentado com muito sucesso, o ‘ÊTA NÓIS – Quando a viola bota as coisas no lugar’”. Neste disco, Lucina estará acompanhada do violeiro, maestro e músico Ivan Vilela. O outro disco a sair em 2014 é todo dela, solo.

E para não perde o fôlego, ela mantém as conexões com os conterrâneos de Mato Grosso, só que da ala sul. “Também estou envolvida no CD ‘Água dos Matos’, com músicas feitas durante o projeto apoiado pela Natura Musical e conduzido por Tetê Espíndola, quando descemos o pantanal mato-grossense, com seus irmãos Alzira E. e Jerry Espíndola, levando shows e oficinas para a população ribeirinha”, descreve. Um pouco de tudo para a menina que pediu um violão ao ouvir a bossa nova de João e não hesita se questionada sobre o essencial para cantar, gravar e cantar uma música: “Beleza”, e nada mais.

BAGAGEM
Com uma ampla bagagem musical e literária, Lucina distribui as referências nas duas áreas. “Tenho parceiros maravilhosos, poetas especialíssimos. A Luhli é incrível, o Joãosinho Gomes, Aloísio Brandão, Alzira E., Bené Fonteles, Sonya Prazeres, Alice Ruiz, Zélia Duncan, Arruda”, enumera ao citar aqueles com os quais trabalhou na criação de letras e melodias. E na cabeceira, na cuca e no peito ressoavam os versos de “Adélia Prado, Vicente Sá, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Chico Buarque, Cecília Meireles, e…, são muitos”, confessa.

Já para entoar os sentimentos que nasceram do coração, migraram para o papel e ganharam os ares com vozes e sons, a cantora vai do pop ao experimental, do internacional ao quintal de casa. “Gosto muito do Ney Matogrosso, do Sérgio Santos, do Prince, da Zélia Duncan, da Ná Ozzetti, Tetê Espíndola, Alzira E., Joyce, meu gosto é bem eclético”, confidencia. Dentre os nomes que se repetem um chama a atenção por não ser parte da geração de Lucina. “Zélia era fã da dupla, tinha disco autografado e tudo mais. Quando gravou o seu primeiro LP, ainda como Zélia Cristina, nos pediu uma música”.

ENCONTROS
“Bastou um encontro para que a gente se afinasse de tal maneira que a amizade e a parceria não param de crescer”, são essas as exatas palavras de Lucina, que lançou em 2009 o álbum “+ Do Que Parece”, feito só de canções com Zélia Duncan, que segundo cálculos que a matemática não prevê contabilizam mais de uma centena com chances de ir até o infinito. Entre as mais conhecidas estão “Miopia”, “Eu Nunca Estava Lá”, “Coração Na Boca”, etc. Outros amigos que nem tempo nem espaço tem a capacidade de romper estão os que formaram o trio Sá, Rodrix e Guarabyra, na década de 1970.

“Somos amigos há muuuito tempo, e tivemos convívio intenso e deliciosamente criativo”, diz esticando a palavra para lhe dar o sentido mais próximo da realidade. Sobre o paralelo que se pode traçar entre a música do trio masculino e da dupla que Lucina manteve com Luhli até 1995, focada na experimentação de sons, letras modernas e um toque do que se denominou chamar de “rock rural”, ela sintetiza: “Posso dizer que sim, sendo que a música dos rapazes tem um teor e um olhar bem masculino, enquanto a nossa obra fala essencialmente do universo feminino”, destaca.

SUCESSOS
Muita gente não sabe que é de Luhli, parceira de Lucina, ao lado de João Ricardo, a autoria de um dos primeiros sucessos do grupo “Secos & Molhados”, que à frente dos holofotes, microfones e requebrados estava Ney Matogrosso. A “O Vira”, seguiram-se vários outros hits da dupla entoados por medalhões como Nana Caymmi, Wanderléa, Marília Pêra, Rolando Boldrin, e um sem número de intérpretes tarimbados. “Sempre fizemos carreira alternativa e cantores de renome são ponta de lança”, explica. O que não se entende é que mesmo depois de tanto tempo o reconhecimento ainda não tenha vindo na medida justa.

“O sistema não privilegia os autores, e assim o povo só se liga no cantor. Não existe uma consciência relativa aos direitos de quem cria. Essa é uma luta antiga. A mudança é simples, falta a boa vontade do sistema”, denuncia. Com uma história artística ligada à vanguarda e ao incomum, Lucina disseca as principais diferenças entre o atual momento da indústria musical comparado ao cenário da época em que surgiu. “A realidade digital em que mergulhamos ainda está mudando as regras do mercado. Em relação ao sucesso e à estética, a música ficou mais e mais descartável”, lamenta.

EXPERIÊNCIAS
A falta de oportunidade nas plataformas tradicionais de cultura do país não é por acaso. Para uma pessoa que se habituou a cultivar o verdadeiro e belo, as portas se estreitaram. “A música elegante perdeu espaço. O jabá está inserido em praticamente todas as mídias e as possibilidades diminuíram”, diz. Tendo estabelecido contato com a chamada “Vanguarda Paulista”, consolidada na década de 1980 em São Paulo, especialmente com um dos artífices do movimento, o performático Itamar Assumpção, Lucina recorda o legado com alegria: “Para mim foi bem instigante, trouxe riqueza poética, cênica e musical”.

Outra experiência inesquecível na trajetória da compositora foi o trabalho em homenagem àquela considerada cantora maior do Brasil. “Foi demais! Fizemos arranjos totalmente pessoais com nossos tambores, violas, violões e piano. A proposta nasceu de um show de vários artistas em homenagem à Elis Regina e o resultado ficou tão bom que montamos um espetáculo inteiro, trabalhamos quase dois anos nesse projeto com muito respaldo de crítica e público”, relembra. A empreitada resultou no álbum “Elis e Elas”, o último da dupla Luhli e Lucina, lançado pela Leblon Records na metade da década de 1990.

RITMO
O início dessa história em comum, no entanto, data da época em que as duas eram estudantes, mas já apaixonadas pelo mesmo ofício. Lucina foi quem teve a iniciativa de ir até a casa de Luhli convidá-la para um projeto da faculdade. Chegando lá, duas surpresas. Primeiro, Luhli era sobrinha-neta do aclamadíssimo, com razão, Noel Rosa. Segundo, apesar do parentesco não tão próximo assim, o talento parecia estar no sangue. “Cheguei lá e quando ouvi suas músicas fiquei super tocada. Eram diferentes de tudo que já tinha ouvido, lindas demais!”, empolga-se Lucina hoje como ontem e amanhã.

Daí em diante, Lucina como em toda a vida, arriscou. “Disse para a Luhli que também tocava e mostrei algumas coisas. Moral da história: em um mês tínhamos vinte parcerias e lá fomos nós”, celebra. Pé na terra, na estrada, cabelo ao vento e muita imaginação nos acordes, nas notas, nos olhos. A dupla acabou, segundo Lucina, “para dar mais espaço às individualidades, mas a parceria e o bem querer continuam e continuarão sempre”, garante. Levando os elementos que são a essência desse trabalho, desse dia a dia, dessa vida, “expressão fiel de mim mesma”, o campo, o tambor, e o ritmo, diz Lucina.

DISCOGRAFIA
1967 – Manifesto Musical (com Grupo Manifesto)
1968 – Grupo Manifesto nº 2 (com Grupo Manifesto)
1979 – Luli e Lucinha (com Luhli)
1982 – Yorimatã, o Amor de Mulher (com Luhli)
1984 – Êta Nóis! (com Luhli)
1986 – Timbres & Temperos (com Luhli)
1992 – Porque Sim, Porque Não? (com Luhli)
1995 – Elis & Elas
1996 – 25 Anos (coletânea, com Luhli)
1998 – Inteira Pra Mim
2002 – Ponto Sem Nó
2004 – Gira de Luz
2006 – A Música Em Mim
2009 – + Do Que Parece

Lucina-entrevista

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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