Entrevista: Luís Capucho vai tirar você desse lugar

“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso!” Jack Kerouac

Luis-Capucho

Quando Cássia Eller o gravou em 1999 pouca gente procurou saber quem era o autor dos versos de “Maluca”. Quando Ney Matogrosso anunciou que o gravaria em 2013, muita gente foi atrás do homem do “Cinema Íris”. Por conta de versos sobre masturbação e mudanças no projeto, Ney não registrou a música de Luís Capucho. “O disco mudou de rumo, ele achou dificuldade no projeto e não sei se irá retomá-lo”, explica o entrevistado.

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, Capucho, que é cantor, músico, artista plástico e escritor, não vê ligação da arte que pratica com os outros filhos ilustres do município. “Não sou parte dessa tradição de artistas em Cachoeiro. Não sinto que eu faça parte de um núcleo que a cidade tenha produzido. É uma coincidência”, afirma. Além de Capucho, os músicos Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Raul Sampaio nasceram lá.

BIOGRÁFICO
Toda a arte de Luís Capucho está fundamentada em uma linguagem direta, crua, desfeita de artifícios que, ainda assim, é capaz de exalar poesia. Segundo ele, que não se considera um poeta, a principal influência é a própria vida. “Tanto minha música, quanto minha literatura ou pintura é pautada na minha biografia. Faço ficção biográfica. Tem muito de biografia, mas não deixa de ser ficção por isso”, avalia.

Ainda de acordo com o músico, o experimento possibilita uma elevação. “Transformar um fato acontecido num relato, numa música, é um plus, um up, que o torna outra coisa, quer dizer, não é mais aquilo do que se originou, entende?” e direciona a pergunta como na tentativa de refletir a própria condição e os meios de que se apropria. Mas não é por isso que Capucho deixa de ter seus ídolos. “Gosto de música brega, lembra minha infância”, diz.

BREGA
Quando Luís Capucho adentrou ao cenário da música brasileira ele já residia em Niterói, interior do Rio de Janeiro, onde vive desde os 14 anos, quando se mudou para um cortiço com a mãe. No entanto, vêm da terra natal as principais influências. “Sou de uma família de roceiros, colonos das proximidades de Cachoeiro. Meus parentes do interior gostavam de música brega. Eu ouvia muito o Evaldo Braga. Outro cara que admiro é o José Augusto”, nomina.

Essa informação chegava para Luís Capucho principalmente através do rádio dos vizinhos, hábito que permanece. “Não sou um consumidor de música, ouço aquilo que me chega. Meus vizinhos de baixo ouvem música nordestina, e os de trás, funk. Ouço música também nos ônibus da cidade, nas novelas e na internet, quando alguém me indica”, relata. Uma das canções preferidas do violonista é “Sonho de Amor”, de Michael Sullivan e Paulo Massadas.

EXPERIMENTAL
Tanto na versão da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano quanto na de Patrícia Marx, Capucho se derrete, apesar de preferir com a segunda, “que é linda”, enaltece. A razão para isto é simples. “Porque é uma música menos elaborada, é de fácil apreensão, mais espontânea, emotiva. Pega a gente fácil. Têm músicas das quais gostamos em todos os estilos. E das quais não gostamos também. Música é subjetivo, depende do momento, lugar, situação”.

O autor de versos ásperos e sentimentais, como “o amor é sacanagem/não tem poesia/nem matemática/o amor é magia”; “sou bicho doméstico/não sei me cuidar direito/não sei ser bravo/não sei ser cruel/sou pequeno, sou fraco, sou manso/senão te pegava pela camisa” e “veja o infinito no teu corpo bruto/tua perna terna, teu fruto/teu corpo nu/feroz de animal”, e outros, avalia a importância da arte dita experimental: “É importante achar novos caminhos”.

AUTONOMIA
O objetivo desta ação também é bem definido na cabeça beat, urbana, cósmica e rural de Luís Capucho. “Há artistas que seguem trilhas já abertas pela tradição. Outros querem abrir e cumprir suas próprias trilhas, fora dos modelos padronizados e que sabemos que funcionam e que deram certo. Quem sabe assim não se modifica uma geração?”, infere. Sobre o cenário atual da música brasileira, tem lhe chamado atenção o funk e as novas formas de produção.

“Não tenho o perfil de um funkeiro. Não me sentiria bem num baile, acho. Mas me chama atenção que a rapaziada esteja produzindo a sua música própria, de final de semana, isso não era assim. Éramos menos autônomos”, assume. O pequeno grupo a que Luís se juntou no início de sua trajetória foi logo carimbado de “retropicalistas”, mas nunca chegou, de fato, a se constituir como movimento. Entre os nomes da cena estavam Pedro Luís e Mathilda Kóvak.

SUCESSO
O primeiro sucesso nacional só ocorreu no último ano da década de 1990, quando Cássia Eller deu a sua versão definitiva para “Maluca”. Os dois nunca se encontraram, e a artista descobriu a música em uma editora. Ela havia sido registrada pela primeira vez em 1993, por Rita Peixoto, e foi a estreia de Luís Capucho como compositor no universo da indústria fonográfica. Outro êxito do período, de 1997, foi o registro de “Máquina de Escrever”.

Parceria de Luís Capucho com Mathilda Kóvak, ela se transformou, durante algum tempo, no carro-chefe da banda formada por um antigo conhecido, “Pedro Luís e a Parede”. No mesmo ano Daúde gravou “Romena”, parceria de Capucho com Suely Mesquita. Essa pontualidade no registro de suas canções e o modo característico e único com que costuma trata-las é que lhe rendeu uma das pechas mais caricatas.

BENDITO
A origem da expressão “maldito” é antiga na literatura francesa e na mídia brasileira. O poeta Rimbaud, simbolista, padeceu do rótulo. Luiz Melodia, no início da década de 1970, foi outro posto sob o guarda-chuva. “Isso talvez tenha começado quando o Ney Matogrosso se referiu, numa entrevista à TV Cultura, nas palavras dele, aos ‘benditos’ da MPB”, relembra. O intérprete se sentiu honrado de ser citado “ao lado de Jards Macalé e Itamar Assumpção”.

“Estar pareado com esses compositores não é pouca coisa. Mas eu não gostaria de parar nisso”, determina. Ney, a princípio, pretendia cantar tais compositores, mas acabou, até o momento, abandonando a causa. “Sou otimista. Então acredito que a sociedade está modificando, e ela própria vai me tirar desse lugar. Acho que com o Odair José ela vai cantar pra mim, ‘eu vou tirar você desse lugar, eu vou levar você pra morar comigo’”, diverte-se Luís.

ESPONTÂNEO
A primeira lembrança musical data da primeira infância. Capucho tinha três anos e decorou uma canção da “Jovem Guarda”. “Achei que ainda sabia ela, mas, há pouco, vi que não sei mais. Não sei o que me despertou para a música, é algo espontâneo”, assente. Os primeiros acordes no violão ele aprendeu aos 23, e já começou a criar. “Eu me lembro de ficar surpreendido com o fato de amigos que tocavam violão não conseguirem fazer música”.

“Eu não conseguia entender. Porque não faziam?”, questiona. Essas questões incompreensíveis servem de guarida para avalizar o destino. “Outro dia saiu na revista de domingo ‘d’O Globo’ que Cachoeiro é das cidades do interior do Brasil a que mais produziu artistas, fora das capitais. Deve ser astrológico, não sei. Tomara eu faça parte também do mistério…”, sugere. Quanto à literatura, é mais convicto. “Os livros sempre tiveram poder de atração sobre mim”, admite.

LITERATURA
Apesar da atração pelos livros, Capucho revela não ser um leitor assíduo. “Há tempos enormes em que fico sem ler, uma fase mais contemplativa”, verifica. No início deste namoro mesmo, houve uma interrupção. “Quando meu tesão apareceu, na adolescência, perdi o interesse. Só voltei a ler com mais ou menos 18 anos”, atesta. Autor dos livros “Cinema Orly”, “Rato” e “Mamãe me adora”, indicados e vencedores de prêmios, Capucho não tem autor preferido.

“Gosto de ler os clássicos. Atualmente, de forma não obcecada, tenho curtido ler. Terminei de ler uma biografia do Jean Genet”, informa. A proximidade com o controverso escritor, poeta e dramaturgo francês vem tanto da temática como do modo de narrar. Em especial no tratamento da homossexualidade. “O último filme que vi chama-se ‘Uma Canção de Amor’, tem roteiro e direção do Genet. Sempre ouvi dizer que a traição era a questão primordial da sua obra”, diz.

GAY
Luís confessa que nunca entendeu bem essa ilação. “Depois estive pensando se para o Genet a traição não está no fato da homossexualidade descumprir o projeto divino da procriação, o projeto divino da continuação da vida. Então, seu grande tema da homossexualidade é a morte, a descontinuidade, o fim. Daí suas estórias serem somente possíveis em lugares apartados, clandestinos, tipo um navio, a prisão, banheiros públicos, prostíbulos”, arrisca.

Não obstante, crê que o presente aponte para uma nova direção. “É possível que com as reivindicações e conquistas da militância gay nas últimas décadas a homossexualidade já tenha saído desse lugar de limite, maldição, não sei”, observa. Outro ícone que admira apareceu recentemente em sua vida. “Anteontem mesmo, em Campinas, vi uma biografia de Mick Jagger, que fiquei louco para ler, mas fiquei sem jeito de pedir emprestado”, lamenta.

SHOWS
A passagem pelo interior paulista foi para uma turnê. Acreditando na possibilidade da biografia do vocalista dos Rolling Stones reaparecer no seu horizonte a qualquer momento, Capucho planeja novos shows, discos e exposições. “Faz um tempo o Leonardo Rivera (jornalista e produtor cultural) sugeriu que eu fizesse um disco ‘voz e violão’. Na época, achei a ideia estapafúrdia, mas agora assumi”, explica.

O álbum, que já está pronto, se chama “Poema Maldito”, e foi gravado na “Tomba Records”, estúdio de Niterói. “Me surpreendi com o resultado, fico bonito”, aposta envaidecido. Em seu primeiro disco solo, “Lua Singela”, lançado em 2003, Capucho teve três importantes parceiros, Marcos Sacramento, Suely Mesquita e Mathilda Kóvak. No segundo, “Cinema Íris”, de 2012, poucas parcerias, mas acompanhado de banda. Desta vez ele está sozinho.

EXPOSTA
“No ‘Poema Maldito’ fiquei sem os músicos, o que me deixou com a aparência de maior solidão, entende? Se olho pra trás vejo que estou fazendo um caminho em que vou deixando a minha música sempre mais exposta. Primeiro sem os parceiros, agora, só com um esboço dela, um esqueleto dela, sem outra camada de elaboração, só a primeira camada mais crua e pequena de meu violão e voz meio tortos”, sublinha.

Nesse inquieto caminho Capucho resolveu coçar outras rosas e descobriu espinhos sob o invólucro. “Para compensar o isolamento, tudo ao acaso, me abri para novos parceiros, o Tive, o Alexandre Magno, o Manoel Gomes, o Marcelo Diniz e o Marcos Sacramento, mas este último não é novo, é um velhíssimo parceiro e amigo”, exalta com a incoerência permitida aos gênios. Para prensar o CD, ele planeja uma campanha de financiamento coletivo.

PINTURA
Além de um livro a caminho, sobre o qual nada mais revela, Capucho também lança flecha e dardo no campo das artes plásticas. “Quero fazer uma primeira exposição, das minhas ‘As Vizinhas de Trás’, nome que dei às pinturas”, conta. O incentivo para manusear pincel e tintas veio de maneira peculiar. “Minha família não teve contato algum com as artes plásticas. A referência que me ficou de pintura era a de vendedores ambulantes”, avisa.

Estes “batiam nas portas das casas das vilas, nas cidades pequenas onde morei e recolhiam fotos 3×4 dos clientes”, relembra o artista. Depois, “voltavam com os retratos emoldurados, coloridos e ampliados, para vender ao fotografado, que os colocava inclinados, pendurados nas paredes da sala”, narra a história real que serve de pano de fundo aos rostos expressivos e lúgubres que no maneirismo o conectam ao lendário pintor italiano Modigliani.

ESTILO
É desse “estilo de quadros” que Capucho afirma ter buscado inspiração para “suas carinhas”. Inclusive é possível se apreciar um exemplo destes na capa de “Mamãe me adora”. “Mamãe tinha um retrato desses e eu usei no livro”, confirma. Diagnosticado com o vírus da AIDS em 1996, Capucho ficou em coma por um mês. O único registro fonográfico antes da doença, que alterou sua coordenação motora e voz, foi lançado ano passado, pelo autor, na rede.

“Antigo”, registro ao vivo captado em 1995 no Café Laranjeiras, Rio de Janeiro, pode ser baixado de graça no site oficial do artista. Dentre as 15 faixas, as mais conhecidas do público em geral estão lá, na interpretação intransferível do próprio autor. Sobre a AIDS, Luís opina: “Apesar de não se ter conseguido a cura, perdemos o medo do vírus. E os remédios vão ficando mais suaves, ou porque nos habituamos a eles ou porque a tecnologia médica os melhorou”.

MÚSICA
Apesar disso, Luís considera imprescindível ponderar que “a AIDS ainda é um grande problema de saúde. Gasta-se muito dinheiro com ela, para adequar os pacientes à sobrevida. Hoje, por acaso, foi dia de consulta e a médica me disse que as pessoas não morrem mais de AIDS, mas do tratamento, que altera o metabolismo do organismo. Portanto, o trabalho dela é ajudar para que os remédios causem o menor dano possível à gente”, explica.

Voltando à música, onde o tema, por ser biográfico, aparece, assim como na literatura, Capucho recorda outros tempos. “Conheci a MPB na adolescência, já morando em Niterói, quando cursava o 2º grau. Eu vinha da música brega, caipira da minha infância e da música americana dos bailes hi-fi na pré-adolescência. Por isso, demorei um pouco a entender melodias elaboradas como as de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Sueli Costa”, enumera.

ROCK
Após o primeiro impacto Capucho afirma que, com o “ouvido educado”, passou a gostar muito e a ter como influência “o pessoal da MPB”. “Nessa época conheci o rock americano também. Então, depois de ter recuperado um pouco dos movimentos pós-coma, acho que faço uma mistura de MPB com rock e brega, não sei. É difícil saber como é exatamente o que fazemos, se estamos mergulhados no trabalho”, verifica.

E Capucho é destes que mergulha sem calcular a água, o volume, a fundura, a profundidade. Na verdade, todo este risco faz parte do processo criativo do inominável autor. “Acho que pode haver poesia, sim, nas minhas letras. Embora eu não me sinta um poeta. O que eu quis dizer é que não sou um leitor de poesia, ainda”, a hesitação temporal detecta o espírito incontrolável para aquele cuja arte não tem limites, mas janelas, portas, becos, fachos. Não vaticine, Luís Capucho vai tirar você desse lugar.

DISCOGRAFIA
1995 – Antigo
1997 – Ovo (participação)
2003 – Lua Singela
2012 – Cinema Íris
2014 – Poema Maldito (previsto)

LIVROS
2005 – Cinema Orly
2007 – Rato
2012 – Mamãe me adora

Luis-Capucho-entrevista

Raphael Vidigal

Fotos: divulgação.

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Comentários pelo Facebook

7 Comentários

  • Otima entrevista. Por tras de grandes cantores temos maravilhosos letristas cabeça.

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  • Muito bom o seu texto, Raphael! Capucho é mesmo um artista marginal, melancólico, visceral em sua linguagem despida e despudorada. Pena que o Ney não o gravou em “Atento aos sinais”. De alguma forma, ou pelo coma ou pela decisão deliberada de não investir na carreira musical, esse moço ficou no meio do caminho. Tomara que surjam bons projetos para ele. Parabéns por garimpar esse poeta e pela sensibilidade! Abraço!

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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