Elis e Gal têm os engajamentos retratados em ‘Não Se Assuste, Pessoa!’

*por Raphael Vidigal

“Madrugada da esperança,/ já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,/ lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão./ Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),/ vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto/ porque a manhã vai chegar.” Thiago de Mello

“À época, vivenciava o contexto do golpe político-judiciário contra Dilma Rousseff, em 2016, e eu estava pesquisando discurso de ódio LGBTQfóbico nas redes sociais. Era uma pesquisa difícil e dolorosa porque eu coletava e analisava milhares de comentários degradantes, que pioraram quando houve o justo cuspe de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro, durante a votação para depor a presidenta”. Na ocasião, Bolsonaro, que seria eleito presidente da República dois anos mais tarde, dedicou o voto ao torturador Carlos Alberto Ustra (1932-2015), que ele definiu como “o pavor de Dilma Rousseff”. Em 2018, Jean Wyllys, alegando ameaças de morte, abriu mão de mais um mandato como deputado federal e se exilou na Alemanha. Ele vivia sob escolta policial desde o assassinato da colega de partido Marielle Franco (1979-2018), também do PSOL, em crime ainda hoje não solucionado pelas autoridades, que chegou a envolver o nome de Bolsonaro.

Nesse meio-tempo, a vida do pesquisador e jornalista pernambucano Renato Contente, formado em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, tomou outros rumos. “Decidi cursar uma disciplina para fugir um pouco do tema da dissertação, e optei por Música Popular Brasileira e Ditadura, de um professor visitante estadunidense chamado Stephen Bocskay, da Universidade de Michigan. Stephen não abrangeu apenas as questões da música popular na ditadura militar, mas, também, na ditadura Vargas. Como ele trabalhou a história da música brasileira de maneira crítica desde antes mesmo da formação do samba, nos deu uma visão histórica robusta”, salienta. Dessa experiência, surgiu a fagulha para o livro “Não Se Assuste Pessoa! – As Personas Políticas de Gal Costa e Elis Regina na Ditadura Militar”, que ele acaba de lançar pela editora Letra e Voz. O projeto é resultado de mais de cinco anos de intensas pesquisas.

Militância. “Eu já tinha um interesse em entender melhor os papéis políticos de Gal e Elis na ditadura, então tomei a avaliação da disciplina como uma oportunidade para iniciar a pesquisa e produzi um artigo. Depois, desenvolvi melhor a ideia e transformei em livro”, explica Contente. “Eu não posso te responder com propriedade como essa temática está presente dentro do contexto de pós-graduação das universidades brasileiras, por não ser a minha área de estudos acadêmica, mas bebi na fonte de pesquisadores brasileiros formidáveis dentro dessa área, como Marcos Napolitano, Rafaela Lunardi e Andrea Lopes”, prossegue. O percurso do livro, que ele descreve como “bastante acidental, pois não se tratava da minha área de estudo específica do mestrado em Comunicação”, teve as suas raízes plantadas na imaginação de Contente em tempos hoje remotos, mas que já traziam a curiosidade que segue com ele.

“As personas políticas de Gal e Elis sempre me intrigaram, justamente por não serem tão comentadas quanto as de artistas homens da MPB. Quando estudamos história e literatura na escola, ao menos na minha geração, era comum estarem presentes nas falas dos professores e nos livros, quando se falava da ditadura militar, referências a Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré. Havia menções a músicas como ‘Cálice’, ‘Angélica’, ‘Vai Passar’, ‘Alegria, Alegria’, ‘Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores’. Mas não se falava da força da atuação de Gal dentro do Tropicalismo e o papel que ela teve depois do exílio dos amigos, nem dos esforços de Elis em prol da redemocratização. Se muito, apenas ‘O Bêbado e a Equilibrista’ (de João Bosco e Aldir Blanc) chegava a ser mencionada no contexto da Anistia”, sustenta. Logo, ele constatou essa janela aberta para inserir a sua nova perspectiva ao debate.

Resgate. “Percebi que havia uma angulação histórica que privilegiava alguns agentes históricos em detrimento de outros, e por razões sexistas, racistas, homofóbicas, que hoje compreendemos melhor. Podemos ainda falar de mais apagamentos no escopo histórico da MPB na ditadura militar. O samba de mulheres como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Clara Nunes e Beth Carvalho, por exemplo, não teve o reconhecimento histórico merecido quanto à sua importância política nesse período”, destaca. Para eleger as protagonistas, Contente recorreu às memórias. A relação com Elis começou antes. “Havia um disco focado nas composições de Rita Lee na minha casa e ele abria com ‘Alô, Alô, Marciano’ na voz de Elis. Eu achava esquisito porque a voz era diferente das outras gravações, mas gostava da música. Em 2001, quando eu tinha dez anos, uma colega da escola me emprestou uma coletânea da Elis em CD”, conta.

Em 2003, outro marco importante. Quando ainda não havia YouTube e o acesso à internet era bastante precário, a gravadora Trama lançou dois DVDs de Elis, com os programas “Ensaio”, comandado por Fernando Faro, e “Grandes Nomes”. “Assistir Elis pela primeira vez foi impactante. Não só por vê-la cantando, mas por vê-la falando, por sua inteligência, carisma e desenvoltura diante das câmeras. Então ela rapidamente se tornou uma referência”. Gal demorou mais. A paixão foi desenvolvida aos poucos. “Eu tenho algumas lembranças de programas de televisão, mas não me chamou tanto a atenção de primeira quanto a Elis. Foi durante o curso de Jornalismo, quando eu já tinha até visto um show dela, que tive uma virada, ao cursar uma disciplina de crítica musical, em 2011. Precisávamos escolher um disco ‘clássico’ para escrever uma resenha, e escolhi ‘Fa-Tal – Gal a Todo Vapor’, meio acidentalmente”, recorda.

Luta. O álbum que trazia “Vapor Barato” (de Jards Macalé e Wally Salomão), um dos maiores sucessos de Gal, despertou a atenção do autor depois de ser apontado pela cantora Érika Martins como o seu preferido em uma lista da MTV. “Ouvi e fiquei fascinado com a potência política e poética do espetáculo gravado em disco. Dali em diante, Gal se tornou um objeto de investigação bastante importante. Por essa razão, sempre que havia uma oportunidade, fiz matérias, reportagens e coberturas sobre Gal durante minha atuação como repórter de cultura no Recife”, afiança. O referido disco foi tão importante que ofereceu o título para o livro de Contente. No período mais sombrio da ditadura, após a promulgação do AI-5, que institucionalizou a tortura e a censura e fechou o Congresso Nacional, parecia impensável que alguém cantasse que “a vida é boa”, mas foi o que fizeram Moraes Moreira e Luiz Galvão na faixa “Dê um Rolê”.

Dos versos dessa canção, Contente pinçou o nome de sua obra: “Não Se Assuste, Pessoa!”. “Era um grito enfático de urgência para o momento vivido, mas também não era apocalíptico. Assinalava a gravidade do contexto, mas imprimia alguma positividade e perspectiva histórica: a vida era boa e valia a pena ser vivida e por isso a luta fazia sentido. E a arte, em geral, mas, especialmente a música, também teve esse papel durante a ditadura, de deixar as pessoas atentas e fortalecidas, para não padecerem sob a ordem do medo, do susto, do horror. Porque esse é o objetivo de um estado autoritário, de um regime de exceção como foi a ditadura”, analisa ele, que vê semelhanças com a realidade atual. “Não vivemos sob uma ditadura militar, mas temos um governo que tenta corromper o estado democrático de direito de várias formas e flerta obscenamente com a ditadura. O que Gal e Elis cantavam faz sentido hoje e ainda fará durante muito tempo, porque ambas falavam de resistência a poderes que visam nos diminuir e extinguir, simbólica e concretamente”.

Controvérsias. Inicialmente, o escritor havia pensado em batizar o livro de “Faz Escuro Mas Nós Cantamos”, de uma música que Elis gravou durante a fase que ele denomina nacional-popular, inspirada em versos do poeta Thiago de Mello. “Mas o engajamento da cantora nessa fase se dava no campo cultural muito mais do que em relação à ditadura propriamente dita. Na verdade, se tratava de um engajamento bastante conservador, que gerou a própria Passeata Contra a Guitarra Elétrica”, relembra. Um dos eventos mais controversos da vida cultural brasileira teve a liderança de Elis e adesões de Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, entre outros. Outro episódio polêmico que marcou a cantora foi um desenho feito pelo cartunista Henfil no semanário “O Pasquim”, em que ele a criticava por ter se apresentado em uma cerimônia oficial do exército, quando foi obrigada pelos militares a cantar o Hino Nacional Brasileiro.

“Ser ‘enterrada’ pelo ‘Pasquim’ foi uma ferida moral monumental para Elis. Ela valorizava bastante sua relação com os círculos intelectuais da esquerda, e se ver desmoralizada por eles a atingiu de maneira violenta. Mas acontece que Elis não foi a única artista a participar das celebrações do sesquicentenário da Independência, em 1972. A lista é imensa e abrange desde Os Mutantes a Elza Soares, Vanusa, Eliana Pittman e Ronnie Von. No próprio famigerado show que Elis fez na III Olímpiada do Exército, dentro desse evento, ela foi seguida por Martinho da Vila e Pery Ribeiro. Nas chamadas para rádio e TV, em convocações para o evento, ela estava ao lado de Roberto Carlos e Pelé. No entanto, só Elis teve essa informação anexada à sua biografia de maneira tão rascante”, critica. No livro, ele discute as razões para que isso tenha ocorrido. “Mas o fato é que Elis rapidamente esboçou uma mudança drástica na carreira”, aponta Contente.

Partidária. “Se voltando para uma linguagem e uma postura mais engajadas, desde o tenso disco ‘Elis’ (1973), os projetos ‘Falso Brilhante’ (1975/1977), ‘Transversal do Tempo’ (1977/1978) e ‘Saudade do Brasil’ (1980) constituem uma espécie de trilogia de uma poderosa reação estética à repressão. Elis deu uma guinada impressionante em sua trajetória e se tornou uma artista extremamente politizada para além do âmbito artístico, promovendo ações em favor da redemocratização, das eleições diretas e dos direitos políticos das minorias”, reflete o autor. O engajamento levou a intérprete a se tornar uma das primeiras personalidades a se filiar ao, à época incipiente, Partido dos Trabalhadores (PT), a ponto de criar intimidade com o ex-presidente Lula, que compareceu ao velório da artista, em 1982. “Elis e Lula eram fascinados um pelo outro. Ela falava sobre ele com animação e admiração, e vice-versa”, relata ele.

Elis chegou, inclusive, a participar voluntariamente de shows em comícios promovidos pelo partido para arrecadar fundos destinados às greves dos metalúrgicos do ABC Paulista, berço político do petista. “Ela via em Lula, e também em FHC, caminhos possíveis para um futuro democrático para o país. E tinha uma visão política muito elaborada, porque, de fato, os dois chegaram à presidência do país e ajudaram a fomentar a democracia brasileira em seus mandatos, independentemente de suas controvérsias”. Na visão de Contente, “Elis já esboçava uma reação estética à ditadura mais consolidada, e tomou de vez o bastão da resistência a partir do espetáculo ‘Falso Brilhante’”, cujo repertório agregava “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”, de Belchior, “Um Por Todos”, de João Bosco e Aldir Blanc, e “Gracias a La Vida”, de Violeta Parra. Já o título do show se valia de verso do bolero “Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”.

Resistência. Na publicação, Contente utiliza a denominação que o pesquisador Marcos Napolitano propõe de “canção dos anos de chumbo” e “canção da abertura” para pensar as atuações de Gal e Elis. “Gal, portanto, tomou as rédeas de um protagonismo político na resistência contra a ditadura no período dos anos de chumbo, cujo marco é o AI-5. Semanas depois do AI-5, promulgado em 13 de dezembro de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e, na sequência, exilados. Gal ficou no Brasil, segurando as pontas do Tropicalismo e representando a resistência política que os amigos praticavam por aqui”, observa. Segundo ele, a baiana “perdeu o chão, afetiva e profissionalmente”, com as detenções e a partida de Caetano e Gil para Londres, onde compuseram “London, London” e “Nega”. “Suas maiores referências haviam partido, inclusive seu produtor e empresário, Guilherme Araújo, que seguiu com os exilados”, diz.

“Nesse contexto, Gal usou a própria dor como mote criativo para criar obras poderosas, de maneira instintiva e ousada. Wally Salomão e Jards Macalé, nomes importantes da contracultura, ampararam ela nesse momento, e a auxiliaram a dar continuidade ao espírito subversivo que o momento demandava”. Da dupla, a artista ainda registrou “Mal Secreto” e “Pontos de Luz”, este no LP “Índia”, de 1973, que teve a capa, focada na parte de baixo do biquíni de Gal, vetada pela ditadura. Para sair, o disco precisou ser vendido em plástico opaco, solução encontrada pelo compositor Roberto Menescal, então diretor artístico da gravadora Philips. “A censura à capa de ‘Índia’ não a afetou negativamente. Na verdade, impulsionou as vendas do disco e gerou bastante burburinho em torno da obra. O que afetou os rumos de Gal de maneira mais decisiva foi a recepção irregular ao disco subsequente, ‘Cantar’, de 1974”, conta.

Momento. “Nele, Gal recolhia as garras políticas e se voltava de maneira mais significativa para a sua essência de cantora. Isso motivou mudanças substanciais na condução da carreira da baiana”, complementa. Contente faz questão de frisar a importância de Gal e Elis para a história da música brasileira. “Mas a força da música brasileira e a resistência advinda dela é bastante poderosa, inventiva e autônoma. Não sei se há legados para serem herdados ou transferidos, mas, certamente, as duas influenciaram diversos artistas, tanto artística quanto politicamente”, opina. Para corroborar essa percepção, ele criou uma playlist no Spotify, homônima ao livro que acaba de lançar, com canções que considera eloquentes para os dias atuais, casos de “Divino Maravilhoso”, “Aos Nossos Filhos”, “Presente Cotidiano”, “Aquarela do Brasil” e “Redescobrir”.

“Várias canções de Gal e Elis incorporam problemáticas e sentimentos contemporâneos, pela característica atemporal de grande parte do trabalho delas”, assegura. Contente tem a intenção de produzir uma versão ampliada do livro, atualmente com 144 páginas e sendo vendido a R$38 pelo site da editora. A ideia é “detalhar a análise de alguns espetáculos e álbuns e apresentar imagens relevantes”. “Não conseguimos colocar imagens desta vez, por conta de direitos de uso de imagem, mas espero poder contornar isso em uma futura reedição”, justifica. No radar, ele revela a vontade de escrever a biografia de Gal, “já que ainda não há nenhum livro sobre ela além deste”. “Eu tenho um vasto material de arquivo que não utilizei, então seria um projeto interessante”, finaliza.

Fotos: Thereza Eugênia; e Awdrey Permuy/Divulgação, respectivamente.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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