Eduardo Coutinho: cineasta da liberdade

“Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus – um porque é eterno, o outro porque vai morrer.
O olhar do poeta é como o olhar de um condenado…
como o olhar de Deus…” Mario Quintana

Rio de Janeiro, 10/11/2011. Eduardo Coutinho. Foto: Guillermo Giansanti

Em Eduardo Coutinho tudo o que é excesso, enfeite e cenário desaparece para dar amplidão ao que lhe importa: o que tem a dizer homens e mulheres em situações limite, de conflito, e antes que o espanto ocorra: as mais simples, e básicas, o que compreende a existência não é nada de estapafúrdio ou mirabolante, embora num primeiro momento o seja e num segundo ainda mais. Eduardo Coutinho estava interessado em investigar a vida, e descobriu que para a pessoa que ele era isso se fazia através do silêncio e do olhar fraterno.

Em muitos de seus documentários é possível escutar em um ou outro momento um sussurro ou uma pergunta indiscreta, que logo é atravessada pela personagem à frente de suas lentes, afinal para o cineasta era indispensável oferecer questionamentos e dispensar as absolutas verdades, derrubando o tabu de que a imagem oferece o retrato fiel e incontestável. Na busca não abriu mão de costurar as finas teias da variedade, do contraditório e do indefinido, como no clássico “Jogo de Cena” em que não se distingue a ação do ensaio.

Outra característica era a de se deixar à mercê dos acontecimentos, da vida, do inesperado, do improviso e do momento ao qual não se escapa pela fresta aberta na janela em que a água entra e molha. O roteiro era o ponto de partida de um impulso solto que pela intervenção dos entrevistados e dos espectadores tomaria formas às quais lhe fugia, com gosto, o controle. Gesto denominado e teorizado pela contemporaneidade como interação, mas que na cabeça e no coração de Eduardo Coutinho atendia por um apelido: liberdade.

FILMOGRAFIA
1966 – O Pacto (episódio de ABC do Amor)
1968 – O Homem que Comprou o Mundo
1970 – Faustão
1976 – O Pistoleiro de Serra Talhada
1976 – Seis Dias em Ouricuri
1978 – Teodorico, o Imperador do Sertão
1979 – Exu, uma Tragédia Sangrenta
1980 – Portinari, o Menino de Brodósqui
1985 – Cabra Marcado Para Morrer
1987 – Santa Marta, Duas Semanas no Morro
1989 – Volta Redonda, o Memorial da Greve
1989 – O Jogo da Dívida
1991 – O Fio da Memória
1992 – A Lei e a Vida
1993 – Boca de Lixo
1994 – Os Romeiros de Padre Cícero
1999 – Santo Forte
2000 – Babilônia 2000
2002 – Edifício Master
2004 – Peões
2005 – O Fim e o Princípio
2007 – Jogo de Cena
2009 – Moscou
2010 – Um Dia na Vida
2011 – As Canções

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Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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