Dora Lopes, nascida há cem anos, fazia quizumba e anarquizava o coreto

*Raphael Vidigal Aroeira

Ela aparece de biquíni de oncinha ao lado de uma criança chorosa nas areias escaldantes de Copacabana numa época em que isso ainda era um acinte. Noutra notícia da época, é reportado que ela se submeteu a uma cirurgia para ganhar um nariz novo e, segundo a manchete, agora “conseguiu o que queria”. Esticada num sofá acolchoado, é premiada com a seguinte legenda: “Dora Lopes fez plástica no nariz, mas resolveu mostrar o corpo todo”. Ao lado de Dolores Duran, é dito que ambas “se vestiram para matar em uma boate carioca”. Os recortes comprovam que a indústria de fofocas de celebridades data de longa data, mas não chegam a esclarecer quem foi, de fato, Dora Lopes. Na década de 1950, ela povoava o imaginário popular através da mídia.

Nascida há cem anos, Dora escreveu uma música pra lá de sugestiva, que ganhou interpretação do amigo Agnaldo Timóteo. “Amor Proibido”, lançada em 1972, trazia os versos: “Já ficou entendido/ Que o amor que vivemos/ É um amor proibido/ Pode o mundo inteiro falar/ Que eu fico contigo…”. E, mais à frente: “E até o amigo/ Meu maior confidente/ Achou graça de mim/ Disse estar tudo errado/ O que eu achei certo/ Ele nunca amou assim…”. Numa armação pouco elaborada, mas convincente à proposta, Dora é incidentalmente flagrada em pose romântica diante de Wilson, rapaz que acabara de chegar a seu apartamento durante uma entrevista à Revista do Rádio – a mais prestigiada de tal momento –, com quem troca olhares apaixonados captados pela câmera.

Para os que conheciam Dora minimamente de perto, não era segredo para ninguém sua homossexualidade. Despachada, farrista, ela abriu boates dedicadas ao público LGBTQIA+ (que na ocasião contava com menos letras), embora não explicitamente. Tudo ficava subentendido, como nos bons sambas de Dora, que abusavam de gírias e expressões da época. Ela foi uma das propagadoras mais eficazes do chamado samba teleco-teco, que se debatia contra a influência estrangeira. “Neca de transviado, neca de rock’n’roll, isso tudo é de araque, o negócio é teleco-teco”, bradava Dora na introdução de “Falso Cabrito”, sem esconder seu bom-humor. Outra contribuição pioneira foi à bossa nova, afinal é dela a referência ao movimento em “Dicionário da Gíria”.

A faixa abre “Enciclopédia da Gíria”, em cuja capa Dora aparece como uma garota de Ipanema a seu estilo: debochada, arteira e curvilínea, só de biquíni, com o mar e o Pão de Açúcar ao fundo, e um sorriso inconfundível, com as sobrancelhas arqueadas e um pano leve sobre a cabeça. No mesmo disco, ela interpreta “Tostão Não Tem Troco”, que exalta o suingue. Com mais compactos de 78 rotações do que LPs lançados – incluindo o sucesso carnavalesco “Pó de Mico”, de 1962, Dora Lopes só voltou ao disco em 1965, com “Minha Música e Eu”. Neste ano, sofreu um grave acidente de carro, quando teria dormido ao volante após adquirir seu novo conversível, e quase perdeu a vida, fraturando nariz, costelas, maxilar, com cortes profundos em seu aloirado couro cabeludo.

A experiência parece tê-la modificado. Durante um tempo, Dora decidiu não descolorir os cabelos, enquanto eles cresciam e retomavam a antiga forma vigorosa. O grande acontecimento de sua vida artística foi a gravação do LP “Testamento”, de 1974. Na capa, um lindo retrato de Dora a lápis, onde ela sensualmente puxava uma mecha de cabelo à boca. Como previa o título, Dora versava sobre a morte, e o que deixaria para as gerações seguintes, enquanto prestava reverência à melhor amiga Dalva de Oliveira – morta dois anos antes, em 1972, vítima de uma hemorragia interna, aos 55 anos –, a Dolores Duran, Noel Rosa, Ciro Monteiro, Pixinguinha, Ary Barroso, Agostinho dos Santos, dentre outros, citados nominalmente no samba “Ponto de Encontro”, maior sucesso da carreira de Dora. Feita com Clayton, ela chegou ao topo com Célia.

O tema da finitude também ditava o ritmo em “Se Eu Morrer Amanhã, Está Tudo Certo”, “Oração a Dalva”, “Diploma de Sambista”, “Com Dolores no Céu” e “Samba da Madrugada”, que vaticinava: “Amanhã eu já posso morrer/ Pois sei que todo boêmio vai sofrer/ Eu não sou culpada/ De gostar de beber e viver na madrugada”, uma perfeita definição da persona notívaga e da figura despachada de Dora Lopes que aparece em suas composições e também na cantora, de voz limpa, ligeiramente rouca, e grave. Em 1976, Dora colocou nas prateleiras o LP “Esta É Minha Filosofia”, de menor impacto, em que rebobinava fórmulas consagradas e dedicava especial atenção às religiões de matriz africana, como na desaforada “A Mandiga Vai Voltar”, de título autoexplicativo. Já “A Palavra Amor”, de sua autoria, versava sobre um fim-de-caso de maneira solene, mostrando a protagonista enlutada. Nada mais Dora…

O diferencial de sua obra está na simbiose entre o ritmo extravagante e a voz largada sobre composições de tonalidade melancólica, quase como uma crítica à insignificância humana que, nem por isso, deve deixar de sacudir a vida enquanto ela bate no peito como um bom samba. Dora Lopes morreu em 1983, aos 61 anos, sem ser devidamente diagnosticada com o câncer de pâncreas que a levou para junto de Sylvinha Telles, Dolores, Dalva e outras amigas que ela prestigiou após a partida precoce de cada uma delas. Em seu velório, havia poucas pessoas, o que gerou indignação do amigo Agnaldo Timóteo e de Edith Veiga, que também a gravou. Dora Lopes, que fugiu de casa aos 14 anos para ser cantora e tirou nota máxima no programa de calouros de Ary Barroso, agora se juntava a Francisco Alves, que a presentou com um buquê de rosas na estreia. Como ela dizia num samba: “Faço quizumba e anarquizo o coreto!”.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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