Centenário de Gilberto Milfont: cantor foi de Carmen Miranda a Lupicínio

*Raphael Vidigal Aroeira

A voz era tão específica que lembrava a da maior estrela do rádio da época: Carmen Miranda. O espanto se acentuava ao constatar que aquela voz infantil e aguda não pertencia à irmã gêmea Maninha, mas ao pequeno João, então um adolescente entre seus 13 e 14 anos. A estreia nas ondas sonoras foi através do programa “Hora Infantil”. Nascido em Lavras da Mangabeira, no interior do Ceará, há um século, Gilberto Milfont adotou o nome artístico quando, com a voz já amadurecida após a puberdade, voltou ao rádio. Ainda morando no Ceará, ele copiava as letras das músicas que ecoavam primeiro no Rio de Janeiro, com ajuda da irmã Maninha, que decorava as melodias. Foi graças a essa artimanha que ele cantou “Atire a Primeira Pedra”, de Mário Lago e Ataulfo Alves, antes de Orlando Silva gravá-la em LP, no ano de 1943…

Dois anos depois, era a vez de Gilberto Milfont aportar no Rio de Janeiro, meca da indústria cultural brasileira. A Rádio Mayrink Veiga e, a seguir, a Rádio Nacional, lhe serviram de moradia. Milfont tinha como escola o canto de Orlando Silva, conjugando suavidade e potência vocal, com as palavras bem-articuladas e dando a medida certa a cada sentimento presente nas letras. Gilberto Milfont, um sujeitinho atarracado de baixíssima estatura, elevava as canções às alturas. Como compositor, entregou o belo samba-canção “Esquece” para Dick Farney lançar, em 1948, e estreou em disco com duas composições de Joubert de Carvalho, dentre elas a conhecidíssima “Maringá”. Outro sucesso foram as marchinhas de Carnaval da dupla formada por Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, como “Pra Seu Governo”, “Um Falso Amor”, e outras.

Contudo, Milfont, que jamais alcançou o prestígio de cantores da tarimba de Francisco Alves, Silvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, e mesmo dos contemporâneos Dick Farney e Lúcio Alves, encontrou seu melhor momento ao interpretar as canções doloridas e magoadas de Lupicínio Rodrigues, prenhes de um rancor que cabiam bem para sua voz, ao mesmo tempo firme e sentida, em especial o samba-canção “Castigo” e “As Aparências Enganam”. Essa expressão, que se transformou em peça da sabedoria popular, dá a letra da desilusão embutida nesta canção com toda a pinta e assinatura de Lupicínio. A música conta a história de uma mulher desejada pelo protagonista, que acabou se casando com outro. Nada de novo na enciclopédia da dor-de-cotovelo da música popular brasileira. Mas não deixa de ser uma pérola rara, como o capítulo ocupado por Gilberto Milfont no repertório nacional e seu dom peculiar.

Quando morreu, em 2017, aos 95 anos, Gilberto Milfont já estava há muito afastado dos holofotes, o que aconteceu, de fato, com a ascensão da bossa nova, em fins da década de 1950. Passou de rosto e voz da Rádio Nacional a funcionário dos bastidores da empresa, quando participou da elaboração de programas, conteúdos culturais e lançamentos de discos, creditado somente com as letras pequeninas nos portfólios e formulários. De sua persona, uma das imagens mais emblemáticas é aquela em que aparece no colo do radialista César de Alencar e da cantora Linda Batista, com um sorriso largo de criança, os dentes mal tratados pelos tempos de privação no interior do Ceará, e uma expressão de divertimento infantil. A fotografia revela, além do pequeno tamanho e peso de Gilberto Milfont, a alegria que ele levava a colegas de rádio. O que permite arriscar que o seu sucesso foi maior entre pares do que público.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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