Documentário sobre Luiz Melodia, ‘Todas as Melodias’ estreia em festival

*por Raphael Vidigal

“olhar o que é,
como é, por natureza, indefinido” Wally Salomão

Em silêncio, o corpo lânguido, esguio, magro, preto e afiado como o de uma pantera exibe gestos entre a gana e a sensualidade. Tudo ali diz que ele está vivo, respira, emite vibrações sonoras por todos os poros. “Todas as Melodias” acontece assim em seus primeiros instantes. “Faz parte de uma linguagem própria, de propor um certo distanciamento, uma desconstrução entre os signos, para prestarmos uma atenção distinta a determinados elementos. Melodia era um grande dançarino, seus movimentos incríveis ficam mais claros sem a música”, justifica o diretor Marco Abujamra, sobre a abertura do documentário que tem como personagem Luiz Melodia, morto de câncer aos 66 anos, em 2017.

De lá pra cá, o carioca do Morro de São Carlos que cantou o bairro onde nasceu em músicas como “Estácio, Holly Estácio” e “Estácio, Eu e Você” recebeu homenagens no Prêmio da Música Brasileira, ganhou um belo tributo em disco de Pedro Luís, intitulado “Vale Quanto Pesa”, e foi tema da biografia “Meu Nome É Ébano”, de Toninho Vaz, além de ter resgatadas duas inéditas: uma, virou parceria com Jards Macalé e Roberto Frejat, lançada no álbum “Ao Redor do Precipício”, e, a outra, “Feto, Poeta do Morro”, censurada durante a ditadura, finalmente pôde ver a luz do dia em meio às trevas do momento político nacional. Agora, chegou a vez da estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Casal. “Gosto de música desde pequeno, e sempre ouvi muito o Melodia. Mas as lembranças mais queridas são dos shows no Circo Voador, já na minha adolescência”, rememora Abujamra. Segundo ele, as biografias audiovisuais entraram em sua vida por mero acaso. A primeira, “Um Morcego na Porta Principal”, de 2007, que retratou o rebelde e irreverente Jards Macalé, de quem Abujamra é fã declarado, faturou o Prêmio Especial do Júri do Festival do Rio e venceu o Festival In-Edit, dedicado a documentários musicais. Na sequência, ele se aventurou a descortinar as trajetórias de Mário Lago e de Paulo Autran, em produções idealizadas por Mariana Marinho, sua sócia na produtora Dona Rosa.

Melodia estava “vivo, feliz com a ideia da cinebiografia”, quando Abujamra e Juca Worcman, do Canal Curta!, resolveram levar a ideia do papel para a tela. Com a partida precoce do homenageado – que lutava contra um tipo raro de mieloma que atacou o sangue –, a viúva Jane Reis, mãe de seu filho Mahal, tomou parte preponderante na história. “Jane Reis é uma figura belíssima. De certa forma, o filme é sobre o casal, a cumplicidade, a presença de um na vida do outro”, avaliza o diretor. No longa, Jane canta uma música que revela ter feito para Melodia quando ele, de repente, parou de compor ao violão e passou a escrever somente letras, e admite que ele não gostava dessa cutucada carinhosa que era, também, um puxão de orelhas.

Racismo. Outro assunto abordado por Jane é o preconceito sofrido pelo marido em razão da cor de sua pele. Sem esconder a indignação, ela constata a premência do racismo no Brasil de 2020. E, entre o pesar e a raiva, relembra que Melodia era impedido de visitar a casa para onde eles iriam se mudar, e que foi barrado em um hotel na madrugada de Salvador, na Bahia, o mais negro dos Estados brasileiros. “Melodia sofreu muito com o racismo ao longo de sua vida. Procuramos deixar isso evidente no filme através dos depoimentos de Jane Reis, de suas irmãs, e de seu filho Hiran”, declara Abujamra.

Hiran foi o filho que Melodia cantou na música “Questão de Posse”, e que ele só conheceu quando o rebento tinha onze anos. A família da mãe, que era contra o casamento com um homem negro e recusava um herdeiro com essa característica, a levou para longe de Melodia quando ela estava grávida. Ao voltar de uma turnê e encontrar a casa vazia, o músico teria ficado arrasado, de acordo com suas irmãs. “O filme tem uma proposta sensorial, musical, mas era impossível deixar esses assuntos de fora. Procurei respeitar ao máximo o lugar de fala de todos os envolvidos”, garante o cineasta.

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Depoimentos. Arnaldo Antunes calça os sapatos que eram de Luiz Melodia. Céu canta a música que teve a glória de interpretar com o ídolo. Liniker solta o vozeirão num clássico. Jards Macalé decodifica “Juventude Transviada” e Zezé Motta, alçada a um posto justo, confessa aquilo que não precisava entender para apreciar. As codiretoras Mariana Marinho e Viviane D’Avilla auxiliaram Abujamra a escolher os entrevistados. “Já tinha trabalhado no ‘Paulo Autran: O Senhor dos Palcos’ essa ideia das interpretações dos participantes, ao invés de entrevistas puras, e fiquei bem satisfeito”, conta ele.

“A proposta foi trazermos para o filme interpretações das composições do Melodia, através de artistas que tivessem uma relação forte afetiva ou artística com ele. Um fator decisivo na escolha dos participantes foi a singularidade e força de suas interpretações”, complementa. O próprio Melodia raramente surge falando. “Eu falo, falo, falo que não falo nada/ Eu mostro, tanto mostro que sou santo nada”, dizia aquela famosa canção. “Luiz era um gigante. Ele deu muitos depoimentos ao longo de sua carreira, mas optei por focar na sua expressão artística”, sublinha o entrevistado, que também se valeu de registros de arquivo.

Futuro. É nessas imagens antigas que Wally Salomão, criador do histórico show “Fa-Tal: Gal a Todo Vapor”, busca contornar o mistério inerente à poesia de Melodia. Uma das passagens mais saborosas é a que ele explica o batismo da canção “Pérola Negra”, inspirado por uma travesti. A comparação com as ruas das favelas contesta a acusação de veículos da mídia de que as letras do artista não teriam nexo, o que colaborou para que a indústria fonográfica o taxasse de maldito, a exemplo dos poetas franceses Arthur Rimbaud e Charles Baudelaire.

“A ideia de que a poesia pode não ter nexo já é uma ideia muito limitada. O problema é a falta de inteligência e sensibilidade de quem ouve, ou, muitas vezes, de preguiça mesmo. Ouvindo com atenção, a gente percebe que a poesia de Melodia tem um força e um sentido poderosíssimos”, afiança Abujamra, que ainda tem uma ficção e outro documentário para serem filmados no ano que vem. “A escolha do tema de um documentário tem que ser muito pensada, são anos de trabalho do projeto até o lançamento. Tem que haver uma paixão”, reflete ele. E, por fim, manda um recado para o Brasil de Luiz Melodia e Jane, que elegeu Jair Bolsonaro à Presidência da República. “Pense. Pense de novo. Depois reflita e pense mais uma vez, principalmente antes de votar”, encerra.

Fotos: Daryan Dornelles/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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