80 anos de Pelé, o Rei do Futebol, em 10 músicas brasileiras

*por Raphael Vidigal

“O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé. (…) Afortunadamente, no caso do Pelé, a comida de arte que ele oferece atinge o paladar de todos. O futebol é desses raros exemplos de arte corporal e mental que promovem a felicidade unânime, embora dividindo a massa, pois a fusão íntima se opera em torno da beleza do gesto, venha de que corpo vier.” Carlos Drummond de Andrade

O apelido do craque virou sinônimo de excelência e habilidade. Nascido Edson Arantes do Nascimento na cidade de Três Corações, em Minas Gerais, Pelé conquistou o mundo. Literalmente, diga-se de passagem: ergueu três vezes a Copa do Mundo de seleções com a camisa brasileira, a primeira delas logo aos 17 anos, em 1958, na Suécia, jogando para as cucuias o tal complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues expressara em palavras e eternizando a camisa 10.

Com a bola nos pés, era um Rei em campo: negro, forte, rápido, habilidoso, bom na cabeçada potente tanto quanto em amaciar no peito a pelota como se fosse feita de algodão. A predominância física sobre os adversários ainda lhe rendeu o epíteto de Atleta do Século. Com mais de mil gols na carreira, o atacante do Santos e da Seleção Brasileira foi tema de músicas e também se arriscou a compor, tocar e até cantar. Nos 80 anos de Pelé, relembramos algumas canções.

“Rei Pelé” (chachachá, 1961) – Wilson Batista, Luiz Wanderley e Jorge de Castro
Pelé sequer tinha vencido a sua segunda Copa do Mundo, quando, em 1961, um chachachá de Wilson Batista, Luiz Wanderley e Jorge de Castro veio em sua homenagem, algo que já dava pistas do espanto que ele causava ao praticar a arte do futebol com as camisas do Santos e do Brasil. Ali, ele já havia sido coroado rei. Lançada por Luiz Wanderley, “Rei Pelé” ganhou uma regravação do Coro do Clube do Guri dois anos depois. A letra, ingênua, exalta as qualidades do homenageado, e rima “Pelé” com “café”. Outro destaque fica para o fato de, apesar de o Santos ser de São Paulo, ter se habituado a realizar jogos no Maracanã, no Rio de Janeiro, o que não dava maiores chances aos adversários.

“Pelé” (baião, 1962) – Gordurinha
O grande destaque da Seleção Brasileira na conquista do bicampeonato da Copa do Mundo, em 1962, no Chile, em uma final contra a Tchecoslováquia, foi Garrincha, depois que Pelé, contundido, não pôde participar dos jogos decisivos. Aliás, Pelé e Garrincha jamais foram derrotados jogando juntos. Apesar disso, o nome do camisa 10 já era unanimidade e tornou-se adjetivo. Prova é a cantiga “Pelé dos Pobres”, lançada naquele ano pela dupla sertaneja Craveiro & Cravinho, assim como “Pelé”, baião de Gordurinha gravado por Paulo Tito. “Minha vizinha nunca foi Pelé/ Mas fica dando bola pra mim/ Ela finge que está estendendo roupa/ Fica sempre dando sopa/ E o negócio tá ruim”, narra a letra.

“Obrigado, Pelé” (samba de gafieira, 1971) – Miguel Gustavo
A conquista do tricampeonato mundial em 1970, no México, com direito a uma goleada por 4 a 1 na poderosa Itália no jogo final, foi um acontecimento. Aquele escrete canarinho seria considerado por muitos o melhor de todos os tempos e, claro, Pelé era sua grande estrela. Com a sensação do dever cumprido, Pelé anunciou a sua aposentadoria da Seleção Brasileira em 1971, após três títulos mundiais, 92 jogos oficiais e 77 gols. Para agradecer todos os serviços prestados pelo Rei, Miguel Gustavo compôs o animado samba de gafieira “Obrigado, Pelé”, lançado pelo conjunto MPB-4 e, mais tarde, regravado por Wilson Simonal que, aliás, frequentava a concentração brasileira e se tornou um amigo íntimo de Pelé.

“Meio-de-campo” (MPB, 1973) – Gilberto Gil
Gilberto Gil homenageia o jogador Afonsinho, habilidoso meia do Fluminense que tinha uma postura combativa contra a ditadura militar, na música “Meio-de-campo”, de 1973. Voltando do exílio em Londres imposto pelos militares, Gil mistura, com a habitual inteligência, versos que fazem referência tanto ao esporte quanto ao conturbado momento político da época, além de tecer reflexões existenciais. Lançada com sucesso por Elis Regina no álbum “Elis”, a música faz referência a outros ídolos dos gramados, como o Rei Pelé, atacante do Santos; e Tostão, do Cruzeiro; dois importantes nomes na conquista, pela Seleção Brasileira, do Tricampeonato Mundial no México três anos antes, em 70.

“O Rei Pelé” (rojão, 1974) – Jackson do Pandeiro e Sebastião Batista
No ano de 1974, já fora da Seleção Brasileira, Pelé realizou os seus últimos jogos com a camisa do Santos, que defendeu com galhardia e habilidade. Ao todo, foram 1.116 jogos e 1.091 gols vestindo o manto do Peixe, sem contar as cinco conquistas consecutivas de Taça Brasil, de 1961 a 1965, só interrompidas pelo Cruzeiro de Tostão que, em 1966, aplicou uma goleada de 6 a 2 no time da Vila Belmiro e ficou com o caneco. Para completar, Pelé levantou com o Santos duas Libertadores da América, em 1962 e 1963. O currículo era mais do que suficiente para que Jackson do Pandeiro, torcedor do Treze da Paraíba, prestasse as reverências com o rojão “O Rei Pelé”, a parceria com Sebastião Batista de 1974.

“Love, Love, Love” (balada, 1978) – Caetano Veloso
Pelé pendurou as chuteiras em 1977, após uma passagem pelo Cosmos, de Nova York, nos Estados Unidos, que rendeu 106 partidas e 64 gols, e que ajudaram na conquista da liga norte-americana de futebol daquele ano. No ano seguinte, Caetano Veloso gravou no disco “Muito (Dentro da Estrela Azulada)”, a balada “Love, Love, Love”. Atento, o baiano reproduzia no título as palavras do Rei em sua despedida dos gramados: “Eu espero a visão que comove/ Pelé disse: Love, Love, Love”. As palavras de Pelé também ficaram gravadas quando, em 1969, numa cobrança de pênalti contra o Vasco, ele anotou o milésimo gol de sua carreira, e o dedicou às crianças: “Olha o Natal das crianças”, apelou ele.

“O Futebol” (samba, 1989) – Chico Buarque
Não é segredo para ninguém a paixão de Chico Buarque pelo futebol. Torcedor assumido do Fluminense, ele se permitiu até rimar futebol com rock’n’roll. Outro momento sagrado para o compositor são as peladas semanais, e, para isso, ele possui campo, time, uniforme, tudo como manda o figurino. Para expressar esse amor em ritmo não foi difícil para Chico, que resolveu fazê-lo em música de 1989, lançada no disco com seu nome. Além de referências ao universo particular do esporte, Chico não deixar de homenagear seus ídolos, e os cita nominalmente: Didi, Mané, Pelé e Canhoteiro, numa tabela que, certamente, teria um único desfecho: “Para estufar esse filó como eu sonhei/ Só se eu fosse um Rei”, canta.

“O Nome do Rei É Pelé” (samba rock, 2004) – Jorge Ben Jor
Aficionado por futebol, Jorge Ben Jor deixou a paixão explícita em composições que saúdam o Flamengo, seu time de coração. A torcida pela Seleção Brasileira não fica de lado e, em 2004, ele saudou, com todas as honras, o maior jogador de todos os tempos, com o samba rock “O Nome do Rei é Pelé”. A letra é um verdadeiro compêndio da obra que o Atleta do Século escreveu com os pés, e remonta, inclusive, ao pai e à mãe do craque, Dondinho e Celeste. “Com a realeza de fazer 1.281 gols lindos/ De cabeça, de virada, de balãozinho, de bate pronto, de bicicleta, de carrinho, de letra, de peito, de peixinho, de falta, de pênalti e nos incríveis gols de placa/ E no bendito milésimo gol”, entoa Jorge Ben Jor.

“Pelé” (música infantil, 2018) – Paulo Tatit e Zé Tatit
Para as crianças que não puderam ver o Rei do Futebol de perto e que ainda não tiveram acesso às imagens que revelam a grandeza do jogador em campo, os irmãos Paulo Tatit e Zé Tatit compuseram “Pelé”, música infantil incluída no álbum de 2018 do duo Palavra Cantada, formado por Paulo e Sandra Peres. “Você aí que diz que sabe tudo de bola/ Que é craque até em jogo de botão/ O que eu vou te contar/ Não se aprende na escola/ São coisas de uma outra dimensão”, introduz a letra, que continua: “Era um moleque negro/ Que brilhava nos campos/ Tão pobres lá de Três Corações/ Foi contratado pra jogar no time do Santos/ E convocado pra Seleção”. A faixa ganhou um belíssimo videoclipe.

“O Homem dos Três Corações” (samba, 2020) – Altay Veloso e Paulo César Feital
“O samba é um passaporte, a nossa principal carteira de identidade, assim como o futebol”, compara Alcione. Flamenguista e torcedora devota da Seleção Brasileira, ela presta reverência ao Rei do Futebol e Atleta do Século, nascido no interior das Minas Gerais, em “O Homem dos Três Corações”, de Altay Veloso e Paulo César Feital, que combina versos com a agilidade de uma troca de passes: “Um drible da vaca na dor da ilusão, no revés/ Os deuses ao verem Arantes improvisar/ Assim como fazem artistas de jazz/ E rompem as regras que nem Holiday no piano-bar/ Perguntaram quem é esse homem de três corações a dançar?”. A música foi lançada em seu mais recente álbum, “Tijolo por Tijolo”.

*Bônus
“Tabelinha” (samba e samba-canção, 1969) – Pelé & Elis Regina
Em 1969, a gravadora Philips teve uma ideia de ouro: juntar o maior jogador de futebol à melhor cantora do país. Assim nasceu a “Tabelinha Pelé x Elis”, um EP que trazia duas composições assinadas por Edson Arantes do Nascimento, o Rei do Futebol. A primeira era “Perdão, Não Tem”, um samba-canção dolente. Durante a interpretação, Elis cutuca o Rei: “Eu acho que quando você fez essa música, foi com dor-de-cotovelo”. “Agora, depois de tanto tempo/ Quer partir, sem dizer qual a razão”, diz a letra. Menos inspirada, a faixa “Vexamão” é quase um diálogo, em que Pelé justifica uma falta de habilidade que nunca se observou dentro de campo: “Outro dia me pegaram de surpresa/ (…) E fizeram eu cantar”.

Foto: Luiz Paulo Machado/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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