Defesa da pichação como obra de arte

“Quando você faz as pazes com as autoridades, você se torna uma delas.” Jim Morrison

pichacao

Toda manifestação artística carrega em seu bojo uma ética, um conjunto de valores, do qual você pode concordar ou discordar. O importante é analisar, portanto, sua estética e conteúdo. A pichação data do período da Antiguidade, quando os muros de Pompéia eram utilizados para receber poesia, política e xingamentos chulos. Essa característica se manteve. Um dos principais elementos da pichação é a insubordinação. Esse caráter provocativo, rebelde, subversivo, transgressor, está associado, em primeira instância, à sua ilegalidade, ao combate por parte de instituições de autoridade, e à quebra da barreira entre o particular e o público, outra discussão tão comum na atual sociedade quanto a não assunção explícita de autoria, decorrente de sua desautorização. Se não fosse proibida, não teria tanto valor artístico a pichação.

ROMPIMENTO DA ORDEM
A pichação não pede licença, não faz acordos ou concessões, ela invade. O roqueiro Jim Morrison afirma numa das mais célebres frases: “Sempre me fascinaram os ideais que pregam a rebelião contra a autoridade. As noções de rompimento e desestabilização da ordem também me seduzem”. O que contém essa atitude de irreverência, além de sua óbvia irresponsabilidade, é o questionamento de um modelo de imposição de regras, fôrmas, limites, e, sobretudo, verdades. O contexto em que a pichação se insere, e, em última análise, os locais em que aparece, vão ao encontro da noção contemporânea e moderna de arte, de que esta não deve estar num pedestal, além da vida, mas no meio de suas entranhas, no olho do furacão, imersa, na rua, no muro, no lixo.

POPULAR COMO O SAMBA
É possível compor uma música reafirmando ideias conservadoras, modelos estabelecidos, verdades mais do que repetidas. Da mesma maneira pode-se utilizar a pichação para incitar a violência, como serve também de forte arma contra abusos de poder, sobretudo contra os mais pobres. Afinal esta é uma arte nascida nas camadas mais populares do país, e como tal, o samba também foi combatido e associado à violência, ao banditismo, da mesma maneira a capoeira, e tantas mais. O Brasil é um país pródigo em arte popular. Nela reside sua face mais criativa e inspiradora. Com poucos recursos, dá-se vazão ao improviso, ao inusitado. No futebol é assim. Embora seja bom propor uma diferenciação que exclui esporte e culinária do conceito de arte aqui pensado.

ESTÉTICA DO CÓDIGO 
Por que a arte ultrapassa a condição exposta. Um drible não almeja dizer mais do que um drible. Está finalizado em sua física. Uma comida encerra-se em sua função, não alcança significados além do paladar, da visão e do olfato. Por outro lado, a partir de uma imagem, de uma frase, de um movimento de dança abre-se a possibilidade de interpretar mensagens, sentimentos, sensações, conteúdos. O rosto de uma bailarina pode expressar coragem, desejo, amor, ciúme, liberdade. Não é só um rosto. A pichação, além do valor contestatório, possui uma estética, um código, uma conotação formal e simbólica, de hieróglifo, de demarcação de linguagem que exprime a dialética e o alfabeto de um território não apenas geográfico, mas social, de formação, de classe, de defesa de um povo.

AUTÊNTICA CULTURA INDÍGENA
Pode-se estabelecer um paralelo com a cultura negra, dos africanos, dos árabes, e, no nosso quintal, em especial dos índios. Esses procuram preservar os seus ritos, suas tatuagens, a maneira de enfeitar o corpo, entre outros costumes essenciais e de existência. Resistem à tentativa da elite econômica de impor preceitos culturais, acusando-os de barbárie. Numa época da história da arte em que a mídia oficial, no Brasil, ocupa-se apenas de divulgar protótipos fabricados pela indústria, vazios, plastificados, carentes de um mínimo de alma, a pichação conserva-se como uma manifestação autêntica e legítima, destituída do rigor da cartilha e do selo de garantia de instituições arbitrárias. Nesse cenário, o grafite nada mais é que a sua prima comportada. Como é para a arte o entretenimento.

obra-arte

Raphael Vidigal

Fotos: Alessandra Prado.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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