Crítica: peça “Sem título, óleo sobre tela” promove alegoria da situação política

“Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e prestimosos. É a vossa função social!” Oswald de Andrade

Peça debate situação política do país

Datada de 2014, quando foi encenada pela primeira vez, a peça “Sem título, óleo sobre tela” parte de uma premissa política sem se prender exclusivamente a ela. A questão temporal também não engessa a montagem, que tem o mérito de oferecer elementos capazes de se conectar às várias sensibilidades. Dito isto, escapa da redoma que invariavelmente distancia o teatro que propõe certo engajamento nos últimos tempos, sem dar voltas ao redor de discurso cujo alvo é justamente o isolamento e a criação de nichos por parte das classes dominantes. Com uma dramaturgia, a rigor, simples, todo o potencial da trama está contido no subtexto e, nisto, o texto tem habilidade ao selecionar palavras que jamais se encerram em apenas um sentido. Assim como os gestos, já que o humor físico é uma das apostas feitas para trazer a reflexão através de risos.

Os intérpretes elaboram suas personagens superficialmente, assim como pede o espetáculo. Existe ali algo de “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade. Eles representam estereótipos, já que não apresentam nomes e se definem muito mais pelos cargos que ocupam. É neste espectro de disputa política que as condições se estabelecem e a discussão, de fato, ocorre, sem jamais apontar o dedo, pelo contrário, com sutileza e perspicácia. Neste caso, os elementos de cena e a direção contribuem sobremaneira. O exemplo mais agudo é a maneira de se referir à “mocinha”, gesto simples que engendra em si toda uma conotação responsável pelo nosso histórico de violência e discriminação racial, patriarcal e de classe. O ritmo da empreitada esclarece que, para além da situação política temporal, o teatro nos possibilita descortinar nossas alegorias.

Ficha técnica
Dramaturgia de Sara Pinheiro
Direção de Mariana Maioline e Gustavo Bones
Com Cristiane Andrade, Jésus Lataliza, Igor Leal e Mariana Maioline
Trilha Sonora: Alexandre de Sena/Iluminação: Marina Arthuzzi e Jésus Lataliza/Cenário: Eduardo Félix/Figurino: Lira Ribas/Produção: Cristiane Andrade

Montagem trata engajamento com humor e perspicácia

Raphael Vidigal

Fotos: Guto Muniz.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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