Crítica: peça “O Capote”, de Gógol, debate dramas modernos

“Desapareceu e eclipsou-se um ser que ninguém defendera, que ninguém estimara, por quem ninguém se interessara, que não chamara a atenção nem mesmo de um naturalista, desse que não perde a oportunidade de espetar com um alfinete uma simples mosca e examiná-la com um microscópio” Gógol

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Não é por acaso que Nikolai Gógol é considerado um clássico. Não lhe cabe a crítica do autor “datado”. Embora ambiente suas histórias na Rússia do século XIX, com riqueza de detalhes descritivos e especial atenção às particularidades da metrópole, a essência do texto provoca reflexões que não se esgarçam com o tempo. Daí extrai-se duas hipóteses: ou o ser humano não evolui ou seus problemas de fundo existencial são sempre os mesmos. Na montagem dirigida por Yara de Novaes, com adaptação de Drauzio Varella e Cássio Pires, a boa combinação dos elementos originais do conto “O Capote” junto à inserção de novas linguagens e perspectivas deixa em aberto essa pergunta.

Esse é um dos méritos da peça, que coloca em debate alguns dramas modernos, como a invisibilidade do sujeito, a opressão do sistema de acúmulo, a valorização da posse em detrimento do ser, as desigualdades provocadas pela política de consumo e a transparência da morte sobre a vida opaca e parda das pessoas. As ironias do texto de Gógol são captadas com o auxílio da música, a cargo, quase o tempo todo, da talentosa Sarah Assis; a interação com a plateia, a eliminação dos limites entre real e imaginário propícia ao teatro, e, sobretudo, o belo desempenho do time de intérpretes capitaneado por Rodolfo Vaz como o protagonista Akaki, e Marcelo Villas Boas e Rodrigo Fregnan que se revezam, com desenvoltura, nos outros papéis, especialmente quando o tom imprimido é o da comédia.

Há destaque para a iluminação de Bruno Cerezoli, a cenografia e os figurinos de André Cortez, a projeção de vídeos de Rogério Velloso e a trilha sonora criada pelo Dr. Morris, que ajudam a contar a história e sublinhar as turbulências interiores de Akaki, a que temos contato nessa superfície. O tom fantástico e impreciso a que se propõe o texto do contista russo não atrapalha o andamento da peça, calcada na dose certa entre a tradição e o experimentalismo, combinação que garante o êxito do espetáculo. A aproximação e identificação do espectador com as personagens acontece por duas vias: a irreverência e liberdade de criação da montagem e aquela pergunta anterior, deixada em aberto no primeiro parágrafo, de que nossos problemas fundamentais serão sempre os mesmos.

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Raphael Vidigal

Fotos: João Caldas.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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