Crítica: Exposição “Kandinsky – Tudo Começa Num Ponto” faz coro à possibilidade

“Deves abrir os teus braços mais amplamente.
Mais amplamente. Mais amplamente.
E deves cobrir o teu rosto com um lenço vermelho. (…)
Não é bom que justamente não vejas a opacidade –
é exactamente
na opacidade que isso reside.
É também assim que tudo começa………………………………..
com um………………………………………………………………………
rebentamento………………………………………………………………” Kandinsky

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A questão com a arte abstrata em Kandinsky, pioneiro e teórico do estilo, tem a ver com investigar os limites da origem e finitude da existência. Em outras palavras, ao eliminar tudo o que determine uma noção clássica de compreensão a partir de uma pintura figurativa, o artista não apenas vai em direção ao sentimento, mas, mais do que isso, ao sentido amplo e incompreensível do universo, o que é, em suma, percebido como “essência”.

A exposição realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte, com obras do Museu Russo de São Petersburgo, outros do interior do país e coleções particulares, capta esse movimento ao recorrer à influência do folclore, dos contos de fada, das artes populares, primitivas, e, sobretudo, da tradição no desenvolvimento da carreira de Kandinsky, onde estaria a tal “origem”. Outro fator determinante para o coro buscado pelo pintor russo está na música, por seu caráter impalpável, desconexo da “realidade”, só encontrada em tal formato na sonoplastia. Como na música, há algo de geométrico em Kandinsky que colide com o subjetivo. O que seja talvez a vida.

A essência, para Kandinsky, é vasta e colorida. Ao pesar a mão nas tintas, o artista russo dá vazão a sensações assertivas, que são ao mesmo tempo incógnitas e permeadas pela dúvida. Ou seja, o caminho está aberto para a possibilidade, a interpretação, e a tão decantada interação entre tela e espectador. O sentido cabe a quem olhar. Já o processo que culmina com esse resultado é descrito a partir de uma imersão. Kandinsky rejeita o distanciamento e observa o que pinta “de dentro”. Afinal de contas busca exprimir o que não enxerga, mas sente.

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Raphael Vidigal

Pinturas: “Composição 7 e 8”, respectivamente, de Kandinsky.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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