Conto do prefeito que virou cavalo

“Ela fitou-o com seus olhos brilhantes, irracionais, exatamente como os olhos de uma criatura não-humana.” D. H. Lawrence

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O cheiro de leite leva ao chafariz. De pestana baixa: como bode espia o sujeito dos olhares fáceis e cavanhaque. Visto na chegada: despercebido, abobalhado. Camuflagem dos fatos não sabe nem enxerga o cargo no rapaz sem modos. Mal acaso torna os homens bobos figuras poderosas. Ou seriam figuras poderosas a elegerem os bobos? Toda forma, anda distraído, despista, no entanto, o trevo de quatro folhas no bolso do paletó xadrez-quadriculado. Hipérbole e pleonasmo mastigam como luta inteira no pasto, como vaca, as vestes, o capim, de lado imita cigarro. O bordel da dor é a saudade. Sanha do animal bisonho e estranhamente lerdo, ao subir ao palco, de improviso um palanque, intenções de inveja cercam as leitosas tetas, a escorrer.

Abre a boca, e o chiado do microfone, engasga. O homem sem luz nenhuma no anil do poste, em praça pública, iluminado. Ao ostensivo gesto, aplausos. Nem disse letra, nenhum balbucio gauche, nada. Talvez um gago, em pedra os lábios. A ilusão de ótica induz à figura de um mudo por pretensão: o ventríloquo. A mão oculta, a voz dissimulada. Olha com susto, de pé as orelhas, da narina expulsa um bafo. Ilude. Pois ao chicote eriça a cauda, a crina desce às costas largas, na ferradura: a sorte: a pata. O celeiro abre e num relance desaparece ao correr de quatro. Derruba saias, vultos e cactos. E a platéia zonza, cínica, atordoada. Um só relincho e trinca a lua. Ao longe, salmos…

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Raphael Vidigal

Pinturas: Obras de Frans Hals.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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