Análise: Tunga foi ao extremo para tratar a essência

“Nossa memória é frágil
Uma vida é um tempo muito breve.
Tudo acontece tão rápido que não
Dá tempo de entender a relação entre
Os acontecimentos” Isabel Allende

tunga

Sobre o radicalismo na experimentação formal de uma obra específica do escritor argentino Julio Cortázar, um especialista constata que é preciso manter certos pontos nevrálgicos para que a abertura não anule por completo a força do objeto. Já Antonin Artaud, o controvertido poeta, ator e dramaturgo, muitas vezes ligado ao “Teatro do Absurdo”, é mais específico, e afirma que “sentido dado é sentido morto”. É possível assentir que o pernambucano Tunga, artista plástico com obra estabelecida a partir da segunda metade da década de 1970, portanto contemporâneo e que veio à tona em meio ao furor vanguardista do período, pertence mais à categoria representada pelo pensamento do autor de o “Teatro e seu Duplo”. Outra ilação aqui cabível encontra-se no campo da literatura, quando o poeta maranhense Ferreira Gullar pretendeu, em suas palavras, “explodir com a linguagem”, observadamente nas últimas criações do livro “A Luta Corporal”, de 1975. A obra de Tunga se vale de múltiplas relações.

Referido como escultor, desenhista e artista performático, Tunga utilizou ao longo de sua trajetória todo o material que julgava disponível e quando não ao alcance, ainda melhor, inclusive material humano, literalmente. Com construções nada convencionais e temas que pareciam provocativos, embora básicos, teve como mérito a abordagem, pois tratou, sempre, de nossos assuntos seminais. Assim, aludiu ao sexo, à morte, à comunicação, e à solidão, dentre outros que cabem nessa esfera, mas a partir da perspectiva do tabu, da libertação, por exemplo, com os desenhos presentes à exposição “Museu da Masturbação Infantil”. Noutra comparação, agora cinematográfica, conseguiu o que o francês Louis Malle alcançou com seus filmes, notadamente na película “Sopro no Coração”, em que o diretor dá um belo laço sobre o incesto. Sem descuidar, nunca, do aspecto estético de seu ofício, Tunga transformou banalidades em gestos impressionantes, moldados por um pungente conteúdo.

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Raphael Vidigal

Imagens: Obras de Tunga.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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