Análise: A relação estreita entre a política e a caricatura

“É uma imagem verdadeira, nascida de um espetáculo falso.” Jean Genet

Política nacional por Renato Aroeira

Para o político não há consagração maior do que tornar-se charge. Significa que o seu rosto é conhecido, e digno de nota. Muitos preferirão, neste caso, a morte à vida, pois é quando serão transformados em pontes, avenidas, ruas, teatros, arenas, estádios, com os devidos nomes cravados na língua e nos dentes dos cidadãos.  Já o artista costuma-se virar melhor como nome de gato, peixe, cachorro e outros animais mais simpáticos e estimáveis. No sentido em que é possível estimá-los. São animais de estimação. Não raro encontra-se uma cadela Frida e um gato Picasso. Mas é curiosa, para não dizer hilária, a íntima e estreita relação estabelecida através dos anos entre a política e a caricatura. Ofício que hoje em dia adquiriu traços realmente físicos e desenháveis já foi naqueles tempos de outrora função decorrente da sátira, daqueles que versavam em praça pública para debochar dos de toga, como é o caso conhecidíssimo de Gregório de Matos, aclamado como a Boca do Inferno.

Mas com o passar das estações, as plantas floriram na primavera, as folhas caíram no outono, o frio enrijeceu todas as partes no inverno, o sol castigou a pele e o lombo no verão e o par de olhos substituiu a orelha. Hoje em dia presta-se muito mais atenção numa imagem do que em dois ditos, um dedinho de prosa ou papo furado, como bem preveniu quem cunhou a frase célebre: “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, ou, antes, “Uma Imagem vale mais que mil palavras”. Pois bem, política e caricatura continuam irmanando-se, pois no que tem de aparentemente incrível, todas as ambições que se creem célebres rebimbam risíveis. O homem cheio de tiques, repiques e salamaleques, aquele que não admite, portentoso e imponente não é páreo para o grande riso da vida no espelho. Bem advertiu Rubem Alves, “a Revolução Francesa começou quando a plebe descobriu que o Rei e a Rainha também usavam penicos”. Tão certa quanto duvidosa é a predileção das autoridades do nosso país em processar jornalistas a chargistas. Talvez porque a palavra possa até torná-la mal conhecida, mas não tem o mesmo charme…

Ministro Gilmar Mendes é alvo de diversas caricaturas

Raphael Vidigal

Imagens: charges de Renato Aroeira.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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