A homossexualidade na música brasileira: da década de 30 aos anos 2000

“Mas viver como flores refletidas,
como luar,
livre de todas as possessões nos afetos” Ezra Pound

homossexualidade-musica-brasileira

Década de 30:

1- Mulato bamba (samba) – Noel Rosa:
Esse samba de 1931 é a primeira música de relevante importância para a música popular brasileira no que diz respeito à representação do homossexual. Noel Rosa a compôs como forma de homenagem a Madame Satã, famoso capoeirista e malandro homossexual da Lapa. Como já foi dito, a canção é uma homenagem e retrata o homossexual de maneira respeitosa e até com certa admiração. Interessante notar que foi feita em um meio musical (samba) e uma época (década de 30) extremamente conservadoras.

2- Camisa Listrada (samba) – Assis Valente:
No final da década de 30, em 1937, Assis Valente viu seu samba “Camisa Listrada” estourar no carnaval daquele ano na interpretação de Carmen Miranda. O samba, de tom velado gay, expunha a velha fantasia do homem que se traveste no carnaval de mulher para se libertar dos preconceitos sociais do dia a dia. A música revela um sentimento gay típico da época: velado e escondido, mostrando apenas para quem quisesse ver. O próprio compositor da letra, Assis Valente, nunca se assumiu homossexual, apesar dos rumores, e se suicidou em 1958, dizem alguns, atormentado por sua condição sexual.

Década de 50:

3- Preconceito (bolero) – Nora Ney:
Na década de 50 o tema da homossexualidade na música brasileira é embebido pelo sucesso da dor de cotovelo ou samba-canção. E é no ritmo lamentoso do samba-canção que Nora Ney emplaca o bolero “Preconceito”, música de Antônio Maria e Fernando Lobo que foi logo adotada como hino pelos homossexuais que admiravam Nora Ney e outras divas do rádio da época por seu tom de defesa contra aqueles que agrediam o grupo com discriminação e preconceito, ainda muito típicos nos anos 50.

4- Vai ver que é (marchinha) – Aracy de Almeida:
De estilo totalmente diferente ao de Nora Ney, Aracy de Almeida, a maior intérprete de Noel Rosa, gravou em 1959 a marchinha “Vai ver que é”, que fazia referência jocosa e brincalhona a um suposto homossexual que dava pinta mas não se assumia. A música é de autoria de Paulo Gracindo e Carvalhinho.

Década de 60:

5- Cabeleira do Zezé (marchinha) – João Roberto Kelly:
A música de carnaval mais expressiva no que diz respeito à representação do homossexual na MPB é a marchinha “Cabeleira do Zezé”, de João Roberto Kelly. Gravada em 1964 por Jorge Goulart e sucesso por muitos outros carnavais, a música trata o homossexual com deboche e certa agressividade, ameaçando-lhe cortar os cabelos.

6- Ilusão à toa (bossa nova) – Johnny Alf:
“Ilusão à toa” foi lançada pelo pai da bossa nova, Johnny Alf, em 1961. A música trata do homossexual ainda de forma subliminar e pela primeira vez de maneira lírica na MPB.

7- Carta a Maceió (forró) – Trio Nordestino:
Divertido forró de Gordurinha gravado pelo Trio Nordestino no início da década de 60, relata a história de um sujeito que se hospeda na pensão de um homem gay que o deixou mau acostumado com seus tratos. A questão da homossexualidade é tratada em tom brincalhão mas sem deboche ou ofensas.

Década de 70:

8- Bárbara (MPB) – Chico Buarque:
Em 1972, Chico Buarque compôs a primeira música que se tem registro que fala do amor homossexual entre duas mulheres. “Bárbara” foi composta por ele e por Ruy Guerra para a peça de teatro “Calabar – o elogio da traição”, censurada à época da ditadura. A música trata o tema de forma lírica e intensa, sem julgamentos ou preconceitos. Foi gravada por Ângela Ro Ro (homossexual assumida), Maria Bethânia, Gal Costa, Simone, entre outras.

9- O Vira (MPB) – Secos & Molhados:
Em 1973 o grupo Secos & Molhados revolucionou a cultura gay dentro da música brasileira. Tendo Ney Matogrosso como líder da banda e adotando desde sempre uma postura sexualmente ambígua, o grupo trazia mensagens do tipo tanto nas letras quanto nas danças, nas maquiagens, vestimentas e posturas em cima do palco. A música “O Vira”, de João Ricardo e Luli, inspirada na dança típica portuguesa, foi um marco do estilo e da representação do homossexual na música brasileira, de forma leve e brincalhona, bem ao estilo da banda, mas sempre com uma mensagem subliminar agressiva, dessa vez em defesa dos homossexuais, e não ao ataque, como era feito em tempos anteriores.

10- Emoções (brega/romântica) – Wando:
Em 1978, Wando compôs a primeira canção da história da música brasileira que falava sobre uma cena de sexo entre dois meninos. “Emoções” retrata a cena sem preconceitos e de forma lírica.

11- Viola de Penedo (baião) – Luiz Gonzaga:
Em 1977, Carmélia Alves lançou o baião “Viola de Penedo”, de Luiz Gonzaga, que tratava a homossexualidade de forma agressiva e preconceituosa.

12- Plumas e Paetês (disco) – Ronaldo Resedá:
No final da década de 70, embalado pela onda das discotecas, o bailarino e cantor Ronaldo Resedá fez sucesso com músicas de temática gay alegres e dançantes, como “Plumas e Paetês”, de Eduardo Dussek e Luiz Carlos Goés.

13- Cheirando a amor (MPB) – Ângela Ro Ro:
Em 1979, Angela Ro Ro foi a primeira cantora da MPB a declarar-se homossexual, lançando a balada romântica “Cheirando a amor”, de tom confessional gay.

14- Menino do Rio (MPB) – Caetano Veloso:
Também em 1979, Caetano Veloso foi o primeiro a compor uma canção inspirado em um muso, “Menino do Rio” falava da admiração do cantor pelos dotes físicos de um surfista. Tratava o tema da homossexualidade de maneira lírica e delicada. A canção foi gravada no mesmo ano por Baby Consuelo, mais tarde Baby do Brasil. Além disso, Caetano se cansou de interpretar canções fazendo o eu – lírico feminino, deixando no ar sua condição sexual ambígua.

15- Logunedé (Tropicália) – Gilberto Gil:
Gilberto Gil compôs em 1979 a música “Logunedé”, em homenagem à entidade do candomblé que é metade homem e metade mulher. Ao ritmo da androginia da tropicália, Gil remetia-se à religião para tratar o tema da homossexualidade de forma aberta e sem preconceitos. Gil também compôs “Super-homem – a canção” que fazia referência ao universo feminino com admiração e desejo de pertencimento a ele.

Década de 80:

16- Rock das aranha (rock) – Raul Seixas:
Na década de 80 as músicas de preconceito com relação aos homossexuais voltaram a ter força e fazer sucesso, a exemplo de “Rock das aranha” de Raul Seixas, que tratava o sexo entre duas mulheres como “não é normal”.

17- Maria Sapatão (marchinha) – João Roberto Kelly:
Também na linha do deboche em cima das lésbicas estourou a marchinha “Maria Sapatão”, de João Roberto Kelly, Leleco e Chacrinha. A diferença é que a brincadeira era feita sem preconceitos e de forma irreverente.

18- Homem com H (forró) – Ney Matogrosso:
Uma das canções mais emblemáticas no sentido da homossexualidade na música brasileira foi “Homem com H”, que só adquiriu esse status por ter sido gravada por Ney Matogrosso de forma leve e bem humorada.

19- Masculino e feminino (MPB) – Pepeu Gomes:
Em 1983, Pepeu Gomes compôs ao lado de sua esposa na época, Baby Consuelo, a música “Masculino e feminino”, que versava sobre a androginia do cantor de forma aberta e sem preconceitos.

20- Close (pop rock) – Erasmo Carlos:
No ano de 1984, Erasmo Carlos, egresso da Jovem Guarda, compôs o pop rock “Close”, que falava sobre travestis e foi logo ligado ao mais famoso deles: Roberta Close.

21- Nobreza (MPB) – Djavan:
Na década de 80, o cantor alagoano Djavan compôs a lírica “Nobreza”, que continha os famosos versos “dois homens apaixonados”, mais tarde enxertados por Cazuza em uma música sua.

22- Quarta – feira (rock) – Cazuza:
Bissexual assumido, Cazuza tratava da homossexualidade pela primeira vez na música brasileira de maneira totalmente escrachada e aberta, através dos versos: “eu ando apaixonado por cachorros e bichas”. Na mesma década, Cazuza cantava em “Narciso” os versos: “nós somos iguais na alma e no corpo”, fazendo clara referência ao universo gay.

23- Meninos e meninas (rock) – Renato Russo:
Outro mártir do rock nacional a se assumir gay, Renato Russo cantava seu desejo pelo sexo masculino de forma confessional e aberta. A canção foi uma das mais representativas em termos de sucesso nas rádios e atingir o público jovem da época, que abria cada vez mais sua cabeça para o tema.

Década de 90:

24- Rubens (rock) – Cássia Eller:
Abrindo os anos 90, Cássia Eller, homossexual assumida, inclusive tendo filha e companheira, entoava os versos escrachados da canção “Rubens” de Mário Manga, que falava abertamente do desejo homossexual de dois homens, e terminava com a otimista frase: “eu acho que dá pé, esse negócio de homem com homem, mulher com mulher.”

25- Avesso (MPB) – Jorge Vercilo:
De maneira contundente, Jorge Vercilo foi uma das poucas vozes dos anos 90 a cantar o amor entre dois homens. Sem preconceitos e fazendo a defesa do “amor que não ousa dizer o nome”, já diria Oscar Wilde.

26- Robocop gay (pop) – Mamonas Assassinas:
Com bom humor infantil e divertido os Mamonas Assassinas logo fisgaram as crianças e as tornaram seu público cativo. A canção “Robocop gay” de Dinho e Júlio Rasec trata do tema de forma divertida e leve, a exemplo do que fazia Jô Soares nos anos 80, trazendo bom humor para o tema.

Década de 2000:

27- Beat da beata (MPB) – Ana Carolina:
Os anos 2000 começaram com essa irônica e divertida composição de Ana Carolina e Seu Jorge acerca da homossexualidade. Além disso, Ana manteve sua postura de enfrentamento ao assumir-se bissexual em diversas entrevistas, gravando também a canção “Eu gosto de mulher”, do Ultraje a Rigor.

28- Dança do viado (funk) – MC Serginho & Lacraia:
O funk foi o grande expoente da música brasileira a gravar músicas de tom homossexual nos anos 2000, principalmente na voz de MC Serginho acompanhado sempre pelo dançarino gay, Lacraia.

laerte

Raphael Vidigal

Imagens: Montagem com fotos de Ana Carolina, Madame Satã, Ney Matogrosso, Lacraia e Maria Bethânia, da esquerda para a direita, respectivamente; e cartum de Laerte.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

4 Comentários

  • Ainda tinha, na década de 80, uma música de Ney Matogrosso chamada “Calúnias (Telma eu não sou gay)” que também trata do tema, em que foca no tema de um homem que se relaciona com uma mulher chamada Telma, mas que teve relacionamentos homossexuais anteriores, e ela descobre através de boatos, que o mesmo agora continua numa vida bissexual.

    Resposta
    • Na verdade, na letra da música, explana a vontade dele deixar claro pra ela que não tem uma vida bissexual, e que somente se relaciona com ela para não ligar para supostos boatos e calúnias sobre a sexualidade dele.

      Resposta
  • Acredito que a música Pérola Negra onde se diz “tente usar a roupa que eu estou usando”, e outros indicativos, faz uma alusão à homossexualidade. Também a música “Mulheres” cantada por Martinho da Vila é outra. Na música todos os tipos de mulheres são mencionadas e nenhuma chega onde alguém chegou. Dá a entender que seja um homem. E se pesquisar deve haver mais músicas que usam mensagens subliminares.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade