90 anos de Jean-Luc Godard, o mais radical dos cineastas

*por Raphael Vidigal

“A linguagem poética brota da ruína.” Godard

Qual a natureza do milagre? Em essência, aquilo que não se pode explicar seguindo uma série de razões lógicas. No entanto, logo que a ciência ocupou o lugar da religião como principal fonte de conhecimento, a racionalização se tornou uma espécie de suma aliada da humanidade na tentativa de compreender o mundo. Em 1983, com o filme “Carmen de Godard”, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o diretor jogou na tela essa sentença: “Faça milagres se quiser desvendá-los. Só assim chegara lá”. Jean-Luc Godard, que completa 90 anos no próximo dia 3 de dezembro, se habituou a conviver com o epíteto de incompreensível desde que estreou no cinema com o clássico “O Acossado”, em 1960. De lá pra cá, recebeu adjetivos bem menos dignos, inclusive dos colegas.

Ingmar Bergman não hesitou em afirmar que nunca gostou dos filmes de Godard, segundo o sueco, “cinematograficamente interessantes e infinitamente chatos”. O alemão Werner Herzog foi mais longe: “Alguém como Godard é, para mim, uma fraude intelectual quando comparado a um bom filme de kung-fu”, esculhambou. Fato é que Godard se inscreveu de tal forma na história do cinema que, de acordo com o crítico Mário Alves Coutinho, autor de uma tese de doutorado sobre o cineasta, seu nome ficou mais conhecido do que a própria obra. “A maioria das pessoas que falam de Godard nunca viram um filme dele”, lamenta. Outra definição intrigante acerca do mítico diretor partiu do amigo e companheiro de geração Éric Rohmer, que o via como um “ladrão de mundos”.

Estilo. Questionador antes de qualquer coisa, inclusive, e, sobretudo, de si mesmo, Godard tratou de praticar uma revisão de sua obra a cada nova incursão cinematográfica. A ferramenta utilizada para tal tarefa é a arte, forma de saber que não presta reverência nem à religião e, tampouco, adere de olhos fechados ao cientificismo. Para ele, a expansão da capacidade artística permite que outros sentidos participem do processo de elaboração da vida. Onde entra a imaginação. Diz Godard: “Quando eu não sei, eu imagino”. “Aqueles que não têm imaginação, buscam refúgio na realidade”. “Nossos pensamentos não são a substância da realidade, mas sua sombra”. O peso da palavra será contestado por ele próprio, que, embora carregue o lastro literário, é o cineasta das imagens.

As frases soltas na tela, uma constante ao longo da carreira do autor, chocam-se a todo momento com algumas das mais belas imagens já realizadas pelo cinema. O efeito produzido nunca é comum, ordinário: Godard almeja ao milagre. Frente ao espanto da incompreensão, o marasmo de não captar imediatamente o que surge para deleite dos olhos pode provocar enfado ou estupefação. Todavia, é impossível ficar imune a Godard. Por conta dessa cisão sem concessões à narrativa convencional, ele é considerado, com justiça, o mais radical dos diretores responsáveis por um impacto jamais visto no cinema a partir da Nouvelle Vague francesa, movimento que começou a desconstruir as regras fixas do ofício. Godard questionou até o mestre André Bazin sobre a luz branca.

É também incontornável em Godard a preocupação com a contemporaneidade, realçando a complexidade de uma postura que se denota livre das correntes do pragmatismo, mas não se desprende do concreto agora. Ao colar os instantes, em fragmentos que ultrapassam a realidade exposta, ele nos põe em contato com as profundas camadas do que nos molda e transforma: como um milagre.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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