5 personagens inesquecíveis de Elias Gleizer

“Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento.” Mario Quintana

Elias-Gleizer

Se há atores que ficam marcados por uma personagem, há outros que se consagram interpretando um tipo. No caso de Elias Gleizer, foram dois: o padre e o avô. Mas no âmbito de uma análise mais depurada o que se poderá constatar é que tratam de um estilo só: Elias parece ter carregado para a tela a forma simples e de bem com a vida do cotidiano longe das câmeras. No jargão popular, o “boa praça”, e para os mais antigos, típico “bonachão”.

Outra característica que não escapa ao trabalho de Elias Gleizer é o de ter conseguido levar para a televisão, habitualmente criticada pela consistência rala, uma atuação capaz de despertar emoção, simpatia e entretenimento. Sem abrir mão deste último, Elias, que atuou bem pouco no cinema e no teatro, enriqueceu a história da teledramaturgia nacional, desde os tempos da TV Tupi, onde começou em 1959, até a TV Globo, em 2014.

Sobretudo o humor de Elias Gleizer impregnou os seus trabalhos de uma singela qualidade. Nas palavras de Mario Quintana: “É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez”. Sem nenhum esforço aparente Elias construiu uma carreira sólida junto a público e crítica, e, o mais importante, despertou o sentimento junto àqueles com quem compartilhou as fases de sua existência.

1969 – Nino, o Italianinho: Donato
Filho de poloneses judeus que fugiram para o Brasil durante a perseguição nazista, o registro de batismo do ator é Ilicz Glejzer. Além de adaptar o nome, Elias conseguiu transformar essa triste história de vida dos pais através do poder da arte, com a qual ria e iria recompensado com o mesmo carinho em troca. Na TV Tupi, viveu a personagem Donato, na divertida trama “Nino, o Italianinho”, em 1969, que abordava o histórico de imigrações no Brasil, e a forte influência da cultura italiana por aqui, inclusive sobre a língua. Até hoje o idioma falado segue como uma mistura de português, italiano, expressões indígenas, africanas e outras influências nesse caldo da mestiçagem nacional. Elias ainda viveria outra personagem com o nome Donato, também marcante, na novela “Fera Radical”, aí já na TV Globo em 1988.

1989 – Tieta: Jairo, o dono da Marinete
Duas décadas depois, entre papéis com maior e menor destaque, mas mantendo uma efetividade pouco comparável na televisão brasileira, Elias Gleizer encarnaria outra personagem marcante em sua trajetória. Literalmente trajetória. Jairo era o dono da Marinete na novela Tieta, exibida em 1989 pela Rede Globo, e, portanto, o responsável pelo deslocamento das demais personagens. Como de costume, o elemento do humor se faz presente nessa interpretação de Jairo. Um humor singelo, simples, quase inocente, baseado no incrível domínio das capacidades físicas de Eliezer, cuja simples expressão facial era capaz de arrancar o riso, até, evidentemente, as pausas necessárias e a respiração tão inerente a esse gênero característico da arte brasileira. Elias tinha o traço mais fino da caricatura e a elevava a uma importante arte plástica.

1996 – Anjo de Mim: Canequinha
Já na metade de década de 1990, Elias Gleizer encarou um desafio dos mais sensíveis. Interpretar um deficiente mental na televisão brasileira e garantir à personagem um toque de humor que não lhe roubava a dignidade. É nesse meio termo que se constata a grandiosidade do trabalho de um artista. Os que tendem para um lado ou outro, os adeptos do radicalismo, deixam escapar por entre os dedos as nuances que dão valor à vida humana. Conseguir este resultado numa trama com pendor para o maniqueísmo é como o famoso ditado nacional: tirar leite de pedra. E como a arte é uma fantasia, nela os milagres são mais que possíveis, mas necessários. Na pele de Canequinha, em “Anjo de Mim”, de 1996, Elias conquistou o público infantil e ampliou ainda mais o carisma sobre os já cativos espectadores.

1998 – Era Uma Vez: Pepe
Quem era criança em 1998 não esquece o avô Pepe, interpretado por Elias Gleizer na novela “Era Uma Vez”, assim como não esquece a personagem de Cláudio Marzo, o avô Xistus Kleiner. Ambos representavam para o público mirim o famoso combate entre bem e mal. Elias, como de hábito, tinha a seu favor o clamor popular daquele que pratica gestos nobres, generosos e também pagãos: não há nada que satisfaça mais uma pessoa do que ter as vontades atendidas, tenha ela 10 ou 50 anos, o que se entende por “mimar” é um gesto que agrada sempre quem o recebe. Nesse sentido, a personagem de Elias em “Era Uma Vez” representava o paraíso livre, inclusive, de obrigações, onde o eterno desejo reina solenemente. Há algo de rebelde nessa ideia de liberdade sem limites. Outra contribuição específica de Elias para a TV brasileira.

2010 – Passione: Diógenes
Elias tinha um sotaque próprio para as personagens, característica perceptível na maioria dos grandes atores. Esse sotaque pode ser definido, de maneira singela, como um sotaque “manso”. Isso permitia às personagens de Elias, mesmo aquelas capazes de escapar às convenções sociais, o que nem era tão raro assim, certa complacência do público. É o famoso “malandro querido”, mais puxado para algo ainda menos “vulgar”, “esperto”. Facilmente nos identificamos com os erros de qualquer cidadão, mas quando ele se expressa de maneira “arrogante”, “agressiva”, “pretensiosa”, imediatamente nos colocamos no posto de acusadores, e não mais as vítimas em comum que costumamos ser, o que nos legaria sentimentos como piedade, compaixão, e, acima de tudo, simpatia. Elias soube dar a suas personagens, inclusive o motorista Diógenes, da novela “Passione”, em 2010, que vivia um caso amoroso com a personagem de Cleyde Yáconis, um toque de mansidão, pelo qual nos sentimos acolhidos nesse mundo de intransigências e acusações.

Elias-Gleizer-personagens

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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