4 preciosidades musicais de Belchior

“Quando eu estou sob as luzes/não tenho medo de nada
E a face oculta da lua/que era minha aparece iluminada
Sou o que escondo sendo uma mulher
Igual a tua namorada/mas o que vês
Quando mostro estrela de grandeza inesperada” Belchior

Quando gravou o seu primeiro LP, em 1974, o Brasil vivia, há dez anos, sob o pleno domínio da tenebrosa ditadura militar que assolou o país até 1985. Para a música de Belchior esse contexto era imponderável. Nascido no interior cearense, as agruras de uma pobreza social uniam-se à violência estabelecida pela política em suas crônicas, cujas letras eram transformadas em música com o auxílio do violão. Todavia, o caráter altamente narrativo e a maneira marcada de se expressar – com forte referência do canto falado de Bob Dylan e da dicção pausada da carioca Nora Ney, sucesso absoluto na “Era de Ouro” do rádio – deram às canções de Belchior, especialmente quando interpretadas por ele, uma característica muito diferente de tudo o que se fazia na sua época. A palavra, ali, se posicionava antes da melodia, e sobressaltava a ela sem nenhuma culpa. Tanto que ainda hoje é possível recitá-las como um manifesto.

Mucuripe (MPB, 1972) – Fagner e Belchior
Fagner e Belchior se conheceram em Fortaleza, depois do primeiro sair de Orós e o segundo deixar Sobral. Juntos, ao lado de Rodger Rogério, Ednardo e Ricardo Bezerra formaram o “Pessoal do Ceará”, que se apresentava semanalmente em um programa de rádio. Levando na bagagem as lembranças de sua terra, seguiram roteiros distintos, Fagner indo para Brasília estudar arquitetura e Belchior indo para o Rio de Janeiro estudar medicina. Mas em 1971, no Festival de Música Popular do Centro Universitário de Brasília, Fagner inscreveu uma música que havia feito com o conterrâneo agora distante. “Mucuripe”, destino solitário das jangadas em Fortaleza, tirou o primeiro lugar e atentou os olhares brasileiros para a permanente poesia das águas da canção cearense. Um ano depois, a música foi interpretada por Elis Regina. Com esse êxito, Raimundo Fagner mudou-se para o Rio de Janeiro e Belchior para São Paulo. Além disso, Fagner fez seu próprio registro, na série “Disco de Bolso”, lançada pelo jornal “Pasquim”, com Caetano Veloso cantando no outro lado do compacto “A Volta da Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Refletia no canto arraigado de Fagner, a permanente poesia das águas. Da flor fez-se o agasalho. Da vela que ilumina o mar, a esperança de um rapaz novo encantando.

Como Nossos Pais (MPB, 1976) – Belchior
Elis Regina, embora identificada noutro momento com a tradição da canção brasileira, gostava de pinçar novos compositores e descobrir músicas novas, cheias de frescor e prontas para serem trabalhadas e recriadas pela intérprete, aclamada como a maior cantora do Brasil em todos os tempos. Numa dessas procuras foi que ela descobriu Belchior, vindo de Sobral, no interior do Ceará, e deparando-se com as dificuldades e asperezas da cidade grande. O relato verborrágico e narrativo do compositor, que se cristalizaria como marca registrada ao longo dos anos, pegou de jeito não só a intérprete como multidões de jovens, crianças, adultos e idosos de todas as idades que repetiam inflamados os versos de inconformidade e desalento presentes na moderna elegia de Belchior. “Como nossos pais” ganhou prestígio imediato em todo o território nacional por seu poder de identificação, centrado na simplicidade do tema, salpicado de máximas e frases precisas.

Contramão (MPB, 1985) – Fagner e Belchior
Cazuza foi criado em casa com os “Novos Baianos”, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e “Os Mutantes”. Essas presenças não eram impalpáveis, em discos, mas reais, lá estavam eles dividindo o sofá e a casa com seu pai, João Araújo, dono da gravadora “Som Livre”. Por isso não espanta que as influências do compositor passeiem pelo blues e a música nordestina. Ele mesmo dizia que era cantor de rock por acaso, e se caísse numa banda de pagode estaria compondo do mesmo jeito. Amigo de Fagner, os dois lançaram juntos a música “Contramão”, em 1985, composição do cearense com Belchior.

As Várias Caras de Drummond (2004)
Um ano antes de dar início à série de desaparecimentos que marcaram os últimos anos de sua trajetória, o compositor e cantor Belchior concretizou um de seus projetos mais ambiciosos. “As Várias Caras de Drummond”, lançado em 2004, é fruto do empenho do músico em criar melodias para nada menos do que 31 poemas de Carlos Drummond de Andrade, em que se misturam obras conhecidas, casos de “Sentimental” e “No Banco de Jardim”, com outras menos propagadas, como “Liquidação” e “Lanterna Mágica”. Nos últimos tempos, Belchior se dedicava a projeto parecido com a obra de Dante Alighieri.

Raphael Vidigal

Fotos: Acervo/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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