3 músicas para machucar o coração com Alcione

“Este amor me envenena,
Mas todo amor sempre vale a pena…
Desfalecer de prazer, morrer de dor,
Tanto faz, eu quero é mais amor…” Nei Lopes & Wilson Moreira

Alcione canta o amor em tons dramáticos

De São Luís do Maranhão para o Brasil, aonde trabalhava como professora primária e trompetista, Alcione nunca deixou de cantar o amor, mas um amor específico, marcado pelas dores e as separações. Porém, a atitude da intérprete frente a esses deslizes do romantismo não é sempre a mesma. A voz de Alcione passeia pelas desilusões amorosas com a entrega e a angústia de quem muitas vezes se cortou, mas é também capaz de legar ao drama uma pitada de sátira, deboche, e, principalmente, determinação em seguir em frente que atrás vem gente. Dona de uma das vozes mais características da música brasileira e interpretação, como diria o outro, de arrebatar multidões, Alcione machuca, sim, o coração, mas o faz com a ginga e o ritmo do nosso samba. Por saudades, rancor ou mágoa, o amor dança no canto intenso da intérprete.

Não suje meu caixão (samba, 1969) – Panela e Garrafão
O Brasil é um país cuja arte popular supera, em muito, a arte erudita. Não foi sem uma dose de razão e radicalismo que Miles Davis disse: “existe a música negra americana, a música erudita europeia e a música popular brasileira”. Pois residem nessas raízes nossas maiores riquezas. Basta olhar com cuidado para o folclore, para as cantigas, as cantilenas, as danças típicas como o frevo, o baião, o xote, os ritmos como o samba, o forró, o maracatu. Ou seja, toda a nossa arte mais conhecida e reconhecida emerge dessas camadas. Sem sombra de dúvidas, e à luz das dificuldades, dos trancos e barrancos diários. Como não poderia deixar de ser nossos heróis trazem no nome a assinatura deste ambiente criativo e fértil. Mesmo no futebol nosso Rei se chama Pelé, e o Príncipe é um Garrincha. Pois na música brasileira de Batatinha, Blecaute, Jamelão, Pixinguinha, Garoto, Dominguinhos, Gordurinha, Cartola e tantos outros, temos também Panela e Garrafão, autores do samba “Não suje meu caixão”, lançado em 1969 e cantado por Alcione, Antônio Moreira e seu autor mais do que repetido e celebrado, com usos diversos e inusitados: Panela!

Água Benta (samba, 1978) – Ratinho e Sombrinha
Um dos méritos do grupo “Os Trapalhões” era rir dos estereótipos que eles próprios representavam, fazendo troça não do outro, mas de si. Em seu disco de estreia como artista solo, após uma longa jornada como integrante dos “Originais do Samba”, onde se habituara a soltar a voz e comandar o reco-reco, Mussum escolheu um samba de Ratinho e Sombrinha, intitulado “Água Benta”. Com participação de seu “estepe”, como diz Alcione, e da madrinha do samba que o humorista carinhosamente chama de “comadre”, a canção lançada em 1978, traz uma óbvia ironia que só poderia estar contida na boca de Mussum. Afinal o “Mumu da Mangueira” cantando uma canção chamada “água benta” já é motivo suficiente para muita risada, festa e “mé” à vontade! Só “mais uma beiçada”, diz o próprio!

Rio Antigo (samba, 1979) – Chico Anysio e Nonato Buzar
Craque dos pés à cabeça, desde as sapatilhas da personagem Haroldo, o heterossexual convertido até a touca do empertigado ator Antônio Roberto, Chico Anysio sabia como manusear palavras, imagens, lápis e maquiagem. Nostalgia, esperança e reverência uniram-se umas às outras para formar a música ‘Rio Antigo’, composta no ano de 1979 em parceria com Nonato Buzar, um dos nomes do movimento ‘pilantragem’, estouro na voz de Alcione, a sabiá marrom. Séries de lembranças inserem a sensação de bem estar que as performances do humorista despertava, seja através do riso ou da lágrima. Conhecida também pelo prefixo de ‘Como nos velhos tempos’, evoca o momento onde agora repousa igualmente a seus ídolos e companheiros, a figura do multitalentoso Chico Anysio.

Sambista de primeira Alcione tem ligação histórica com a Mangueira

Raphael Vidigal

Fotos: Divulgação; e Marcos Hermes, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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