12 músicas brasileiras sobre prostituição

“Sendo uma criatura exilada, expulsa da sociedade, como você e eu, porque somos artistas, a prostituta é certamente nossa amiga e nossa irmã.” Van Gogh

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Se o poeta a tem em seus sonhos, de Oswald de Andrade a Aldir Blanc, não é por acaso que a prostituta merece destaque na nossa canção. E para não dar espaço à monocromia, embora timidamente, Zé Ramalho dá luz aos homens que desempenham igual profissão. Ao longo das décadas essa atividade foi descrita, cantada, e logo, vivenciada, por Noel Rosa, Nelson Gonçalves, Gal Costa, Trio Parada Dura, Odair José, e outros, com diferenças de abordagem e um enorme poder de identificação junto ao público. O que não nos deixa mentir, embora a hipocrisia prevaleça, e o preconceito muitas vezes as relegue a um ambiente violento e hostil, a prostituição é um patrimônio histórico da humanidade. Que deveria ser tratado como na arte. Com respeito e admiração. Levar a “vida fácil” requer coragem. Cazuza já cantava essa regra com deboche.

A dama do cabaré (samba, 1936) – Noel Rosa
O samba de Noel Rosa contém informações que possibilitam ao ouvinte associar a tal dama a uma prostituta. No entanto relatos históricos afirmam que não era bem isso. Juracy Correia de Morais, conhecida como Ceci, viveu com Noel Rosa um tórrido romance, e desempenhava, na verdade, apenas a função de dançarina no cabaré, algo bastante comum na época. Pelo menos aparentemente. A forte repressão moral do período não nos desvia o olhar da hipocrisia como pano de fundo social. O certo é que esse samba lançado por Orlando Silva, e regravado por Marília Batista, Carmen Costa, Marcos Sacramento e diversos outros, revela os contornos de uma história de amor que não se importava com estereótipos. Permanece um sucesso de 1936 até hoje.

Quem há de dizer (samba-canção, 1948) – Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves
Por outro lado, o samba-canção de Lupicínio Rodrigues lançado em 1948 é mais explícito e lamentoso. Embora também descrita como uma dançarina de cabaré, sobre a musa de “Quem há de dizer”, se permite afirmar nos versos finais, quando o compositor reflete das impossibilidades do amor: “Ela nasceu/Com o destino da lua/Pra todos que andam na rua/Não vai viver só pra mim”. Esse verso é fruto de um conselho recebido por Lupicínio do dono do estabelecimento. Embora a repressão social houvesse, os romances com prostitutas eram frequentes, e não só no aspecto carnal, mas de sentimentos, como revela a letra. Parceria com Alcides Gonçalves, foi gravada por Nelson Gonçalves, Jamelão, Altemar Dutra, Francisco Alves, João Gilberto; tornando-se símbolo da boemia.

Dolores Sierra (bolero, 1956) – Wilson Batista e Jorge de Castro
Para provar que a prostituição não é um tema de impacto somente no Brasil, Wilson Batista e Jorge de Castro ambientaram a história de Dolores Sierra na Espanha, em Barcelona, com passagem por Salamanca, sua cidade natal. O bolero foi lançado em 1956 por Nelson Gonçalves, um dos cantores mais populares do período e o último representante do estilo “gogó de ouro” com forte apelo na era do rádio, ao lado de nomes como Carlos Galhardo, Francisco Alves, Orlando Silva e Cauby Peixoto. A trajetória típica e romantizada da protagonista revela interessantes aspectos históricos, como a lendária e frequente prostituição nos portos e cais, para atender aos marinheiros, e a dissociação, neste caso, entre sexo e amor. “Não tem castanholas/E faz companhia a quem lhe der mais…”, afirma um dos versos. Também gravada por Agnaldo Timóteo.

Eu vou tirar você desse lugar (música romântica, 1972) – Odair José
Na década de 1970, Odair José foi um dos primeiros a tocar no tema, senão o mais popular. Com o estilo conhecido como música romântica por seus admiradores, e brega pelos detratores, Odair logo ficaria conhecido, com o passar dos anos, como um autêntico cronista das camadas menos abastadas financeiramente da desigual sociedade brasileira, e portanto as mais numerosas. O “cantor das empregadas domésticas”, um dos epítetos que recebeu, foi também o “cantor da pílula anticoncepcional”, da “dor de corno”, a mais vulgar “dor de cotovelo” inventada por Lupicínio Rodrigues, e por que não dizer, o “cantor das prostitutas”. Nesta canção, interpretada em dueto um ano após o seu lançamento ao lado de Caetano Veloso, no histórico Festival Phono 73, Odair investe na personagem do herói que tira a mulher de seu lugar desconfortável. Pelo menos para este homem do século passado que a canta em verso e prosa.

Cabaré (MPB, 1973) – João Bosco e Aldir Blanc
Elis Regina é até hoje considerada por muitos a maior cantora brasileira de todos os tempos. Neste veredito aliam-se diversos fatores. Além da técnica apurada, do domínio de voz, gestos, da interpretação teatral e da entrega sem precedentes no palco, portanto o fator estético, no concernente ao conteúdo foi sempre uma cantora ousada, inovadora, que buscava temas fortes e compositores novos. Por essa intenção descobriu e selecionou para o seu álbum de 1973 uma música do aspirante e já admirado por ela a essa altura, João Bosco, com o já mais veterano poeta Aldir Blanc. “Cabaré”, também gravada por Célia em outro registro primoroso, atina-se ao que há de obscuro e desconhecido em cada ser humano, esse enigma que talvez seja o grande responsável pela sedução, nas palavras de Milan Kundera, escritor tcheco de “A Insustentável Leveza do Ser”, a “promessa sem garantia”.

Ana de Amsterdã (MPB, 1973) – Chico Buarque e Ruy Guerra
“Ana de Amsterdã” é uma parceria de Chico Buarque com Ruy Guerra, dramaturgo, compositor e cineasta natural de Moçambique, então colônia portuguesa, e que vive no Brasil desde a década de 1950. Na verdade a música é parte de um projeto maior, a peça “Calabar: o Elogio da Traição”, escrita pelos dois autores. O espetáculo, censurado pela ditadura militar e liberado apenas seis anos depois, remonta ao episódio histórico que envolveu o senhor de engenho Domingos Fernandes Calabar, que teria preferido se aliar aos holandeses na invasão ao nordeste do país, contra a coroa portuguesa. Além de relativizar o episódio as metáforas serviam também para atacar o regime ditatorial da época. Já a protagonista da canção seria uma imigrante holandesa que aqui viveu como prostituta. Mas este nome, como é comum no meio em função dos preconceitos sociais, seria inventado. “Até amanhã sou Ana”, revela um dos trechos.

Folhetim (MPB, 1978) – Chico Buarque
Composta para a “Ópera do Malandro”, “Folhetim” é uma das muitas músicas que sobreviveram ao espetáculo de Chico Buarque. Interpretada por Gal Costa no ano de 1978, na companhia de Wagner Tiso ao piano, Perinho Albuquerque, autor do arranjo, Jorginho Ferreira da Silva no saxofone, e outros músicos de peso, a canção narra a trajetória simples e peculiar de uma prostituta, com uma melodia ao mesmo tempo suave e incisiva, como requer a letra. “Se acaso me quiseres/Sou dessas mulheres/Que só dizem sim”; “Mas na manhã seguinte/Não conta até vinte/Te afastas de mim”, dizem alguns trechos. A música também foi gravada pelo próprio Chico Buarque e por Nara Leão, em outra sublime interpretação que valoriza cada palavra dita pela personagem.

Geni e o Zepelim (MPB, 1978) – Chico Buarque
Não é por injustiça que “Geni e o Zepelim” é uma das mais célebres canções brasileiras de todos os tempos, não limitada ao tema da prostituição e muito menos à peça em que está inscrita, a também lendária “Ópera do Malandro”. Mas é pelo que ela tem em si, a força dos versos, a inventividade da melodia, a métrica perfeita usada por Chico Buarque para abordar um tema religioso que toca na esfera pagã do homem. O episódio descrito na Bíblia das pedras jogadas em Madalena aparece em nova leitura. O desprezo da personagem ao representante máximo da burguesia, da destruição, e sobretudo a hipocrisia social carregam essa canção de uma aura revolucionária e poética pouco comparável em qualquer música já escrita em território brasileiro, europeu ou americano, em especial na chamada canção popular. Foi interpretada no espetáculo por Elba Ramalho, regravada pelo autor, Cida Moreira, e vários outros.

Garoto de aluguel (MPB, 1980) – Zé Ramalho
Se não é o único, Zé Ramalho certamente é o autor de maior assimilação popular a tocar no tema da prostituição masculina. A música “Garoto de aluguel”, lançada em 1980 no álbum “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu”, em capa que trazia junto ao autor uma messalina e o personagem Zé do Caixão, vivido por José Mojica Marins, envereda por um caminho ambíguo. Ao mesmo tempo em que adota um tom libertário e assumido, também se define como “Minha profissão é suja e vulgar”, no que pode ser entendido como cinismo ou a voz preconceituosa e risível que aponta para o protagonista. Há quem visse também uma metáfora e ironia com relação à própria profissão do autor, numa comparação recorrente através da história entre a prostituição e o artista. Daí a predileção pelo tema, a identificação, quando o próprio Zé Ramalho se define como um marginal. Foi também cantada em dueto com Belchior.

Tango de Nancy (tango, 1985) – Chico Buarque e Edu Lobo
“Tango de Nancy” é outra música de Chico Buarque feita sob encomenda, desta vez para o espetáculo teatral “O Corsário do Rei”, de Augusto Boal. Escrita em parceria com Edu Lobo, como toda a trilha da peça, “Tango de Nancy” se destaca pelo caráter visceral e extremo. A atividade da prostituição é descrita em seus aspectos mais dramáticos, passionais e simbólicos. É das poucas canções brasileiras a aludirem ao sexo de forma tão direta, livre e poética. O clima, no entanto, assume uma esfera triste, pois pesa sobre a protagonista a escolha feita por necessidades e não prazer. Essa realidade, substituída ao longo dos anos em alguma medida, é recorrente artisticamente, o que entrega a sua ocorrência na vida. O tango foi lançado em 1985 por Lucinha Lins, no espetáculo, e regravado por Célia e pelo próprio Chico Buarque.

Flores Horizontais (MPB, 2000) – Oswald de Andrade e Zé Miguel Wisnik
Este poema escrito por Oswald de Andrade, um dos principais nomes do modernismo brasileiro, e da “Semana de Arte Moderna de 1922”, foi resgatado por Zé Miguel Wisnik, que colocou melodia na letra para que ela pudesse ser interpretada magistralmente por Elza Soares no ano 2000, quando lançou o revigorante álbum “Do Cóccix até o Pescoço”. Como Oswald morreu em 1954, aos 64 anos, a poesia data de muito antes, o que evidencia não só a presença de prostitutas entre a sociedade e os intelectuais brasileiros como a preocupação afetiva e sentimental para com elas. Mais do que uma indignação social o que a interpretação de Elza Soares comprova é a profunda admiração que Oswald nutria por essas mulheres batalhadoras e cheias de coragem, “flores brancas de papel, flores da vida”.

Taça de ouro (sertanejo, 2009) – José Amâncio e Leonito
Ao longo da história, o “Trio Parada Dura”, que surgiu para a cena em âmbito nacional no ano de 1973, com a gravação de seu primeiro disco, teve quatro formações diferentes. Em todas elas esteve presente Carlos Alberto Ribeiro, conhecido como Mangabinha, natural de Corinto, interior de Minas Gerais, e o ritmo sertanejo. No ano de 2009, ao lado de Leone e Leonito, o “Trio” lançou o álbum “Taça de Ouro”. A faixa título, composição de José Amâncio e Leonito, descreve justamente o estabelecimento que atende por este nome, onde frequentam “pessoas de alto padrão/mulheres lindas, extravagantes, perfumadas/damas da noite que alucinam corações/danças eróticas, bebidas variadas/onde a luxúria desempenha seu papel”, de acordo com a composição, que presta uma sincera e agradecida homenagem aos prazeres mundanos. É como determina Oscar Wilde: “Pode-se resistir a tudo, menos a uma tentação”. Que viva a música, o sexo e a arte, pois que no fundo tratam da mesma busca: prazer e felicidade.

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Raphael Vidigal

Pinturas: “Salão na Rue des Moulins”, de Henri de Toulouse-Lautrec; e “Olimpia”, de Manet, respectivamente.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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