100 anos de Elizeth Cardoso, divina intérprete dos amores deprimidos

*por Raphael Vidigal

“Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.” Clarice Lispector

Ouvir Elizeth Cardoso (1920-1990), principalmente em seus primeiros registros, nos lembra de um tempo em que qualquer disquinho de música brasileira contava com uma orquestra de dar gosto. Claro que a Divina, epíteto dado pelo compositor Haroldo Costa, estava longe de ser diminuta. Nascida há cem anos e morta há trinta, vítima de um câncer no estômago, Elizeth surgiu, ainda criança, em um cenário aonde reinava a voz poderosa de Vicente Celestino (1894-1968), o “Ébrio” do amor que dominava como ninguém os dós de peito, de quem ela cantava uma pá de sucessos ao preço de dez tostões recolhidos da vizinhança.

No bairro carioca de São Francisco Xavier, onde morava, próximo ao morro de Mangueira, ela foi descoberta por Jacob do Bandolim (1918-1969), e devolveu a honra sendo madrinha musical de João Nogueira, que a agradeceu no samba “Wilson, Geraldo e Noel”: “Peguei o meu samba e fui logo mostrando/ À meiga Elizeth, ela disse sorrindo/ Nego tem topete/ Já pode sambar lá em Vila Isabel”. Um ano antes da morte do padrinho, em 1968, a cantora realizaria com Jacob, seu conjunto Época de Choro e o Zimbo Trio, o histórico espetáculo idealizado por Hermínio Bello de Carvalho no Teatro João Caetano, que renderia dois álbuns ao vivo.

Sucessos. Ali, ela já estava perfeitamente entrosada com Hermínio, que produzira, em 1965, outro show marcante: “Rosa de Ouro”, cujo repertório seria eternizado no disco “Elizete Sobe o Morro”, com músicas dos bambas Nelson Cavaquinho (1911-1986), Zé Kéti (1921-1999), Elton Medeiros (1930-2019), Candeia (1935-1978), Nelson Sargento e o caçula, mas muito talentoso, Paulinho da Viola. De Jacob, Elizeth seria a intérprete primordial de “Doce de Coco”, choro com letra de Hermínio, assim como de “A Flor e o Espinho”, ditado em forma de canção de Nelson Cavaquinho, com sua emissão de aço – firme e brilhante. Impossível também não associar a dor do filho pela perda do pai da seresta “Naquela Mesa” a ela, que a lançou em 1972, e, ao lado do autor, a apresentou assim, emocionada: “De Sérgio Bittencourt para Jacob do Bandolim”.

Antes da consagração, a cantora subiu ao palco com Grande Otelo (1915-1993), durante dez anos, a bordo do quadro “Boneca de Piche”, homônimo a hoje incorretíssima música de Ary Barroso (1903-1964) e Luiz Iglesias. Nessa época, casou-se com o comediante Ari Valdez (1906-1961), de quem rapidamente se separou. O êxito comercial só aconteceria em 1950, graças a “Canção de Amor”, da dupla Chocolate (1923-1989) e Elano de Paula (1923-2015), que Caetano Veloso regravaria em 1995, aparando todos os excessos. Com a carreira alavancada, Elizeth participou das chanchadas “Coração Materno” e “É Fogo na Roupa!”, e seu rosto passou a ser conhecido do grande público. Pioneira, ela serviu de referência para outras cantoras negras, como Alaíde Costa, Eliana Pittman e Zezé Motta, que a viveu em um musical.

Estilo. Em 1966, integrou a delegação brasileira no Festival de Arte Negra, em Dacar, capital do Senegal, e, na volta, gravou “Enluarada Elisete”, que teve como convidados Pixinguinha (1897-1973), Cartola (1908-1980), Clementina de Jesus (1901-1987) e Codó (1913-1985). A partir da década de 1950, quando passaria a entrar em estúdio com frequência, a tônica de suas incursões fonográficas seriam os amores deprimidos que abundavam em sambas-canções, boleros e choros. Os sentimentos universais de abandono e desilusão encontrariam uma intérprete de voz calorosa, capaz de conciliar os arroubos de suas antecessoras Angela Maria (1929-2018) e Dalva de Oliveira (1917-1972) às interpretações mais delineadas que ditariam a canção nacional a partir do aparecimento de João Gilberto (1931-2019) e sua bossa nova.

Por sinal, meio de gaita, Elizeth acabaria tida como espécie de precursora “torta” do estilo, ao cantar Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980) no álbum “Canção do Amor Demais” (1958), com direito à emblemática “Chega de Saudade” abrindo os trabalhos. Para completar, havia o violão de João Gilberto em duas faixas. Mas Elizeth era uma cantora à moda antiga, como entregava o título do LP. Ponte entre a tradição e a modernidade, a artista privilegiava letras que calavam fundo em seu peito: “Nunca mais vou fazer/ O que o meu coração pedir/ Nunca mais vou ouvir/ O que o meu coração mandar”, de Antônio Maria (1921-1964) e Ismael Neto (1925-1956). “Ocultei/ Um sentimento de morte/ Temendo a sorte/ Do grande amor que te dei”, de Ary Barroso.

“Risque meu nome do seu caderno/ Pois não suporto o inferno/ Do nosso amor fracassado”, do mesmo compositor. “Outra vez, sem você/ Outra vez, sem amor/ Outra vez, vou sofrer, vou chorar/ Até você voltar”, de Tom Jobim. “Vire essa folha do livro e se esqueça de mim/ Finja que o amor acabou e se esqueça de mim”, de Vinicius de Moraes. “Mentira, foi tudo mentira/ Você não me amou/ Mentira, foi tanta mentira/ Que você contou”, de Tito Madi (1929-2018), e inúmeras outras. A emoção que transmitia, sem renunciar à técnica apurada, advinha da própria vida amorosa, que somava um matrimônio fracassado a um trauma, quando o então namorado, Evaldo Rui (1913-1954), coautor de “Nega Maluca”, com Haroldo Lobo (1910-1965), a telefonou pouco antes de cometer suicídio.

Legado. A maior inflexão em sua trajetória ocorreria em 1973, com a marchinha “Eu Bebo Sim”, de João do Violão e Luiz Antônio (1921-1996), assumida ode ao hedonismo etílico, com conclusões pra lá de divertidas que seguem embriagando foliões: “Eu bebo sim/ E tô vivendo/ Tem gente que não bebe/ E tá morrendo”. Até hoje, a música é a mais tocada do repertório de Elizeth. Na direção oposta, ela cantou as “Bachianas N.º 5”, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), em pleno Teatro Municipal do Rio e repetiu a dose em São Paulo, no ano em que a ditadura militar iniciou um período sombrio no país. Entre um extremo e outro, do erudito ao popular, passando pela bossa, o samba e o choro, Elizeth se consolidou como uma autêntica cantora brasileira, dedicada a cantar o que para ela fazia sentido e o público sentia. Sinônimo de elegância, ela foi divina.

11 canções inesquecíveis na voz da “Divina” Elizeth Cardoso:

“Lamento” (choro, 1928) – Pixinguinha e Vinicius de Moraes
“Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha.” Essas foram as palavras eternizadas pelo musicólogo Ary Vasconcelos. Vinicius de Moraes concordava, e declamou emocionado: “A bênção Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor”. A admiração pelo instrumentista fez com que o “Poetinha” pusesse versos milimétricos na refinada composição, de 1928, de Pixinguinha: “Lamento”. A bênção definitiva de Vinicius ocorreu em 1963, quando os dois trabalharam juntos na trilha sonora do filme “Sol Sobre a Lama” de Alex Viany. Elizeth Cardoso interpretou com Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro as “coisinhas simples” de Pixinguinha, como ele próprio dizia.

“Canção de Amor” (samba-canção, 1950) – Chocolate e Elano de Paula
O que talvez passe despercebido para a maioria das pessoas é que o Brasil inventou até mesmo um compositor de nome Chocolate, ou melhor, apelido, que teve entre seus parceiros de palco e composição o humorista Chico Anysio. Dorival Silva, o Chocolate, que também era ator e comediante, com participação na “Praça da Alegria”, comandada por Manoel de Nóbrega, escreveu músicas lançadas por Angela Maria, Nora Ney, Cauby Peixoto, Elis Regina, Elizeth Cardoso, e muitos outros. Foi com Elano de Paula, irmão de Chico Anysio, que ele compôs, em 1950, “Canção de Amor”, samba-canção lançado com enorme sucesso por Elizeth Cardoso e para sempre associado à cantora que era Divina.

“Doce de Coco” (choro, 1951) – Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho
Para manter viva a memória da música de Jacob, o produtor e pesquisador musical Hermínio Bello de Carvalho decidiu colocar letra em choros emblemáticos do compositor, anos após o seu falecimento. Foi assim que, em 1980, nasceu a letra de “Doce de Coco”, lançada por Elizeth Cardoso, uma das cantoras mais próximas do mestre do bandolim, que dividiu disco, show e uma amizade com ele. Assim, o “Doce de Coco” do choro de Jacob é o nome carinhoso pelo qual o personagem da história chama sua amada. Nos versos líricos ele implora, pede, se humilha para que ela repense o amor dos dois. A música ganhou regravações de Ney Matogrosso, Zélia Duncan e Dominguinhos.

“Ocultei” (samba-canção, 1954) – Ary Barroso
“Ocultei” conta a história da mulher abandonada, largada, trocada por outra. A mulher que se vê posta de lado, desprezada, e que relembra com angústia e decepção o passado feliz que viveu. O passado que se transformou em desejo de vingança e agressão. É um apelo para que seu antigo amor pague por todo mal que lhe fez, provando do beijo o seu gosto de morte, o veneno que lançou contra ela e definiu sua sorte. É um apelo para que ela não seja a única a sofrer nessa história, que seu amor pereça, pois já não quer mais seu bem. Foi gravada por Elizeth Cardoso, Núbia Lafayette, Emílio Santiago e Rosa Passos. O registro de Elizeth ocorreu em um compacto de 78 rotações, lançado no ano de 1954.

“Mulata Assanhada” (samba, 1956) – Ataulfo Alves
Ary Barroso determinou, em 1950, que o maior compositor popular brasileiro era seu conterrâneo mineiro, Ataulfo Alves. Seis anos depois, o prestigiado sambista lançou mais uma obra prima de sua autoria: “Mulata Assanhada”. Lançada por Elizeth Cardoso, a canção corre no tempo esperto e sinuoso das curvas da musa em questão. A incorreção política de Ataulfo aparece ao recorrer aos provocantes versos: “Ah mulata se eu pudesse/ E se meu dinheiro desse/ Eu te dava sem pensar/ Essa terra, esse céu, esse mar/ Ela finge que não sabe/ Que tem feitiço no olhar/ Ai meu Deus, que bom seria/ Se voltasse a escravidão/ Eu comprava essa mulata/ E prendia no meu coração/ E depois a pretoria é que resolvia a questão!”. A música recebeu uma versão esfuziante de Elza Soares.

“A Flor e o Espinho” (samba, 1957) – Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha
“A Flor e o Espinho” nasceu do cavaquinho de Nelson com a ajuda de mais um desses parceiros que ele conheceu nas mesas de boteco. Guilherme de Brito pediu a todos que tirassem o “sorriso do caminho, pois ele ia passar com sua dor”. O autor desses versos imponentes e tristonhos realmente conheceu Nelson em seu habitat preferido, mas, diferente de outros “compositores de ocasião”, participou com poesia, e não com dinheiro, da canção gravada pelo cantor Raul Moreno, em 1957. O outro parceiro de Nelson na canção é Alcides Caminha, que só mais tarde teria sua identidade revelada, era o desenhista Carlos Zéfiro, famoso pelos quadrinhos eróticos nas décadas de 50 e 60. Escondido com sua voz nos porões do “Cabaré dos Bandidos”, Nelson só apareceria em disco em 1965, ao tocar seu violão rústico na música que era cantada por Elizeth Cardoso.

“Até Quando” (samba-canção, 1959) – Marino Pinto e Vadico
Um dos bons medidores da importância e da qualidade do legado musical composto por Marino Pinto encontra-se no álbum “Magnífica”, lançado pela “Divina” Elizeth Cardoso em 1959. No disco em questão, a cantora se debruça apenas sobre títulos de Marino, criados, a maioria, com vários melodistas, desde Vadico, parceiro célebre de Noel Rosa, até Tom Jobim, demonstrativo da abrangência de estilos e relações sociais que era capaz de tecer. Seus temas preferidos, como ditava a época, versavam sobre amores que não deram certo, desfeitos ao sabor da mágoa e da paixão, quase sempre embalados pelo ritmo dolente, sofrido e acalorado do samba-canção, como “Até Quando”, com Vadico.

“Vou Partir” (samba, 1965) – Nelson Cavaquinho e Jair do Cavaquinho
São inúmeras as histórias que contam de parceiros fictícios de Nelson Cavaquinho, que nunca existiram como compositores, apenas como ajudantes diante dos arroubos anárquicos do poeta. Nelson Cavaquinho seguia seus ímpetos, e assim ia colecionando parceiros, amigos e mulheres. A última delas foi Durvalina, trinta anos mais nova, que Nelson conheceu com mais de 50 anos de idade. Dos parceiros que teve na vida, muitos foram acompanhantes de boteco, poucos de poesia. Entre eles, destacam-se Guilherme de Brito, Carlos Cachaça, Zé Kéti, Cartola e Jair do Cavaquinho, companheiro até no apelido do sobrenome. Com Jair, Nelson criou a pérola “Vou Partir”, gravada por Elizeth Cardoso em 1965, no LP “Elisete Sobe o Morro”, em que ele a acompanha com seu violão. Dessa vez, a despedida não era eterna, apenas enquanto durasse o carnaval.

“Carolina” (samba, 1967) – Chico Buarque
Foi com tremenda má vontade que Chico Buarque criou um dos sambas mais bonitos de sua extensa coleção de obras-primas. Em 1967, o tímido rapaz gravou o piloto de um programa que apresentaria na Rede Globo, ao lado da atriz e cantora Norma Bengell. Essa primeira experiência foi suficiente para Chico desistir de dar prosseguimento à ideia. A emissora o ameaçou com a cobrança de uma multa, mas a solução encontrada foi o compositor criar um samba para o II Festival Internacional da Canção, promovido pelo canal. Defendida por Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy, a música tirou o terceiro lugar, com seus versos arrastados e melodia dolente sobre uma mulher que viu o tempo passar na janela. Nara Leão e Elizeth Cardoso também a regravaram.

“Sei Lá Mangueira” (samba, 1968) – Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho
Até hoje há fanáticos que não perdoam o fato de Paulinho da Viola, portelense de coração, ter criado a melodia para uma das canções mais emblemáticas em saudação à Mangueira, muito embora ele tenha feito, em seguida, “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida” para a Portela. Hermínio Bello de Carvalho escreveu a letra de “Sei Lá Mangueira” logo após a sua primeira visita ao morro, inebriado com o que havia visto na companhia de Cartola e Carlos Cachaça. Lançada por Elizeth Cardoso em 1968, a música foi inscrita no IV Festival de Música Brasileira da Record, quando foi defendida por Elza Soares. A música levava Elizeth de volta a um ambiente que desde cedo ela aprendeu a apreciar.

“Naquela Mesa” (seresta, 1972) – Sérgio Bittencourt
“De Sérgio Bittencourt para Jacob do Bandolim”, assim Elizeth Cardoso anuncia a homenagem emocionada do filho jornalista e compositor para o pai bandolinista. Abatido com a partida precoce do pai, Sérgio, que também era jurado de programas na televisão, é o autor da música que se tornou um hino sobre a tristeza pela perda. A canção foi apresentada na TV Record, com o próprio Sérgio acompanhando Elizeth ao violão. Regravada diversas vezes por nomes de diferentes linhagens, como Nelson Gonçalves e Otto, e incorporada ao repertório informal dos seresteiros, “Naquela Mesa” tornou-se um clássico da canção brasileira para muito além do tempo e da própria figura de Jacob do Bandolim. E a interpretação de Elizeth Cardoso segue sendo a mais inebriante.

Fotos: Museu da Imagem e do Som/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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