100 anos de Clarice Lispector, a escritora que sondou os mistérios da vida

*por Raphael Vidigal

“Quero como poder pegar com a mão a palavra. A palavra é objeto? E aos instantes eu lhes tiro o sumo de fruta. Tenho que me destituir para alcançar cerne e semente de vida. O instante é semente viva.” Clarice Lispector

Em Clarice Lispector, há algo que sempre nos escapa, como reflexo da natureza fugidia da vida. Esta é, pois, a temática de sua escrita: nada mais do que a vida e suas complexidades e singelezas. Clarice procura, antes de tudo, aparar as afetações e extrair as sobras para chegar ao núcleo cru de uma existência. Claro que este caminho passa por um exercício de mergulho profundo, mas ela só está interessada no real que lateja e pulsa para além das máscaras. A experiência de encontrar Clarice Lispector carece de disposição para a intimidade e o abandono das questões comezinhas. É preciso concentração naquilo que de mais inteiriço contorce-se dentro de nós. Porquanto a leitura da obra da escritora impõe troca.

Nascida na Ucrânia, onde, como dizia, “jamais colocou os pés”, Clarice migrou para o Brasil com meses de idade, ainda um bebê de colo, e passou a primeira parte de sua infância entre Maceió e Recife. A mudança de país foi em decorrência da perseguição aos judeus. Aos oito anos, outra tragédia abateu-se no lar: Clarice perdeu a mãe e, com quatorze anos, mudou-se novamente, desta vez só com o pai e as irmãs, para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu, apesar de, aos 20 anos, perder também o pai, ficando órfã. A natureza solitária e interiorizada aparece logo no primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem”. Clarice introduz o existencialismo na literatura brasileira com um estilo inimitável.

A crítica positiva a comparou a Virginia Woolf e James Joyce, dois autores de língua inglesa, e, em 1964, Fauzi Arap levou o romance para o teatro, enquanto a ditadura militar se instalava no poder para permanecer durante duas décadas. Era o ano de outra pedra fundamental na obra de Clarice: “A Paixão Segundo G. H.”, em que a protagonista se envolve com uma barata até as entranhas. O asco inicial diante do animal é o mote para a autora desvendar mistérios insondáveis. Paralelamente, a escritora publica crônicas em jornais e dedica uma crônica à morte de Mineirinho, assassinado pela polícia com 13 tiros: “Qualquer que tivesse sido o crime dele, uma bala bastava. O resto era vontade de matar”, diz.

A tomada de posição não é suficiente para que ela escape da patrulha ideológica de movimentos de esquerda, que cobram da escritora posicionamentos mais claros contra o regime autoritário. Muito embora, em junho de 1969, Clarice tenha participado de uma passeata contra a ditadura nas ruas do Rio de Janeiro, ao lado de Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Milton Nascimento, Ziraldo, Carlos Scliar e outros artistas. As crônicas da escritora pululavam aflições sociais, em que ela se indignava, por exemplo, com o drama da fome, quando uma mãe, para acalmar o estômago do rebento, implora: “Dorme, meu filho, dorme”. No entanto, o espaço da literatura romanceada ela conservava como uma muralha.

Ali, nenhuma demanda exterior se impunha. Clarice não permitia os discursos de ordem da política, da sociologia ou do capitalismo econômico, com moldes e regras pré-estabelecidas. “Arte não é liberdade, é libertação. Arte não é pureza, é purificação”, sintetizava, ao analisar as pinturas de Picasso e Paul Klee e a sua associação superficial a desenhos feitos por crianças distraídas. Clarice, inclusive, escreveu para os pequenos, sem sacrificar o ponto de vista que lhe era caro: aquele que garante uma gama de possibilidades e ambiguidade à vida. Vida, vida, a vida desfeita de disfarces foi o farol de sua literatura e existência, indissociáveis e distantes do registro instantâneo e evidente. Mas sempre além.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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