Waldir Azevedo (Chorinho)

“O choro foge sem vestígios,
mas levando náufragos dentro.” Cecília Meireles

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Um estribilho é o suficiente para que as pessoas reconheçam “Brasileirinho”. A contadora de histórias Beatriz Myrrha, mineira e apresentadora do “Projeto Pizindim”, lembra que a composição “ocupa o primeiro lugar no ranking dos choros mais conhecidos do mundo”. Escrito em 1949, cuja primeira parte mantém-se, praticamente, em uma corda, é tido como o primeiro de Waldir Azevedo.

Se lhe faltava experiência para inegável feito, a posteridade tratou de garantir ao músico a eternidade devida. Nascido em 27 de janeiro de 1923, completaria, esse ano, 9 décadas de vida. Para Beatriz, a principal contribuição do aniversariante foi “ter dado ao cavaquinho o lugar de destaque no choro, pois até então servia como instrumento de mero acompanhamento”.

REFERÊNCIA
Carioca, Waldir Azevedo é referência para diversos cavaquinistas mineiros. Entre eles, o homônimo, ao menos em primeiro nome, Waldir Silva. Ele conta ter se inspirado no autor de “Delicado” para escrever uma canção-homenagem. “A música chama-se ‘Uma saudade’, com o subtítulo ‘Ao meu xará'”.

Silva afirma que Azevedo “deixou um legado interminável, não somente pelas composições como por sua execução primorosa”. Entre as favoritas do repertório elege as “menos conhecidas: ‘Você, carinho e amor’ e ‘Mágoas de um cavaquinho'”.

CLÁSSICOS
Ausier Vinicius, cavaquinista e dono do bar-musical “Pedacinhos do Céu”, no bairro Caiçara, faz coro à tese de que “Waldir Azevedo é o maior de todos os tempos”, em referência ao instrumento utilizado para criar seus maiores clássicos. O próprio nome do estabelecimento é menção a título da obra do compositor. “A música mais emocionante do Waldir, para mim, é ‘Minhas mãos, meu cavaquinho’, que ele dizia agradecer a Deus por tal inspiração”.

A cantora mineira Lígia Jacques, especialista em interpretar choros, ressalta a “riqueza melódica” da obra do cavaquinista, por “desafiarem o canto em vários aspectos: precisão, destreza, fraseado e afinação”. Na seara que lhe é proximal, nomeia Ademilde Fonseca, considerada “Rainha do Choro”, como quem melhor lhe apresentou as versões cantadas das músicas. “Destaco o choro ‘Cinema Mudo’, letra de Klécius Caldas, como um desafio e ‘prato cheio’ para cantor nenhum colocar defeito”.

NUANCES
Impedido de se tornar aviador, em decorrência de problemas cardíacos, Azevedo empregou-se na companhia de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light. Pouco tempo depois, quando passava a ‘lua de mel’ no interior do estado, em Miguel Pereira, recebeu o telefonema de um amigo, que lhe avisava sobre a abertura de vaga no conjunto regional de Dilermando Reis. Não pensou duas vezes: encurtou o passeio e foi ao encontro da nova profissão. A aposta provou-se certa.

Enfileirou êxitos radiofônicos, percorreu Europa, América e Ásia, foi gravado pelos maiores artistas de seu tempo, como Jacob do Bandolim. Morto em 1980, aos 57 anos, em razão de um aneurisma da aorta abdominal, é reverenciado, ainda hoje, por nomes de gerações seguintes. Baby do Brasil e Dominguinhos o regravaram. Para Waldir Silva, o grande mérito do compositor é “não ter sido um exibicionista para ser visto, o que acontece frequentemente entre os mais jovens, mas, sim, para ser ouvido”. “Ele entendeu as nuances do cavaquinho como ninguém”, finaliza.

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Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” e lido na rádio Itatiaia em 27/01/2013.

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Comentários pelo Facebook

10 Comentários

  • Sempre ótimo Raphael. Obrigada

    Neste passado dia 27 também aniversariou Waldyr Azevedo, um dos maiores nomes do choro e do Brasil no mundo. A reportagem é de Raphael Vidigal e tem um breve depoimento meu, entre outros músicos de BH.
    Pra respirar. Boa noite.

    Obrigada a você Raphael por permitir a participação no seu trabalho. Grande abraço!

    Resposta
  • Raphael Vidigal, blz? Ouvi o programa e está gravado. Muito bom seus texto, como sempre. Parabéns.

    Resposta
  • Querido Raphael, como sempre você arrasou com seu texto primoroso! Parabéns pela matéria, mais do que merecida, homenagem ao nosso Grande Waldir Azevedo! Fico muito honrada em ter participado, ainda que singelamente, com meu depoimento! Beijo,
    Lígia Jacques – cantora e preparadora vocal

    Resposta
  • Raphael Vidigal: mais do que crítico. Um olhar refinado e sensível da Musica.

    Oba! Já tenho minha apresentação pra hoje!
    Obrigada, Raphael e parabéns também. Você é referência em crítica musical! Grande abraço

    Resposta
  • Raphael Vidigal, foi de propósito? A foto do W. Silva e o texto do W. Azevedo? ah… danado!!!!!

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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