Teatro e Violino

“O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável.” Caio Fernando Abreu

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O morto não é o assassino. Já aviso desde o princípio. Embora a dúvida vá perpetuar toda narrativa.

Contribuía para o mistério as doações para a caixinha da igreja. Que padre assassina um devoto?

Lêem Rimbaud avidamente, na juventude (depois abandonam). Colecionava pôsteres de James Dean (nus armários).

Outros vestígios, somem ao valor do feno.

Um retrato rápido e reto. Curto e rastro.

O morto não é o assassino.

Mas “o poeta torna-se vidente através de um longo desregramento de todos os sentidos”, numa página de Rimbaud, em grampo, papel timbrado da empresa.

Vem vindo outro clima. Música. Música e poesia. Ortografia. Diretrizes. Literatura não é isso. Literatura é a primeira escolha que eivamos na Vida. Ritmo, Ritmo e Clima. Literatura é outra coisa: Música e Poesia. Violino e Teatro. A primeira pista.

Absteve-se. Contrai-se. No túmulo, ressecada folha fulgurante mimosa. Crestas à sua revelia vêm lousas, lisas, trôpegas. Tropeçar no feio hirto vultuoso.

Ostensivo. Agitado. Lépido. Coelho a rosnar para as moscas. Coelho rosna? Rosna, sim senhor. Mosca coça? Coça, sim. Era professor, doações para a caixinha da igreja, pôster de James Dean, livro de Rimbaud.

Quem o matou? Quem o matou? Quem o matou? O morto não é o assassino, insistência minha. Periclitante mania, audiência pública, suicidas?

Construiu ninho na catedral. Dormia dias e noites, noites e dias. Era professor, mas não lecionava havia alguns anos, meses, passados. Futuros furtos? Futuros furtos à sua imagem adormecida, rareando na discórdia. Enterrada. Guardada como pó compacto na bolsa de maquiagem.

Ceder às tentações. Vislumbre apunhalá-lo tal Brutus com o Pai? Sintética pena de pelicano nas águas. Alimentam-se de frutas e peixes e minhocas. E eu? Alimento de quê?

Sacolas plásticas como borboletas azuis e amarelas envolvendo descem pelo meu pescoço longo de garça. Borboletas azuis e amarelas. Aprisionando borboletas azuis. E amarelas. Compreendo.

E neste mesmo instante, arremedo as algemas ao redor do suspeito – amarelo. Missiva, arfa nos pulmões. Quando acordou, já fora embora. Abanar o alerta audaz o fragor. A relutância, engalfinhar.

Como Pelicano nas águas. Como Tucano nas árvores. Como garça.

Algema pica e penetra. Há uma chave.

Retumba na tumba as tristes palavras do morto: não sou o assassino, quero Teatro e Violino.

Talvez eu seja a pior das espécies. Ou a melhor. Aquela sem culpa.

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Raphael Vidigal

Pinturas: “O Violoncelista” e “William apressado em esculpir sua alegórica figura do rio Schuylkill”, respectivamente, de Thomas Eakins.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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