Sucessos da divina Elizeth Cardoso

“A voz divina ainda se dissolvia quando cada palavra voltou a cair, em chuva de flores.” Mallarmé

Elizeth-Cardoso

Elizeth Cardoso, Divina Rainha da música brasileira. Rainha negra, Mulata Maior que desde cedo cantava os sucessos de Vicente Celestino, e aos cinco anos subiu pela primeira vez ao palco. Rainha que sentava “Naquela Mesa”, no meio do povo que chorava a morte de Jacob do Bandolim, o amigo que a levou para fazer um teste na Rádio Guanabara. E ali começa sua trajetória a se tornar estrela enluarada. Logo, a menina nascida na Estação de São Francisco Xavier no dia 16 de julho de 1920, estaria entoando canções que seriam sucesso em todas as casas, todos os lares, todos os barracões de zinco do país. Elizeth Cardoso seria em breve, a própria canção de amor que cantou.

“Nas cinzas do meu sonho
Um hino então componho
Sofrendo a desilusão
Que me invade
Canção de amor, saudade!”

Apesar do acalanto quente e suave de sua voz, e da delicadeza com que interpretava as canções, Elizeth não teve apenas flores no caminho. Em 1939, devido aos baixos salários que lhe pagavam nas rádios, começou a se apresentar em circos, clubes e cinemas com o quadro “Boneca de Piche”, nome de música de Ary Barroso e Luís Iglesias. O quadro era apresentando ao lado do humorista Grande Otelo e fez tanto sucesso que eles o repetiram por quase dez anos. Com muita classe, domínio e categoria, Elizeth passava pelos espinhos e exibia novamente seu sorriso de rainha.

“Luminosa manhã
Tanto céu, tanto azul
É demais
Para o meu coração”

Após muitos sucessos nas rádios, Elizeth alcançou as luzes do cinema e da televisão. Lançou em 1958 o disco “Canção do Amor Demais”, considerado inaugural da bossa nova, e em 1965 estreou na TV Record de São Paulo, ao lado de Cyro Monteiro, o programa “Bossaudade”, um dos mais queridos pelo público durante quase dois anos. Arranhando os erres, lapidando notas, letras e ouvidos como quem aninha um coração perdido, Elizeth subiu ao palco do Teatro Municipal do Rio para cantar as “Bachianas Brasileiras número 5” de Heitor Villa-Lobos, e gravou no mesmo ano de 1965 o LP “Elizeth sobe o morro”, fruto do espetáculo “Rosa de Ouro”, acompanhada por bambas do porte de Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Nelson Sargento, entre outros, num dos mais belos registros vocais da música brasileira.

“Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és”

A rainha Elizeth passou a desfilar sua voz mulata de nobreza pelos tapetes vermelhos dos 4 cantos do mundo. Ao lado do Zimbo Trio e de outros amigos excursionou pelos 4 continentes: Europa, Ásia, Américas e África. Era a conquista da menina que cresceu cantando Vicente Celestino e que mais tarde gravou com Silvio Caldas, que cresceu ouvindo as serestas de seu pai e o canto de sua mãe, que foi madrinha do clube carnavalesco “Bola Preta”, que chegou a atuar como atriz e apresentadora, que foi a vida inteira cantora. Mais do que conquistar o mundo, Elizeth conquistava a lua, e se tornava enluarada, conquistava o povo, e se tornava a maior mulata, conquistava a corte, e se tornava magnífica, conquistava a todos, e era definitivamente Divina.

“Ah, o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe”

Elizeth-Cardoso-Divina

Raphael Vidigal

Lido na rádio Itatiaia por Acir Antão em 16/05/2010.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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