Música e poesia: 11 poetas que viraram disco no Brasil

“animal em extinção,
quero praticar poesia
– a menos culpada de todas as ocupações.” Wally Salomão

Poetas que viraram disco no Brasil

Desde o trovadorismo os caminhos da música e da poesia se cruzam. Dando continuidade à essa tradição o paulista Cristiano Gouveia e a mineira Irene Bertachini lançaram, no último domingo (12), o disco “Lili Canta o Mundo!”, em que musicaram poemas de Mario Quintana. E o movimento não é novidade na música brasileira, que tem, por hábito, levar os versos livremente pelas notas das canções.

“Um Poeta Desfolha a Bandeira e a Manhã Tropical se Inicia” (1985)
Para o poeta Torquato Neto (1944 – 1972) não havia limite entre vida e poesia e, muito menos, entre a poesia e outras formas artísticas. Lançado de forma independente, o álbum que traz um dos versos mais famosos de Torquato como título reúne canções que ele compôs com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo e Jards Macalé, interpretadas por Elis Regina, Jair Rodrigues, Nara Leão e Gal Costa, além dos parceiros citados. “Geleia Geral” é um dos grandes destaques.

“Estrela da Vida Inteira” (1986)
A coletânea de poesias lançada por Manuel Bandeira (1886 – 1968) em 1965 emprestou o nome para o LP gravado por Olivia Hime em 1986, de forma independente. O trabalho foi relançado pela Biscoito Fino em 2002. A pedido de Olivia, os poemas do livro em questão ganharam melodias de Tom Jobim, Milton Nascimento, Ivan Lins, Moraes Moreira, Dorival Caymmi, Toninho Horta, Joyce, Radamés Gnatalli, Dori Caymmi, Gilberto Gil, Francis Hime e Wagner Tiso.

“As Várias Caras de Drummond” (2004)
Um ano antes de dar início à série de desaparecimentos que marcaram os últimos anos de sua vida, Belchior concretizou um de seus projetos mais ambiciosos. “As Várias Caras de Drummond”, lançado em 2004, é fruto do empenho do músico em criar melodias para nada menos do que 31 poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) em que se misturam obras conhecidas, como “Sentimental” e “No Banco de Jardim”, a outras menos propagadas, caso de “Lanterna Mágica”.

“A Música em Pessoa” (2005)
Poeta de língua portuguesa mais lido no mundo, Fernando Pessoa (1888 – 1935) foi tão adotado pelos brasileiros que em 2005 ganhou um disco em sua homenagem lançado pela Biscoito Fino. Com a interpretação de Arrigo Barnabé, Milton Nascimento, Marília Pêra, Jô Soares, Tom Jobim, Sueli Costa, Marco Nanini e outros, poemas conhecidos como “O Rio da Minha Aldeia”, “Glosa” e “O Menino da Sua Mãe” aparecem tanto na forma de canção como recitados.

“Real Grandeza” (2005)
Egresso da poesia marginal, o baiano Wally Salomão (1943 – 2003) foi nome fundamental – assim como o contemporâneo Torquato Neto – para o tropicalismo, tanto em sua área de origem quanto na música. No ano de 2005, um de seus principais parceiros musicais lançou o álbum em que enfileirava várias criações de sucesso dos dois, como “Vapor Barato”, “Anjo Exterminado” e “Mal Secreto”. O delicado poema “Berceuse Criolle” é interpretado no disco por Maria Bethânia.

“Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé” (2005)
Fã declarado da poeta paulista Hilda Hilst (1930 – 2004), Zeca Baleiro provou sua idolatria ao produzir disco baseado no livro “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”, lançado por ela em 1974. Como a inspiração da obra literária era o amor impossível do mito grego de Ariana e Dionísio, a menção aparece como epígrafe no título do álbum, que reúne poemas de Hilda musicados por Baleiro nas vozes de Angela Maria, Angela Ro Ro, Maria Bethânia e Zélia Duncan, entre outras.

“Crianceiras” (2013)
Manoel de Barros (1916 – 2014) sempre aclamou a poesia como a infância da língua, num claro elogio à liberdade criativa das crianças que permeia toda sua obra literária. Nada mais apropriado, portanto, que transformar os versos do poeta pantaneiro em música com um coro de pequenos formado por 15 cantores mirins. Foi o que o compositor Márcio de Camillo fez em 2013, ao musicar dez criações de Barros, entre eles “Bernardo”, “O Idioma das Árvores” e “Linhas Tortas”.

“Leminskanções” (2014)
Filha de Paulo Leminski (1944 – 1989), a cantora e compositora Estrela Leminski Ruiz (que também é herdeira direta da poeta Alice Ruiz), lançou em 2014 disco para homenagear a obra múltipla e concisa do pai, que já havia se aventurado pelas notas da canção em parcerias com Caetano Veloso e Moraes Moreira. O projeto, gravado com o apoio da banda Os Paulera, resultou em álbum duplo que enfileira 26 versos transformados em música, como “Luzes” e “À Você Amigo”.

“Balada dos Casais” (2017)
Ao invés de um, logo dois. O multiartista de Itabirito, Thelmo Lins, resolveu reunir a obra de dois poetas em disco, já que Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti formam um casal para além da literatura. Mas é através da obra poética do mineiro e a ítalo-brasileira que Lins traça os caminhos que levam a uma união harmônica entre música, poesia e o tema do disco: o amor aparece nos versos de “Silêncio Amoroso”, “Corpo Adentro” e “Estranhamento” em distintas concepções.

“Lili Canta o Mundo!” (2017)
O poeta gaúcho Mario Quintana (1906 – 1994) foi pródigo em escrever com humor e profundidade para crianças e adultos de todas as faixas etárias, fosse através de provérbios ou versos tanto livres quanto formais. Irene Bertachini e Cristiano Gouveia captaram a música que emana da obra de Quintana ao privilegiar a obra tida infantil, mas que se observada com acuidade diz a que veio para todos os públicos. Entre os poemas estão “Cidadezinha” e “Cantiguinha de Verão”.

11 poetas que viraram disco no Brasil

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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