Crítica: “The Voice Brasil” anuncia técnica e vende entretenimento

“Esse espetáculo, que eu esperava que me angustiasse, que me causasse inveja, ou mesmo que me distraísse pelo contágio de um sentimento sublime, me entediou como a uma solteirona.” Raymond Radiguet

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É um engodo. Do princípio ao fim. Programas de auditório que se propõe a revelar talentos não configuram novidade. O Brasil se beneficiou deste molde, sobretudo, nas décadas de 1960 e 1970, conhecidas como “Era dos Festivais”. Há uma diferença fundamental, no entanto, entre este passado e o momento atual, que salta aos olhos não apenas pelo distanciamento histórico que nos permite elencar nomes como Chico Buarque, Elis Regina, Gonzaguinha, Caetano Veloso, Tom Zé, Mutantes, Jair Rodrigues, que ganharam força ou se consagraram nestes programas. A estrutura era diferente, porque participavam dela nomes interessados na arte e não apenas no mercado, ou no que podemos chamar de entretenimento. É verdade que essas vertentes nem sempre divergem, mas no caso citado, sim, e de maneira dramática.

Se há alguma sinceridade na versão brasileira do programa “The Voice”, está sobre os participantes, que nitidamente se esforçam e creem naquele espetáculo de espasmo, apoplexia e demagogia que produtores, apresentador e jurados promovem. Tudo para extrair o máximo de audiência, drama, risadas, voltas por cima e reviravoltas das quais a plateia é cúmplice. Daí a diferença crítica entre os festivais de tempos idos e esse circo em tempo real e interativo que se escora nestes adjetivos para alardear suposta modernidade. Cláudia Leitte, Carlinhos Brown, Daniel e Lulu Santos nunca priorizaram a técnica em detrimento do alcance pop de uma canção, pelo contrário, e aí não há demérito, apenas fatos. Mas se arvoram de tais argumentos para colocar a cabeça a prêmio ou eleger para lágrimas os que ali se prestam ao crivo.

Ou seja, o “The Voice Brasil” anuncia técnica, mas vende só entretenimento, não se constrangendo em explorar o sonho dos participantes para alimentar ego e bolso, e se apresentar vaidosamente como um sensível conhecedor musical. A falta de personalidade, ousadia, discurso dos avaliados apenas vem a corroborar com o que a produção do programa pretende estampar em sua vitrine. Afinal de contas, se é para ficar emocionado frente ao televisor com histórias de mentira, prefira Chaplin, ao menos é bem mais honesto em sua tentativa de avaliar o homem, inclusive no que ele tem de mais piegas.

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Raphael Vidigal

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1 Comentário

  • Por quê os jurados não trocam de roupa a cada módulo, ou seja, terça uma roupa, quinta outra?! Ficam com a mesma roupa toda semana. O certo é gravar cada módulo referente a cada dia inovando no estilo pow!.. bjoooo

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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