Análise: 40 anos da morte de Madame Satã, símbolo da luta contra preconceitos

“Eis a noite encantada, amiga do bandido;
Ela vem como cúmplice, a passo escondido;
Lento se fecha o céu como uma grande alcova,
E o homem impaciente em fera se renova.” Baudelaire

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Trocado quando criança por uma égua, para que a mãe pudesse sustentar os dezessete irmãos que permaneceriam, Madame Satã tornou-se uma figura emblemática e contraditória na luta contra os preconceitos arraigados na formação nacional. Negro, pobre e homossexual distinguiu-se de seus pares, sobretudo, pela coragem e inconformidade. Não foram poucas as vezes que frequentou e passou longos períodos encarcerado, cujos motivos que se repetiam tinham a ver com desacato, quando não atingia a prática da violência física que resultou, inclusive, no assassinato de um policial em 1928. Neste famoso caso teria sido insultado reiteradamente por suas condições, inclusive porque Madame Satã não escondia de ninguém qual a sua preferência sexual.

Destacava-se também por outras práticas. Valente, feroz e temido na Lapa, onde passou a residir ainda jovem levando seguramente, para os parâmetros da época, uma vida de malandro, entre michês, bandidos, sambistas e prostitutas, ficou conhecido como dos mais habilidosos capoeiristas de todos os tempos, jogo que utilizava para se proteger e erguer assim sua fama. O que salta aos olhos na trajetória de Madame Satã, porém, cujo nome de batismo, João Francisco dos Santos, foi apagado diante da imagem impressionante de sua personagem, é a desconstrução de paradigmas e a união de paradoxos. Apresentando-se em cabarés decadentes, contra tudo e contra todos, teve, no peito e na raça, o mérito de se exibir travestido com roupas femininas e entoando canções lânguidas e românticas, isto num universo predominantemente machista que se fazia obedecer pela lógica da violência.

Foi no carnaval carioca de 1942, após mais uma saída da cadeia, que Madame Satã desfilou a fantasia com a qual ficaria nacionalmente e para a posteridade reconhecido. A partir daí, passou a vencer concursos que privilegiavam a temática homossexual frequentemente. Dentre os episódios mais controversos de sua existência consta a lendária briga que resultou na morte do compositor Geraldo Pereira, após este receber um soco desferido por Madame na barriga e tombar no chão, indo de encontro ao asfalto. Em 1971 concedeu uma polêmica entrevista para o semanário “O Pasquim”, em período de chumbo da ditadura militar, e ali começou a se cristalizar o mito em torno de Madame Satã, entre a arte e o submundo, dançarino e marginal. Definia-se, ele mesmo, como “Filho de Iansã e Ogum, e devoto de Josephine Baker”. Faleceu aos 76 anos.

Dois anos antes de sua morte, no entanto, serviu ainda como referência para o filme “Rainha Diaba”, dirigido por Antônio Carlos Fontoura, com argumento de Plínio Marcos, Milton Gonçalves no papel principal, e a presença marcante de Odete Lara. Interpretado no teatro, título de casa noturna em São Paulo, cantado em música por seu contemporâneo Noel Rosa, Madame Satã foi emblema de muitas faces. Já em 2015, recebeu homenagem da Portela, em enredo que versava sobre os 450 anos da cidade que o abrigou durante a maior parte de sua icônica trajetória. Quando em 2002 virou nome de filme protagonizado por Lázaro Ramos pôde-se constatar como a força de sua luta permanece chocante, irreversível, plástica e assustadora. Como um golpe de capoeira ou uma quebrada dos quadris na dança, em que não se distingue onde começa ou termina o bem do mal, a mulher do homem.

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Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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