Alceu Valença: “Não abrimos mão de acreditar num país mais fraterno e solidário”

“O rio de minha terra é o A B C
de minha meninice, o meu passado
a correr para o mar
com todas as pedrinhas com que eu criança
brincava a fingir que eram bois.” Jorge de Lima

Geraldo Azevedo, 73, teve um início de carreira prodigioso. Autodidata, começou a tocar violão aos 12 anos. Com a mudança de Petrolina, no interior de Pernambuco, para o Rio de Janeiro, ele agarrou a chance de acompanhar Eliana Pittman (que gravou sua primeira música, “Aquela Rosa”, em 1968), Geraldo Vandré, Naná Vasconcelos e Teca Calazans. Tudo isso antes de unir sua travessia à do conterrâneo Alceu Valença, 72, na capital fluminense. Juntos, eles estreariam em disco no ano de 1972.

O sucesso de ambos, porém, só aconteceria ao toparem com outra nordestina que partira para o sudeste do país em busca de um lugar ao sol. Elba Ramalho, 67, tinha abandonado o curso de sociologia e economia na Universidade Federal da Paraíba para se dedicar aos sonhos da arte: ela cantava, interpretava e dançava balé. Ao lado do ator e amigo Carlos Vereza, batia ponto com frequência nos bares do Baixo Leblon, e foi lá que conheceu Alceu, de quem gravaria “Anunciação” (1983).

A música é uma das que aceleram seu coração, tanto que foi escolhida para a abertura de dois DVDs da cantora. A outra eleita é “Dia Branco” (1981), de Azevedo. Elba, por sinal, é recordista em dar voz a obras do autor de “Dona da Minha Cabeça”, “Quando Fevereiro Chegar” e “Moça Bonita”. “São canções que você escuta e já se vê cantando. Eu conheço muitas das histórias e fatos que estão por trás delas. E não vou apenas cantar, tenho algo a transmitir”, ressalta Elba.

Entrevista com Alceu Valença

1 – O que pesou e qual foi o fator decisivo para que você voltasse a esse projeto ao lado de Geraldo Azevedo e Elba Ramalho, embora sem a presença do Zé Ramalho?
AV – Participei do primeiro Grande Encontro, em 1996, mas deixei o projeto no ano seguinte. Estava lançando um disco meu na época e a gravadora pediu que eu me dedicasse ao trabalho de divulgação do álbum. Depois, o Grande Encontro seguiu por mais algum tempo, sem a minha presença. Quando o projeto completou 20 anos, em 2016, fui convidado por Elba e Geraldinho (Azevedo) para retomar a empreitada. Lançamos um CD e um DVD e há dois anos voltamos à estrada com shows sempre lotados, um carinho muito grande do público em todos os lugares por onde passamos. Zé não pôde participar da atual edição, mas está presente em músicas como “Frevo Mulher” e “Chão de Giz”, que fazem parte do repertório do show. Somos colegas de geração, ligados por uma amizade profunda, e temos em comum o fato de não abrirmos mão de nossa identidade brasileira, nordestina, e de acreditarmos sempre em um país mais fraterno, gentil, em uma nação solidária. É este compromisso que nos mantém ligados como artistas depois de todo este tempo.

2 – Tem outros planos relacionados ao cinema, a exemplo do filme “A Luneta do Tempo”? O que significou essa experiência para você?
AV
– A filmagem de “A Luneta do Tempo” foi um dos melhores momentos de toda a minha vida. Levei dez anos escrevendo o roteiro, criei diálogos, personagens, compus a trilha sonora, dirigi, editei. No momento, existem dois documentários em preparação sobre a minha trajetória como artista. Mas nestes eu sou apenas o tema, não me propus a dirigir. Tenho algumas ideias para um novo filme, cheguei a começar um novo roteiro, mas ainda não sei se volto a me dedicar ao cinema. Não sei se consigo dedicar outra década a um projeto cinematográfico. Nem eu, nem meus amigos e familiares, a quem abordei obsessivamente durante o feitio da “Luneta” (risos). Mas a possibilidade não está de todo descartada. Quem sabe?

3 – Qual música do espetáculo lhe diz mais sobre esse encontro e em que circunstâncias ela foi composta?
AV
– O Grande Encontro possui um repertório irrepreensível. De alguma maneira resume o melhor de nossas obras ao longo de mais de 40 anos de carreira. Mas, para responder a sua pergunta, posso destacar “Caravana” e “Táxi Lunar”, ambas compostas por mim, Geraldo (Azevedo) e Zé (Ramalho) na década de 70; e também “Me Dá um Beijo”, uma canção do meu primeiro disco, lançado em dupla com Geraldinho. São temas emblemáticos de nossa trajetória e representativos desta sólida amizade e parceria.

Entrevista com Geraldo Azevedo

1 – Qual música do espetáculo lhe diz mais sobre esse encontro e em que circunstâncias ela foi composta?
GA
 – Acredito que “Táxi Lunar”, que é uma música minha com Alceu e Zé Ramalho. O refrão é meu e de Zé, e o restante da poesia é de Alceu. Todo disco que gravo, acontece de eu fazer uma música durante o processo. E foi assim com “Táxi Lunar”, que recebi a melodia durante a gravação do meu disco com Alceu, o “Alceu Valença e Geraldo Azevedo” (de 1972). Não fui eu, o violão achou a música pra mim, e fiquei com aquela melodia na cabeça. Num dia, em Santa Teresa (bairro do Rio de Janeiro), mostrei a música pro Zé, que teve a inspiração do refrão: “um táxi pra estação lunar”. Ele fez: “apenas apanhei em Cuiabá, um táxi pra estação lunar”. Ele fez outras partes também, mas achei pesado. Mostrei pra Alceu, que completou a música, inspirado por uma namorada da época. Fui lançá-la no “Bicho de Sete Cabeças”, em 79. “Táxi Lunar” foi nosso primeiro sucesso radiofônico.

2 – Qual a importância da música produzida pelos autores nordestinos para a história da música popular brasileira?
GA 
 – O nordeste é um dos maiores celeiros musicais do nosso país, produziu e produz até hoje grandes compositores brasileiros. De João Gilberto a Tibério Azul, passando por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Vital Farias, Belchior, Alceu Valença, Lenine, Chico Science, Tom Zé, Ivete Sangalo, Otto, Lula Queiroga e muitos outros. Sem contar o número de gêneros musicais nascidos na região, como maracatu, coco de roda, frevo, forró, bumba-meu-boi, embolada e manguebeat, que são alguns exemplos da diversidade e da alta produtividade do nosso nordeste.

3 – Pensam em dar continuidade a esse projeto com canções inéditas? Vocês têm composto algo novo atualmente?
GA
  – Ainda não conversamos sobre o assunto. Cada um tem produzido individualmente em paralelo. Acabei de gravar um DVD em voz e violão que devo lançar nos próximos meses. Entrei em estúdio essa semana para gravar algumas faixas, que devem sair em breve também.

Entrevista com Elba Ramalho

1 – O que significa para você dar voz a músicas compostas por Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Zé Ramalho? Qual o diferencial deles enquanto compositores?
ER
 – Enquanto intérprete, eu tenho a possibilidade de dar a minha voz para aquela canção. É a minha escolha, e não vou apenas cantar, tenho algo a transmitir. Então a minha responsabilidade já começa na escolha do repertório, e cantar os meus parceiros de toda uma vida é muito especial. Nesta edição, o Zé Ramalho não participa, mas a sua obra se faz presente quando eu canto “Chão de Giz” e “Frevo Mulher”. É difícil dizer o diferencial deles, pois são vários detalhes. Eu sou a cantora que mais gravou Geraldo Azevedo, conheço muitas das histórias e fatos que estão por trás das canções de Geraldo. Fui vocalista do Zé Ramalho, no início das nossas carreiras, somos primos e nascemos na Paraíba. Me identifico muito com a obra de Alceu, já gravei dois DVDs tendo “Anunciação como música de abertura. Cada um tem as suas particularidades e qualidades.

2 – Com qual música do repertório você mais se identifica e qual foi o sentimento que ela gerou em você na primeira vez que a ouviu?
ER  
– Definitivamente, esta é uma pergunta muito difícil. O repertório do show é muito rico e os compositores são maravilhosos. Não vou escolher apenas uma, vou escolher “Dia Branco” de Geraldinho Azevedo; e “Anunciação”, de Alceu. São canções que você escuta e já se vê cantando, me identifico muito com elas.

3 – Qual dessas canções do espetáculo você acha que tem mais a dizer sobre o momento atual do país e como tem visto esse momento pelo qual passamos?
ER
 – O momento é confuso e não creio que exista uma música para representar esta situação. Eu gostaria mesmo que os versos de Geraldo Azevedo estivessem presentes nos pensamentos e atitudes de todos nós: “Faz a tua luz brilhar, para iluminar, a nossa paz. O meu coração me diz, fundamental, é ser feliz”.

Raphael Vidigal

Fotos: Yanê Montenegro/Divulgação; e Lívio Campos/Divulgação, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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