Silva: “O Brasil já foi muito mais relevante musicalmente do que é hoje”

“Não se deve tocar nos ídolos: o dourado acaba por ficar agarrado em nossas mãos.” Gustave Flaubert

Em 2015, o cantor Silva iniciou bem-sucedida turnê com o repertório de Marisa Monte. O carioca Qinho fez a mesma aposta com “Fullgás” (2018), calcado na obra de Marina Lima. No disco de estreia, “Galanga Livre” (2017), o rapper Rincon Sapiência convidou o veterano Sidney Magal. E mesmo aqueles com mais chão percorrido têm adotado a prática. Para 2019, Nando Reis prometeu um disco só com músicas de Roberto Carlos. Abaixo, Silva responde algumas das nossas curiosidades.

1 – O que o aproximou do repertório da cantora Marisa Monte? Quem era o seu grande ídolo musical na infância e qual a sua primeira lembrança musical?
Meus irmãos, que são um pouco mais velhos do que eu, me apresentaram Marisa. Lembro que fiquei apaixonado pelo (disco) “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000) e depois disso comecei a ouvir tudo dela. Hoje, tenho o prazer de ser amigo de alguém que sempre admirei. Meu ídolo musical da infância eu diria que era Tom Jobim, ouvi o álbum “Passarim” (1987) até furar. Minha primeira lembrança musical é de meu tio, que é um pianista que admiro muito, me colocando para tocar um pedaço de um concerto de (Robert) Schumann (compositor erudito alemão) que ele estava estudando. Eu era muito novo e é claro que tocava tudo errado, mas nunca me esqueço disso.

2 – Parece ter havido uma mudança na relação entre as gerações na música brasileira. Em determinado período ela foi de rompimento: bossa nova com samba-canção; Tropicália com bossa nova; rock com MPB, etc. E atualmente a reverência dos novos artistas aos antigos domina a cena. Na sua opinião, a que se deve isso?
É algo complexo para responder em poucas linhas. Acredito que sentimos um pouco de saudade do tempo em que a música era feita com um pouco mais de minúcia e consciência, de que é algo que você vai deixar registrado aqui para sempre. Eu pertenço a uma gravadora e, sendo assim, vejo gente se preocupando muito mais com números e plays do que com o próprio conteúdo e força das gravações. O mercado mudou muito. Não estou aqui dizendo que não há coisas boas sendo feitas hoje, pelo contrário, tenho visto artistas incríveis e corajosos aparecendo pelo Brasil todo. É isso que me deixa feliz, mas o Brasil já foi muito mais relevante musicalmente no mundo inteiro do que é hoje. Digo numa escala popular mesmo. Temos que lembrar que estamos num país que nos obriga a lutar muito para conseguirmos ser algo. Poder viver de música hoje é um privilégio.

3 – O rompimento com gerações anteriores nunca foi exclusividade da música brasileira. Qual a importância desse tipo de movimento dentro de um território de reflexão como são as artes? E, na via contrária, o que a relação de reverência traz de positivo, quais são as principais contribuições que ela agrega?
Bom, me formei em violino clássico e toquei muito em orquestra na infância e na adolescência. Sempre me questionei muito sobre essa questão do novo versus tradição. Como músico, acho necessário saber mais sobre aqueles que vieram antes da gente e acredito que isso só enriquece a nossa produção, mas também acho que precisamos nos esforçar para entendermos o tempo e o mundo em que a gente vive. É importante que um músico consiga se comunicar com seu tempo. Eu, por exemplo, adoro a bossa nova, mas entendo que não vai fazer sentido algum se eu tentar reproduzi-la ao invés de tentar trazê-la para o contexto de hoje.

4 – Tem planos de gravar um álbum em homenagem a algum outro músico?
Alguns! Mas só faria isso de novo daqui a alguns anos. Cada vez que paro para ouvir álbuns brasileiros que ainda não conhecia, mais eu fico orgulhoso e feliz de ser um músico desse país. No momento estou compondo músicas novas, mas sem intenção de lançar nada por agora, já que acabei de lançar um disco que me custou muitos meses de trabalho. E fico feliz que a fonte não secou, porque é isso que me move.

Raphael Vidigal

Fotos: Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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