5 motivos para o sucesso de Friends

“Tenho amigos tão bonitos. Ninguém suspeita, mas sou uma pessoa muito rica.” Caio Fernando Abreu

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Mais de 10 anos após o fim da série criada por David Crane e Marta Kauffman, “Friends” pode ser considerado um clássico do entretenimento norte-americano, e pelo poder de penetração da cultura de massa do país, até mundial. Na tentativa de elucidar os motivos responsáveis pelo êxito da trama, 5 possíveis características são apontadas. Não é qualquer atração que resiste ao fôlego de uma década no ar e mais outra dela amparada pelo passado para permanecer presente na memória e no cotidiano de seus adoradores. Aos méritos da história.

1 – Composição das personagens
O primeiro ponto que deve ser analisado é o da composição das personagens. Isso porque reside muito na qualidade do elenco selecionado o mérito da atração. Mas essa qualidade, obviamente vem aliada com uma boa seleção dos produtores e diretores. Ou seja, enxergaram que aquelas pessoas eram as propícias para cada papel. A partir da linguagem televisiva clássica, que não busca o aprofundamento, mas certa superficialidade inerente ao ritmo do modelo, Ross, Chandler, Joey, Phoebe, Monica e Rachel representam conflitos, necessidades e ideais bem definidos, quase maniqueístas, ou seja, não existe aquela complexidade da pessoa que contém em si milhões de personalidades e enigmas. Mas, nesse caso, a série atinge o objetivo de alcançar o riso e gerar identificação com quem assiste. O mais importante é notar que se aquele mesmo texto fosse dito por outras pessoas, de outra maneira, sem as entonações, pausas, maneirismos, tiques, modos que cada intérprete soube empregar para sublinhar o estilo, ou mesmo o estereótipo de sua personagem, não teria a mesma graça.

2 – Fórmula narrativa
A narrativa é de ação, ou seja, baseada em acontecimentos, fatos, movimentação, idas e vindas nos relacionamentos, apropriação de datas comemorativas para dentro do enredo, encontros entre familiares, amigos, etc., mas isso tudo acontece na superfície, enquanto nos subterfúgios sentimentos são analisados e afloram. A forma como Monica lida com os pais, a ânsia por manter as coisas em ordem, a necessidade de encontrar um namorado, revelam aspectos da personalidade como insegurança, carência, e a partir daí o telespectador pode, sem perceber, divertir-se enquanto se comove com aquele enredo. Isso pode ser empregado a todos os outros personagens da série. A fórmula narrativa baseada em fatos é de mais instantânea assimilação, pois ocorre numa dimensão do entendimento concreto, logo exterior. Para observar o que não é visível, e que ocorre, portanto, no interior, evidentemente demanda-se um tempo maior, pois o entendimento é não mais tanto no campo visual, mas por associações. Ou seja, um gesto que significa algo que vai além da imagem exposta. Na televisão a linguagem, via de regra, é essencialmente visual.

3 – Construção de enredo
A ideia de construir uma história com 6 amigos, três homens e três mulheres, portanto com o potencial da formação de casais, pode não ser a mais original, mas certamente só se tornou clássica com “Friends”. Ambientar os conflitos numa atmosfera de cumplicidade (que vai além da “obrigação” familiar), acompanhar com o crescimento deles os próprios, ou relembrar fases da vida pelas quais já passamos, permitiu que o seriado se equilibra-se naquela doce corda da “comédia romântica”. Ou seja, um humor com pitadas de romantismo. Através disso, os escritores inclusive abordaram temas espinhosos e cheios de preconceito, especialmente na sociedade americana, como casamento e adoção de crianças por casais do mesmo sexo, uso de entorpecentes não regulamentados, barriga de aluguel, etc., em alguns casos dando a sua contribuição progressista, em outras e bem mais raras, afirmando o olhar conservador da sociedade, e claro, de quem o escreve. O certo é que, mesmo com o desgaste natural do tempo, o enredo soube se reciclar, calcado sempre no incrível talento dos atores para encarnarem aquelas personagens.

4 – Poder de identificação
Em suma, esta categoria é a congregação de todas as outras citadas acima. Pois depende da composição das personagens, da fórmula narrativa e da construção do enredo. A identificação vem pelas personagens primeiro, pela maneira em que foram concebidas e sublinhadas, as características bem definidas em que podemos colocar, como em potes, cada uma. E se pensarmos especificamente nos modos de humor elas também se encaixam. Chandler como o humor sarcástico, Joey como um humor físico, Ross o melodramático, Phoebe o absurdo, Mônica o histérico e Rachel aquele humor sensual, de conquista, quase um flerte. Há, certamente, sutilezas e camadas interpostas entre eles, em que podemos observar ironia, deboche, inocência e sacrilégio. Esse texto que aborda cada tipo de humor e personagem é ancorado pelas situações. Aí ocorre a identificação no campo concreto, do tipo “já passei por isso e agi assim”, ou o contrário, mesmo a perspectiva de como seria. Afinal de contas, como coloca o escritor tcheco de “A Insustentável Leveza do Ser”, o romance não é “uma confissão do autor, mas uma exploração das possibilidades humanas”. Daí por que nos permitimos identificar com situações que não aconteceram, pelo sonho, a imaginação.

5 – Sorte
Esse é o aspecto que escapa a qualquer análise e por isso mesmo é essencial. Afinal de contas há que existir algo de lúdico nessas criações. Por mais que almeje a uma cultura de massa, e especificamente nisto não se identifica demérito, “Friends” traz um riso de situações inusitadas, cuja obviedade do previsível é superada pela maneira, a forma, a estética deste riso. São muitos os que falam que o humor é uma questão de respiração. A sorte por outro lado é tão impalpável quanto o ar, mas está por todos os lados. Há os que a enxergam, os que duvidam de sua existência e os que afirmam que essa percepção é sandice. Mas o fato daquelas pessoas terem se encontrado naquele momento da história para dar vida à Ross, Chandler, Joey, Phoebe, Monica e Rachel, além das participações memoráveis de Gunther e Janice é um mistério que a observação humana e sua simples capacidade não define. A sorte talvez também seja a régua que sublinha a união entre composição das personagens, fórmula narrativa, construção de enredo e poder de identificação, aquela cereja do bolo sem a qual não há tanto brilho e nem o mesmo gosto.

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Raphael Vidigal

Fotos: Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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