10 Clássicos da Festa Junina

“O rito acontece quando um poema, achando que as palavras não bastam, se encarna em gestos. Um rito é um poema transformado em festa.” Rubem Alves

Clássicos da música brasileira para festa junina

Comemorada no Brasil desde o período colonial e trazida pelos portugueses, as festas juninas adquiriram, com o tempo, características típicas do país, pródigo, justamente, em misturar influências. Além de saudar os santos, pular a fogueira em trajes alusivos à vida no interior, adornar de balões o cenário e se deleitar com canjica, quentão e milho, não falta às comemorações muita música. E talvez seja na canção aonde mais se faça notar a absorção brasileira. Fortemente baseada em gêneros nordestinos, as festividades do mês de junho legaram alguns clássicos para o cancioneiro nacional, que contemplam de Luiz Gonzaga a Lamartine Babo, com a presença de Moraes Moreira e Assis Valente. As décadas abarcam, principalmente, os anos 1930, e vão até os 1980.

Cai, Cai, Balão (1932) – Assis Valente
É o primeiro clássico junino com autoria conhecida do Brasil. Composta em 1932 por Assis Valente, a música foi lançada em um dueto com Francisco Alves e Aurora Miranda, irmã de Carmen. Ela traz o mesmo título de uma cantiga popular de domínio público (cai, cai, balão/cai, cai, balão/aqui na minha mão), porém a composição de Valente envereda por outro caminho ao lançar mão da sabedoria popular com os versos: “quem sobe muito, cai depressa sem sentir”.

Chegou a Hora da Fogueira (1933) – Lamartine Babo
Esta música de 1933 reúne, de uma só vez, vários astros da canção brasileira. Composta por Lamartine Babo foi lançada em dueto com Carmen Miranda e Mário Reis sob os arranjos de Pixinguinha. Por isso não espanta que seus versos e melodia tenham permanecido por tanto tempo no imaginário popular. “Chegou a hora da fogueira/é noite de São João/o céu fica todo iluminado/fica o céu todo estrelado/pintadinho de balão”. Foi regravada pelo palhaço Arrelia.

Isto É Lá com Santo Antônio (1934) – Lamartine Babo
A fim de bisar o sucesso do ano anterior, Lamartine Babo compôs para 1934 outra marchinha junina, e chamou para gravar, novamente, a dupla Carmen Miranda e Mário Reis. Deu certo. A música que brinca com os milagres praticados por São Pedro, Santo Antônio e São João ficou entre as mais executadas. “Eu pedi numa oração/ao querido São João/que me desse um matrimônio/São João disse que não/isto é lá com Santo Antônio”, diz em versos.

Pula a Fogueira (1936) – Getúlio Marinho e João B. Filho
Lançada por Francisco Alves em 1936, época áurea do cantor tido como o Rei da Voz, a música “Pula a Fogueira” é uma composição da dupla Getúlio Marinho e João B. Filho. Presença garantida nos festejos, ela aborda a tradição descrita em seu título. Originária das festas pagãs, a fogueira foi, aos poucos, incorporada aos festejos para louvar, principalmente, São João. Na música, os versos ganham teor romântico: “olha que a fogueira já queimou o meu amor”.

Último Desejo (1938) – Noel Rosa
Embora não tenha sido composta para animar os festejos de junho, a música “Último Desejo” figura entre os clássicos da canção brasileira e teve inspiração, ao menos inicial, na festa. Lançada um ano após a morte de seu compositor, Noel Rosa, em 1938, por sua amiga Aracy de Almeida, ela é uma despedida amorosa no formato de carta. Os primeiros versos justificam a ligação: “Nosso amor que eu não esqueço/e que teve seu começo/numa festa de São João”.

Noites de Junho (1939) – Braguinha e Alberto Ribeiro
Ainda integrante do Trio de Ouro ao lado de Herivelto Martins e Nilo Chagas, Dalva de Oliveira já era uma cantora requisitada em 1939, quando gravou sua primeira marcha junina, “Noites de Junho”, composição de Braguinha e Alberto Ribeiro. Os versos captam um lado poético e delicado da festividade: “Os balões devem ser, com certeza/as estrelas daqui deste mundo/que as estrelas do espaço profundo/são os balões lá do céu”. Foi regravada por Emilinha Borba.

Pedro, Antônio e João (1939) – Benedito Lacerda e Osvaldo Santiago
Também em 1939 o compositor Benedito Lacerda, que havia acompanhado com seu regional a cantora Dalva de Oliveira na gravação de “Noites de Junho”, deu a sua contribuição para a festa. É dele e de Osvaldo Santiago a autoria de “Pedro, Antônio e João”, não por acaso lançada por Dalva. Assim como na música de Lamartine Babo se inspira nos santos louvados: “Com a filha de João/Antônio ia se casar/mas Pedro fugiu com a noiva/na hora de ir pro altar”.

Olha pro Céu (1951) – Luiz Gonzaga e José Fernandes
Conhecido como o Rei do Baião, Luiz Gonzaga lançou dois discos inteiramente dedicados à músicas juninas, tamanha sua identificação com a causa, ambos intitulados “Quadrilhas e Marchinhas Juninas”, o primeiro de 1965 e o volume 2 de 1979, que trazia ainda o epíteto “Vire Que Tem Forró”. Mas nenhuma música de sua autoria produziu tanto impacto quanto “Olha pro Céu”, parceria com José Fernandes lançada em 1951 e regravada por Elba Ramalho e Gilberto Gil.

Pra São João Decidir (1952) – Lupicínio Rodrigues
Uma das últimas músicas gravadas por Francisco Alves, “Pra São João Decidir” é uma composição de Lupicínio Rodrigues do ano de 1952. Identificado com o samba-canção mais magoado, conhecido como “dor de cotovelo”, a criação junina de Lupicínio não foge ao estilo. Em forma de crônica, conta a decepção com o santo após perder aposta para o vizinho. “Eu tinha tanta confiança neste santo/que apostei um conto e tanto”, admite. Foi regravada por Arrigo Barnabé.

Festa do Interior (1982) – Abel Silva e Moraes Moreira
Após hiato de algumas décadas, as festas juninas voltaram a ser tema de uma canção popular de sucesso no Brasil em 1982. Composta por Moraes Moreira e Abel Silva em ritmo de frevo, “Festa do Interior” foi lançada por Gal Costa. Com arranjo de Lincoln Olivetti integra “Fantasia”, um dos álbuns mais exitosos da carreira da cantora. Os versos exaltam costumes juninos em meio a declarações de amor: “Babados, xotes e xaxados/segura as pontas, meu coração”.

Guignard retratou a festa junina

Raphael Vidigal

Imagens: Montagem com as fotos de Lamartine Babo, Braguinha, Carmen Miranda, Assis Valente e Gal Costa, respectivamente, de cima para baixo e da esquerda para a direita; e obra de Alberto da Veiga Guignard.

Publicada no jornal O Tempo em 04/06/2017.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade