*Raphael Vidigal Aroeira
Zezé Motta sempre aspirou a um mundo onde “a tigresa possa mais do que o leão”. Pelo menos era assim que Caetano Veloso a enxergava quando compôs, inspirado por ela, a música “Tigresa”, gravada, em 1977, pelo compositor e, naquele mesmo ano, por Ney Matogrosso, Maria Bethânia e Gal Costa. Ironicamente, Zezé, a musa inspiradora, jamais gravou a canção, mas os fãs que a prestigiarem no espetáculo “Coração Vagabundo: Zezé Canta Caetano”, dentro do projeto “Uma Voz, Um Instrumento”, que reestreia neste sábado (16), em BH, terão a oportunidade de vê-la cantando esta pérola negra.
“Todo o repertório do Caetano mexe com a minha emoção, mas ‘Tigresa’, inevitavelmente, é uma emoção dobrada, eu não encontro nem palavras pra explicar o que significa Caetano ter feito essa música pra mim. É uma emoção do tamanho do mundo…!”, constata Zezé. Não foi a primeira vez. Em 1979, quando lançou o primeiro disco-solo, após dividir um trabalho com Gerson Conrad (ex-integrante do grupo Secos & Molhados), ela ganhou de Caetano a belíssima “Pecado Original”, outra garantida no repertório, dos versos: “Todo beijo, todo medo/ Todo corpo em movimento/ Está cheio de inferno e céu…”.
Desbunde. Zezé conheceu Caetano nos loucos anos 70, onde a repressão da ditadura militar era enfrentada com o desbunde da juventude hippie que peregrinava pelas praias com corpos à mostra. Logo, ela se tornaria estrela em todo o Brasil ao protagonizar “Xica da Silva”, filme de Cacá Diegues, de 1976, sobre a escrava alforriada. “Conheci Caetano na praia de Ipanema, no posto 9, lá tinha uns morrinhos de areia, conhecidos como ‘Dunas da Gal’, porque ela também frequentava, assim como todo mundo. Era o point dos artistas”, recorda. De tanto surfar naquelas areias, Gal Costa acabou batizando o local…
Ao pensar no espetáculo que traz agora a BH, Zezé elegeu, inicialmente, 50 canções de Caetano. “Dali, tivemos que ir subtraindo, até chegar em torno de 20, com duas para o bis. O difícil era ir tirando as músicas, cada uma que saía doía no coração, ele ficava partido mesmo”, admite a intérprete. “Caetano tem uma música mais linda que a outra, a contribuição dele para a MPB é indiscutível, inenarrável, e, aos 80 anos, ele está mais bonito ainda. Salve meu amigo Caetano!”, proclama Zezé, com as suas gostosas risadas, em referência ao aniversário do compositor, a ser comemorado já no próximo dia 7 de agosto.
Racismo. Zezé conta que já sonhou em registrar esse trabalho em disco, mas, ultimamente, não tem pensado mais nisso. “Não ando muito animada porque a tendência do CD é ser extinto”, lamenta. Se uma porta se fecha, outra se abre. Aos 78 anos, a artista relatou em suas redes sociais que, pela primeira vez na vida, começou a ser chamada para campanhas publicitárias relativas a produtos de beleza. Mais jovem, quando era considerada símbolo da sensualidade do país, chegou a gravar um comercial que nunca foi ao ar. “Achavam que, pelo fato de eu ser negra, o produto não venderia”, escreveu na internet. Ícone na luta diária contra o racismo, ela detecta pequenas evoluções.
“Evoluímos, mas, todos os dias, ainda temos notícias de manifestações racistas, então não é um assunto resolvido, encerrado. O racismo estrutural está aí, presente, e ainda temos muita luta pela frente”. No ano passado, ela teve o seu nome retirado da lista de personalidades históricas da Fundação Palmares, ao lado de gentes como Gilberto Gil, Elza Soares, Martinho da Vila, Sandra de Sá, Madame Satã, Benedita da Silva, entre outros. A ação aconteceu durante o mandato de Sérgio Camargo, colocado na entidade pelo presidente Jair Bolsonaro quando ele assumiu o poder, ainda no ano de 2019.
Luta. “Vejo o atual momento político com muita tristeza, mesmo porque eu fui uma militante de oposição ferrenha e nós conquistamos algumas coisas e, a sensação que eu tenho é que, com esse atual governo, nós estamos dando milhares de passos para trás”, alerta Zezé, sem perder, totalmente, a esperança. “Com certeza a arte pode contribuir para mudar o quadro político, mas não num governo que não valoriza, não apoia e não investe em arte e cultura, que está mais interessado em investir em armas de fogo, fica difícil para nós, artistas, darmos a nossa contribuição para virar esse jogo…”, finaliza.
Serviço
O quê. Projeto “Uma Voz, Um Instrumento” recebe Zezé Motta com o espetáculo “Coração Vagabundo: Zezé Canta Caetano”
Quando. Neste sábado (16), às 21h
Onde. Centro Cultural Unimed – BH Minas (rua da Bahia, 2.244, Lourdes)
Quanto. R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia), nas bilheterias do teatro e no site www.eventim.com.br
Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.


