Titane completa 60 anos e afirma: ‘A música é capaz de reinventar a vida’

*por Raphael Vidigal

“Fura o céu num instante
E vem-me à janela” Elomar

“Tenho esse apelido desde muito cedo. Quando eu tinha mais ou menos 1 ano de idade, meu tio, padre Nereu, chegou de volta a Oliveira depois de muitos anos fora do país. Minha mãe conta que foi encontrar com ele na rodoviária e ele olhou para mim, falou: ‘Titane’. E ela falou: ‘Não, Nereu, Ana Íris’. E ele falou: ‘Não, é Titane’”. Com palavras exatas, povoadas de magia, a cantora Titane, que completa 60 anos, tenta explicar a forma pela qual é conhecida desde que se entende por gente, e que a levou a espalhar o pensamento e as emoções de grandes nomes da música popular brasileira. Titane não entendia a origem do batismo quando foi alfabetizada.

“Perguntava à minha professora como se escrevia meu nome e ela dizia que era um apelido e se escrevia de qualquer jeito. Decidi, então, sozinha, que a grafia era ‘Titane’”. Mais tarde, ela descobriu que a alcunha significava “pequena Ana” em francês: “Titanne”. “Meu tio, vivendo na Europa, tinha uma grande amiga francesa que se chamava Ana, então herdei esse apelido. Eu fui sempre chamada de Titane, inclusive pela minha família, cresci achando que eu me chamava assim, ser ter muita noção de onde vinha, só tomei consciência depois de adulta, quando já me sentia Titane”, conta. Numerólogos a propuseram alterar a grafia, mas ela preferiu “ser fiel e apostar nas intuições de uma menina de 7 anos”, diz.

Apesar disso, quando estreou em disco com o grupo Mambembe, em 1981, ela assinou como Ana Íris. “Mas nunca deu certo”, admite. Quatro anos depois, em seu primeiro disco solo, ela já era Titane na capa e nos créditos. Dali por diante, a mineira de São João del-Rey daria prosseguimento a uma carreira precisa e enxuta, se guiando pela sensibilidade e desviando dos caminhos óbvios da indústria fonográfica. Com o elogiado “Inseto Raro”, de 1996, cantou inéditas de ases da MPB como Chico César, Lenine, Luiz Tatit, Maurício Pereira e André Abujamra, ao lado das canções de domínio público que sempre instigaram o seu espírito arraigado ao povo. No ano de 2015, com Túlio Mourão, marcou posição contra a mineração criminosa em Mariana com o disco “Paixão e Fé”.

O trabalho mais recente, “Titane Canta Elomar: Na Estrada das Areias de Ouro”, não é menos impressionante. Além de se aproximar do repertório de um dos mais sofisticados e ariscos compositores do cancioneiro nacional, dono de melodias intrincadas e um vocabulário particular, a intérprete o faz com a retidão que marca o seu caráter: imprimindo a sua maneira de ver o mundo e assimilando o universo do outro sem, contanto, o desconfigurar, criando algo totalmente novo e único a partir de uma matéria-prima que ela respeita e estima.

Para celebrar esse caminho de terra batida, areia e pó do ouro, Titane compartilha com o público quatro apresentações online – as famosas lives – em que recebe colegas como Zeca Baleiro e Chico César, e canta suas influências, de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) a Chico Buarque. De hoje (21) a 11 de agosto, sempre às terças-feiras, 20h, em seu canal no Instagram e no YouTube. Como é de seu feitio, mesmo à distância, Titane nos faz sentir próximos.

1 – Você acaba de completar 60 anos. O que mudou e o que permanece da Titane que começou a carreira para agora, em 2020?
Houve grandes mudanças de paradigmas técnicos. Comecei gravando em sistema analógico, com bitola de 2 polegadas, mixagem a muitas mãos, corte de edição na gilete. Agora, faço 60 anos em plena pandemia, em meio à nanotecnologia, com gravações disponibilizadas ao público feitas em celular doméstico. Isso traz muitas implicações musicais, estéticas, principalmente para mim, que me fiz cantora a partir do palco. Minha formação é o palco, não é nem o estúdio de áudio, muito menos o de vídeo. Minha performance é toda fundamentada no palco, na projeção vocal e gestual, na presença do público diante de mim. Agora, me vejo repensando tudo, desafiada a explorar outros diálogos, em função da proximidade das câmeras, dos microfones e autofalantes limitados dos aparelhos móveis de comunicação.

2 – Como você lida com a passagem do tempo e a questão da idade?
Pareço ter muitas vidas. O tempo impacta o corpo e a psicologia da gente. A cada novo corpo, uma nova pessoa. Sinto cada uma delas, com suas perdas e conquistas. Me afligi profundamente no período da menopausa, uma verdadeira crise de identidade, que, agora, aos 60 anos, parece estar harmonizada.

3 – O seu trabalho mais recente é uma homenagem ao Elomar. Qual a importância dele na sua trajetória?
Dedicar um disco inteiro às canções de Elomar é se integrar a um espírito tão aventureiro quanto dolorido. Cresci e ainda cresço muito como intérprete ao longo deste trabalho. Devo isto à companhia dos músicos ao meu lado, Hudson Lacerda e Kristoff Silva, principalmente, que assumiram a direção comigo, e, também, a uma figura fundamental e pouco visível que é a de André Cabelo, misto de técnico e produtor de estúdio sempre presente. Quanto a Elomar, o que posso dizer é que ele é extremamente franco e polêmico em todas as conversas, crítico, mas também doce e terno em muitos momentos. É um gênio da música e da palavra. Uma grande personalidade da cultura brasileira. Como intérprete, poder estar ao lado dos compositores aos quais me dedico é um privilégio.

4 – De que maneira suas origens em São João del-Rei estão presentes na sua música?
Fui gerada, gestada e meu umbigo está enterrado em Oliveira. Fui em São João apenas para nascer, para o parto, porque minha mãe tinha perdido dois bebês antes de mim e Oliveira não tinha recursos médicos. Parte da família dela tem lastro em São João del-Rei e esta cidade sempre foi uma referência cultural para nossa região e para o Estado. Por isto, foi para São João del-Rei, e não Belo Horizonte. Gosto de pensar que nasci lá. Visito e tenho saudades da cidade.

5 – Qual a sua mais antiga lembrança musical e quando você decidiu que seria cantora?
Tenho muitas e muitas lembranças musicais da infância em Oliveira. Minha mãe tocando piano, meus tios e tias cantando noites inteiras sem parar na sala, cantavam juntos mais do que conversavam. A “Verônica” (rito da procissão) coberta de preto com sua voz clara e límpida cantando na procissão da Sexta-feira da Paixão, enquanto, literalmente, a cidade inteira presente se calava para ouvi-la. Os negros das Guardas de Congado, como os homens adultos vestidos de roxo com grandes argolas nas orelhas do Moçambique de São Benedito passando em frente à minha casa. Os tambores do Reinado soando sedutoramente noites seguidas no morro do Alto de São Sebastião. O Carnaval completamente alucinado, teatral e alegre da cidade com seus “Cain’águas” (blocos de foliões tradicionais) e blocos informais de rua.

6 – Como você tem lidado com a quarentena e o que pensa sobre os atos do nosso governo federal em meio a essa pandemia que já matou 80 mil brasileiros?
Recebi um presente nesta quarentena, que foi estar ao lado de minha mãe durante tantas semanas na casa em que me criei em Oliveira. Por causa dela e de todos nós, a cada dia me revolto mais com as opções desarticuladoras, desordenadas e criadoras de caos daqueles que assumiram o governo federal. Isto não é um governo. A não ser se considerarmos que exista um governo do ódio. É um expoente emblemático do que existe de cruel e paradoxalmente desumano naquilo que chamamos de natureza humana. Aposta prazerosamente na mentira, na violência como forma de eliminar quem é diferente dele. E, diante do coronavírus, aposta na morte de nossa população. Por causa dele, voltei a investir com convicção na dimensão social da política. Precisamos de uma unidade política que faça frente a estas forças fascistas, para ultrapassarmos esta etapa histórica. E acredito que isto passa, agora, pelo protagonismo dos trabalhadorxs (com ‘x’), pelos negros, mulheres, pelas “minorias” LGBT’s. Não perco também de vista, o que é uma questão de sobrevivência, que, ao invés de promover a extinção das nações indígenas, precisamos entender que elas detêm a chave do mistério que restabelece a harmonia entre os seres humanos, o planeta e o cosmos.

7 – Qual a importância do encontro com o dramaturgo João das Neves (1934-2018), com quem você foi casada, na sua trajetória e como tem sido lidar com a ausência dele nesses quase dois anos?
Na minha vida com João existia de tudo. Existia o diálogo e o amor entre duas pessoas, entre um homem e uma mulher, entre dois artistas. Não penso muito sobre isso. É uma saudade infinita. Estamos, neste momento, preparando um livro que trata de sua produção em Minas Gerais. São dossiês sobre os principais espetáculos e reflexões sobre aspectos de sua obra. Acredito que registros deste tipo são de fundamental importância para a arte e a cultura brasileira.

8 – Quais são os seus planos mais imediatos e o que você tem preparado musicalmente?
Estou mergulhada na quarentena e nas lives, com curiosidade. As lives tem nos permitido conversar, promovendo uma circulação de informação como nunca se experimentou. Na intenção de compartilhar reflexões e informações, de dialogar, cuido para não desvalorizar experiências ou apresentá-las de maneira redutora. No caso das lives musicais de comemoração dos meus 60 anos, serão encontros despojados, sem aparatos técnicos. Gosto de passar aniversário cantando. Sempre acreditei que a música é capaz de reinventar a vida.

Fotos: Luiza Palhares/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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