Show: Quarteirão do Soul

Espaço reservado para a dança e estilo norte-americanos atrai vários olhares

Dança em BH

Por mais que o ditado permaneça e as aparências continuem enganando, ninguém parece levar isso muito a sério na capital mineira, mais precisamente na Praça Sete ou atrás do Mercado Central, no que ficou conhecido pelo nome de batismo popular, o já famoso Quarteirão do Soul, um ambiente reservado para a dança e a música do estilo musical americano.

A fundamental diferença é que essa reserva na verdade é praticamente um acordo intrínseco entre os donos da rua, ou seja, todos aqueles que participam da vida daquele lugar, ou quase todos, predomina-se a presença de pessoas da cor negra, seja por tradição, seja por racismo apenas.

A música Soul é historicamente de ascendência negra, e isso parece ter grande influência sobre as pessoas que, aos sábados, freqüentam o lugar, o ambiente aberto de diversão e congregação, sem nenhuma responsabilidade com qualquer coreografia pré-determinada ou ensaiada, todos que se dispõe dançam simultaneamente, ás vezes respeitando o espaço do outro, algumas vezes se esbarrando, sempre sem nenhuma hostilidade, apenas se portando da forma como o lugar se habituou, anarquicamente.

Outros tantos somente observam atentos o espetáculo, de entrada franca e diversidade de artistas, pois os que se lançam ao centro do palco de asfalto desse quarteirão portam-se como verdadeiras estrelas, sabendo que estão sendo observados, e muitas vezes, mais do que isso, admirados: são os quinze minutos de Soul Music que o tal profeta anteviu.

Os observadores do show são peça fundamental, e se comportam com a elegância dos mais atentos e interessados espectadores, uns arriscam ensaiar alguns passinhos tímidos nas pontas dos pés seguindo o ritmo da música, outros não.

A atuação do DJ é de fazer emanar uma energia que explica em parte a animação e a alegria dos verdadeiros donos do espetáculo, os negros que passam, trabalham e passeiam por aquela rua e que agora ocupam o centro dela. São gestos exagerados e pulos eufóricos, tentando lembrar um pouco a coreografia ousada e inovadora que consagrou o ícone do movimento Soul, James Brown, famoso pelos escândalos, pela ginga e pela irreverência cadenciada, comprovando a tese de que o artista é sua arte.

Os olhares das pessoas que se punham no centro do espetáculo, e mesmo nas beiradas, ao redor das estrelas do dia, demonstravam despreocupação e desapego, eram os olhares de relaxamento após o stress de uma semana inteira de trabalho, que nesse caso parece significar um peso.


Eram olhares negros, da cor da pele, continham força e vontade, de estar ali e dançar, só dançar. No meio de tantos olhares, um destoava, uma mulher que trajava um macacão bem justo, preto, cabelo Black Power, flor amarela presa a eles, salto alto que a colocava nas alturas, alterada por algumas doses de álcool, e pele mais clara, que poderia significar alguma coisa, mas não, ela estava em casa ali no meio da rua e os olhares lançados contra ela eram os mesmos lançados entre os outros.

Por mais que o ambiente fosse marcadamente distinto e isso pudesse significar algum acordo tácito entre as raças, quem destoava da multidão dançante era quem não trajasse o modelo Soul Music, muito além da vestimenta, mas determinado pelo comportamento do ser, onde num primeiro momento todos os novatos que chegavam eram analisados, até que começasse o show e se percebesse quem fazia ou não parte daquele ambiente segundo os critérios dos donos da festa: ginga, irreverência, alegria, James Brown e dança.

A moça da flor amarela comprova isso. Pergunte a ela, ou melhor, observe-a. As aparências enganam, mas também ajudam a desenganar.

BH James Brown

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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