Show: Aline Calixto

Cantora apresenta mistura de músicas dos dois álbuns lançados

Show UFMG

No centro do furacão: uma flor. Morena, cacheados cabelos negros brada branda: sou negona, branca, samba. Aline Calixto pisa de sandália o picadeiro armado na Universidade Federal de Minas Gerais para contar a própria história. Contar? Não. Professora de mão cheia adverte, diverte: Canta. Tem uma voz que impressiona. Martinho da Vila põe na panela a gemada carioca.

Convicta cadência crava no mar de estrelas homenagens a Oxossi e Iemanjá. Lavradas na Bahia de Roque Ferreira e nos pergaminhos de Rodrigo Santiago e Douglas Couto, entusiasmam. Desinibida desenvoltura hipnotiza e arremata o público: “E lá fui eu, pro caldeirão, e lá fui eu…todo enfeitiçado pro seu coração!”. Pérola mineral do compositor Affonsinho.

‘Me deixa que eu quero sambar!”, alitera Aline em comemoração à liberdade de um pandeiro, um cavaquinho, um violão (seja ele 6 ou 7 cordas ou menos ou mais), e uma percussão de alvissareiro toque moleque. Abonados com as presenças de Ricardo Acácio, Robson Batata, Thiago Delegado, Rudney Carvalho e Petterson Antonio de Jesus os instrumentos sucedem dançar à vontade. Mauro Diniz dá o ataque inicial dos versos.

Há inclusive saliência para a pomposa língua francesa desfilar sob os gestos empertigados de Aline, com dengosa graça: “Bon jour, je suis la Maria”. Um show à parte. Dora Lopes, Jorge Rangel e Jean Pierre só não esperavam a gama vocabular da intérprete mineira, que acrescenta e intui: “Abajur? Soutien? Petit Gateau?”. Uma delícia.

‘Conversa Fiada’ é a suave incursão da cantora no mundo autoral, olhando de esguelha e deixando no ouvido do povo o gostinho de “quero mais”. Devota de falso amor, confessa a espúria com categoria. Os rebolados que se acolchoam à platéia criam uma borda que veste bem o clima do meio dia musical inteiriço e maciço. Maçante é a intervenção dos não convidados ao palco. O protesto é válido. Mas a ocasião faz a hora, e esta não era a apropriada.

‘Sigamos em frente’, rebate Aline com ‘Cara de jiló’, precedida por vinheta bem humorada dos sacrílegos percussionistas. A cantora tempera tão bem o prato que não há quem recuse. Outra de suas peripécias em parceria com Juliano Buteco.

Persianas abrem-se como as cortinas dum teatro para apresentar o morro veloz do imortal Zé Kéti, aplaudido com apito comandado por Robson Batata num desempenho memorável. De escorrer lágrimas do coração. Sou da ‘Opinião’ de que merece ser registrada em álbum pela cantora e sua inseparável trupe.

Insuflando no ar quente do território cânticos de esperança e glória, a Minas, aos orixás, às montanhas, Aline despede-se deixando correr o eco da propagada ‘Flor Morena’, em simbiose de Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Jr. Dom que aboletou o Brasil com os cílios da borboleta-sereia de Minas (outra dela, companheira de Clara Nunes), e erguendo o corpo, braços e rodas e rodos, com a ‘Reza Forte’, de Rodrigo Maranhão e Mauro Reza: “Trouxe ouro em pó”. Reluz como douro de trigo e pão. Bom café da manhã.

Cantora Minas Gerais

Raphael Vidigal

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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