*Raphael Vidigal Aroeira
Ricardo Frei estava numa sorveteria quando recebeu a notícia. Surpreso, desfez imediatamente as malas para Natal, onde atualmente ocupa a cadeira de professor de canto popular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Ele havia sido selecionado para interpretar a obra de Edu Lobo no Sarau Minas Tênis Clube, do qual já tentara participar outras vezes, e que julga “ser o mais importante do Estado para a revelação de intérpretes”. A “linda apresentação” que ele preparou acontece nesta segunda (17), a partir das 20h.
“Edu Lobo foi um dos artistas que consolidou a música brasileira popular moderna, e, ao lado de parceiros como Gianfrancesco Guarnieri, Chico Buarque e Torquato Neto, produziu canções que trazem uma perspectiva crítica, lúcida e esperançosa para tempos difíceis como os que enfrentamos hoje”, afiança Ricardo Frei. Em 1965, Edu venceu o primeiro Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Excelsior, com “Arrastão”, parceria com ninguém menos que Vinicius de Moraes, e levada ao palco pela voz preciosa e pelos braços inquietos de Elis Regina, que renderam a ela o apelido de ‘hélice’.
Estilo. Em 1967, outro marco. Depois de ter canções gravadas por Nara Leão (“Aleluia”, feita com Ruy Guerra), Elis Regina (“Estatuinha”, com Gianfrancesco Guarnieri), e Maysa (“As Mesmas Histórias”, um samba-canção pouco conhecido), Edu desbancou Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque no Festival da Música Popular Brasileira daquele ano, desta vez com “Ponteio”, baião feito com Capinam que ganhou a voz de Marília Medalha, em exibição histórica na TV Record. O grupo Quarteto Novo acompanhou a cantora no dia.
“O cartaz de Edu àquela época era imenso. Seu jeito recluso, dedicado a um tipo de produção menos popular, acabou por tirá-lo um pouco dos proscênios e holofotes”, avalia Ricardo Frei, que pretende reverter esse quadro. “Suas produções para teatro, suas parcerias, suas belíssimas composições, fazem parte daquilo que a gente aprendeu a entender como sendo a música popular brasileira”, diz. Dentre elas, destacam-se canções como “Beatriz”, valsa feita para o balé “O Grande Circo Místico”, com Chico Buarque, eternizada na voz celestial de Milton Nascimento; “A História de Lilly Braun”, lançada por Gal; “A Bela e a Fera”, gravada de Tim Maia a Ney Matogrosso; “Tango de Nancy”, etc.
Seleção. “Boa parte do repertório é composto pelas canções mais conhecidas de Edu Lobo. Contudo, fiz questão de trazer composições que, normalmente, são entendidas como da lavra de seus parceiros, além de garimpar canções menos conhecidas”, explica Ricardo Frei. Curiosamente, a primeira vez que o músico se deparou com a obra de Edu foi com uma composição alheia. “Eu cresci escutando rádio, meu repertório foi construído por meio dos discos de meu pai, pela influência do meu avô paterno, um dedicado maestro e pianista, e pelas canções que chegavam até mim por meio do rádio”, relembra. Foi desta maneira que, em 1980, se deparou com “Desenredo” pelas ondas do FM.
“A música me fisgou logo cedo. Quando Edu e Dori revezavam no refrão cantando ‘ê Minas… é hora de partir’, eu me reconhecia ali. Alguma coisa já prenunciava que eu seria alguém do mundo, do trânsito, mas com os pés, a cabeça, o coração e o desejo fincados em Minas”, descreve. Parceria de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, “Desenredo” foi lançada em 1976, por Nana Caymmi, no álbum “Renascer”. Agora, a intenção de Ricardo Frei é devolver o frescor inerente à obra de Edu Lobo, para que ela possa “soar aos ouvidos de um público que ou não o escuta faz tempo ou que nunca teve a oportunidade de ouvir um dos pais fundadores da MPB”. “A música de Edu é um sopro que alimenta os sonhos, além de ser de uma riqueza estética incrível”, vaticina Frei.
Homenagem. Parceiro dos poetas Capinam, Cacaso e Torquato Neto, gravado por Zizi Possi, Maria Bethânia, Mônica Salmaso, Célia e Jane Duboc, o carioca Edu Lobo esteve frequentemente associado à bossa nova, à MPB e até à música erudita. A sofisticação de sua escrita musical rendeu um elogio nada desprezível do também parceiro Vinicius de Moraes, que o denominou como o “terceiro vértice de um triângulo musical, cujos outros dois eram ocupados, nada mais nada menos, por Villa-Lobos e Tom Jobim”. “Recuperar o Edu Lobo é reoxigenar a própria ideia de música popular brasileira”, finaliza Ricardo Frei.
Serviço.
O quê. Ricardo Frei canta Edu Lobo no Sarau Minas Tênis Clube
Quando. Nesta segunda (17), às 20h
Onde. Centro Cultural Unimed-BH Minas (rua da Bahia, 2.244, Lourdes)
Quanto. R$5 (inteira) na bilheteria do teatro ou pelo www.eventim.com.br
Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.


