*Raphael Vidigal Aroeira
Rhaissa Bittar perdeu o voo da volta, deu uma volta pelo centro da cidade e assistiu a mágicas, rodeada por pessoas na rua. Depois, correu pelas águas da fonte no Museu de Artes e Ofícios. Devia estar com a cabeça nas nuvens. Agora, ela volta a Belo Horizonte, justamente com a turnê “De Cabeça nas Nuvens”, e se apresenta neste sábado (17), às 21h, na Casa Outono.
A turnê e seu atual formato surgiram durante a pandemia de Covid-19, que vitimou 685 mil brasileiros até hoje. Rhaissa tinha acabado de investir seu dinheiro num LoopStation, aparelho que transforma telefone celular em instrumento musical. “No isolamento, eu resolvi me desafiar e adaptar a turnê que eu estava fazendo do álbum ‘João’. A formação original tinha violões com várias afinações e efeitos, piano, bateria… e eu, que não sou instrumentista de verdade, me virei sozinha!”, comemora Rhaissa.
“Eu faço os arranjos ao vivo gravando os beats, o ukulele baixo e as aberturas de vozes, tocando ilu, shrutibox e violão. Aí o resto é cena! Amo construir os roteiros dos espetáculos e conhecer a plateia que está no show”, completa. Lançado em 2019, o disco “João” é a base do espetáculo, que une canções de artistas contemporâneos a consagrados, como Jorge Ben Jor e Siba. É o terceiro disco em estúdio da intérprete, que estreou, em 2010, com “Voilà”, a que se seguiu “Matéria Estelar”, do ano 2014.
Cena. A dramaturgia é um elemento importante na trajetória da artista, hábil ao usar a voz de emissão pequena, peculiar, a favor dos sentimentos e intensões da letra. “João”, personagem que dá nome ao disco, representa “uma figura opressora que no espetáculo é desmascarado”, conta. No caso, literalmente. “Pensando que respirar no mundo já é um ato político, eu me conecto com questões políticas durante todo o show”, observa.
Como exemplo desse posicionamento, ela pinça a música “Um Dia Útil”, de Maurício Pereira, lançada pelo autor no disco “Mergulhar na Surpresa”, de 1998, que Rhaissa ouve desde a mais tenra idade. “E sempre me emocionei muito. Pensei que, se mexe comigo, pode mexer com as pessoas que eu encontrar pelo caminho”, aposta. “A música fala sobre como uma trabalhadora da arte se sente atualmente”. Dizem os versos: “eu sonho sozinho com meu coração pequenininho/ minha compreensão também pequenininha/ do conjunto das coisas todas/ e vem fé e vem tristeza e vem alegria e tesão e neura e fantasia e Dionísio e ditadura”.
Em outro momento, Rhaissa recita o poema “Bem no Fundo”, de Paulo Leminski (1944-1989), e aborda a família de problemas e seus probleminhas que não se resolvem nunca. “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo”, de Siba, é outra canção que “expressa um pouco da angústia capitalista e do tempo que só corre”. O que a leva à pergunta da faixa “Você Tá Bem?”, de Arthur de Faria e Daniel Galera, onde se concentram as conexões entre poesia e música de vanguarda.
Política. Em algumas cidades, Rhaissa tem incluído a já clássica “Maria da Vila Matilde”, de Douglas Germano, para “reverenciar a Rainha Elza Soares (1930-2022) e também como uma maneira de lembrar que a violência doméstica contra as mulheres é um problema sério e presente”, denuncia a artista. Em 2022, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, já foram registradas 31.398 mil denúncias de violência contra a mulher, e o número de feminicídio aumentou 60%.
“Precisamos ter no poder o proletariado, as mulheres, os negros, as transexuais, só assim pra fazer as coisas mudarem!”, acredita Rhaissa, disposta a “inspirar algumas pessoas a não desistirem e provocar outras a irem atrás do que acreditam, mexer com essa lógica que já está incrustada na cabeça”. “Quero colaborar para a mudança de governo e todo esse pensamento que o fez chegar até o poder”, finaliza.
Serviço.
O quê. Show “De Cabeças nas Nuvens”, com Rhaissa Bittar
Quando. Neste sábado (17), às 21h
Onde. Casa Outono (rua Outono, 571, Carmo)
Quanto. Ingressos a R$40,00
Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.


