Patrícia Ahmaral canta Torquato Neto nos 50 anos da morte do poeta

*Raphael Vidigal Aroeira

Os cabelos desgrenhados e o nariz protuberante são a face visível de um sujeito magro, pouco dado ao sol, branco como uma vela, de casaco preto, mas o que escapa dessa imagem aparentemente gótica é o olhar safo, cheio de sarcasmo de Torquato Neto, na foto em que ele troca olhares com Scarlet Moon de Chevalier, para cena do filme “Nosferatu” ou “Terror da Vermelha”, não se sabe ao certo. Talvez até seja de “Adão e Eva do Paraíso ao Consumo”. Tudo já foi dito sobre Torquato Neto, poeta piauiense que suicidou em 1972, um dia depois de seu aniversário de 28 anos, há meio século. E tudo também foi dito por Torquato Neto, um poeta que arriscava explodir linguagens.

Patrícia Ahmaral é quem inicia a sua homenagem particular ao poeta, com o primeiro volume do disco “Um Poeta Desfolha a Bandeira”, verso de “Geleia Geral”, parceria com Gilberto Gil cujo título deu nome à marcante coluna de Torquato no jornal “Última Hora”, que durou até o fim de sua breve vida. A cantora está certa, nós é que estamos errados em não falar mais de Torquato, um agente político e revolucionário de seu tempo que, por certo, detestaria ser homenageado. Para Torquato valia o instante, assombrado pela morte. “Eu, brasileiro, confesso/ Minha culpa, meu pecado/ Meu sonho desesperado/ Meu bem guardado segredo/ Minha aflição”. Como discordar? É o fim deste mundo.

“Ai de Mim, Copacabana”, lançada por Caetano Veloso em 1968, com arranjos de Rogério Duprat, também serve: “Nesse país que me engana”. A verve tropicalista escapava dos coturnos da ditadura, cheia de malícia e sensualidade. “Let’s Play That” colocava mais loucura na mistura, com acenos a Carlos Drummond de Andrade, o poeta na discrição dos escritórios, mas, sobretudo, aberto à vida que pulsava itinerante, inexata. A contribuição de Jards Macalé é fundamental nesse caldo, com seus acordes libertários, que abrem fissuras no inconsciente popular. Desafinando o coro dos contentes, como preconizava Sousândrade, poeta maldito recuperado pelos concretistas…

E o que dizer da desilusão de “Três da Madrugada”? Uma das músicas mais bonitas gravadas por Gal Costa, que acaba de nos deixar. Patrícia intuitivamente ou premonitoriamente presta uma dupla homenagem. Quando entra em “Louvação”, que deu o pontapé na carreira fonográfica de Gil, ela é acompanhada por um coro, incluindo a Banda de Pau e Corda, que amplia o significado da peregrinação religiosa. O interior do Brasil se levanta com força. “Mamãe, Coragem” parece uma despedida, mas abre passagem para a participação de Maurício Pereira, com sua dicção dócil, plena de vanguarda. A quase-nova “Quero Viver” é parceria póstuma de Torquato com Chico César, que também participa: “Queremos cuidar da vida/ Já que a morte está parida”…

O desfecho é com o lindo poema “Cogito”, musicado por Rogério Skylab, em que Torquato abre os braços para sua morte: “Eu sou como eu sou vidente/ E vivo tranquilamente/ Todas as horas do fim”. Carregada de melancolia, a música se antagoniza com a alegria exuberante e, por vezes, exaustiva, das melodias de “Marginália II”, “Ai de Mim, Copacabana”, “Geleia Geral”, e etc., embora as letras, invariavelmente, ditem o contrário. Nesse movimento constante, inconformado, volúvel e fluido, Torquato cravou suas unhas de vampiro tropicalista na produção cultural brasileira como um anjo desesperado.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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