No ambiente das flores

“A segunda eu espero mais que a sexta
Sábado, te quero mais que terça
Na quarta, me lembro da quinta
E me despeço do domingo que não chega
Em maio, você não vem
Em junho, você viaja
Diz que volta em julho
E eu aqui a gosto” Agatha Almeida

Obra do pintor francês Georges Seurat

Ouvi o uivo do lobo, o piar da coruja, a badalada do sino, ouço neste momento as preces para meu espírito: vá em paz, vem convicto, não tenhas medo. Encare essa revolta de gente, esse mar inflamado não te pode nada, a não ser afogá-lo na indolência. Veja uma flor ser atropelada. E não sente nada por ela. A leveza amortece a queda, rouba isto duma menina sã. Flor cai aos poucos, durante longa espera permanece subliminar o fim. Sabe que a enlaçará, monstruosamente arranha portas e amassa latas na locomotiva monção dos milênios. Trava no céu a flor: anseia o término do desespero: não encontra pés nem asas: no ventre sem raiz e sem cabo.

O botão da flor não mais desfila libido para as abelhas: a doce morte. Flor, coitada, continua descendo, como se o buraco, fosso, sepultamento… Nunca chegasse. A queda da flor encoraja: covarde! Mas flor não tem escolha, portanto para ela é mais fácil. Flor que cai: desperta: tem os olhos abertos: flor da porta aberta, um tapete limpo, convida a entrar. Flor serve o chá: sento-me no nada: arames farpados fecham tua morada: flor, à hora magra. Magra flor me cheira, flor magra coceira, enche tornozelos: fria e indiferente diz assim: bem feito! Para mim bem feito, para ti mal feito. O caráter mole gruda-me nos fórmicos, óleo de capim. Moleira desprotegida exibe a flor longínqua.

Flor me está de longe, flor me está tão perto. Flor se fosse à noite te ditava o verso do poeta Joaquim. Calmo Joaquim. Flor diz: e daí? Flor não quer saber. Flor: – Pra quê saber? A flor não pergunta, nem sequer responde. Não desonra a morte. Fuga necessária. Flor se submete. Flor: coleira frouxa: o pescoço escapa: flui na mente o óbvio: flor acostumada: carrega coleira: e confunde: com colar de pérolas: e se atormenta: e se restaura. Flor não se abate. Senta-se nos ventos, nas larvas, nas nuvens: teimosas. O achincalhe é frágil: um poleiro nasce. Se desequilibra a flor deselegante. Flor das arruaças: bebe flor: sois rara: não responde a chefes, ataduras, alças. Flor vida cigana: da cigana Ágata: delinquente raio. Cai!

Pintor Seurat foi um dos vértices do pontilhismo

Raphael Vidigal

Pinturas: Obras de Georges Seurat.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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