Entrevista: Ziraldo

“Pintor, se queres assegurar
um lugar predominante
na Sociedade, é preciso que,
desde tua primeira juventude,
dês um terrível pontapé
na perna direita dela.” Salvador Dalí

Menino Maluquinho

Do porte de seus 80 anos, o cartunista, chargista, escritor, jornalista Ziraldo, para ficar no básico, é um moleque atrevido, maluquinho, menino. Obediente à sua própria escrita, afirma: “Tudo na vida tem limite, isso de ‘perder o amigo mas não a piada é, em si, uma piada. Ninguém é sozinho na vida. É preciso ter coragem para dizer as verdades e aguentar as consequências.”

E dá um pitaco a respeito do humor vigiado, politicamente correto, que nos espreita à vontade: “Na época do Pasquim criamos várias charges sobre a tragédia que se transformou no filme, aliás, belíssimo, ‘Os Sobreviventes dos Andes’, e o Quino, muito meu amigo, inventor da Mafalda, disse que era um absurdo fazer graça com aquilo, ao que eu retruquei que cada um tem o seu próprio absurdo, o humor tem um limite peculiar”, reflete.

ARTE
Nesses 80 anos de vida, dos quais mais da sétima parte foram dedicados às sete artes (7 cores as de Flicts, a cor sem o valor devido, primeiro livro infantil do mestre de sucesso infindo), ele pôde tirar conclusões propícias a respeito do tema: “Arte é a atividade da qual o homem prescinde para sobreviver, no entanto para se viver dotado de alma e espírito a arte é imprescindível”, e insatisfeito consigo, recorre ao auxílio do saber dicionaresco: “capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria”, conclui.

Para Ziraldo, “Picasso é o maior inventor da arte de pintar, pois ele dominava todas as possibilidades do pincel”, o que, de acordo com o mesmo, não é mais determinante na arte contemporânea: “Todos que expõe no Inhotim são gênios, muito criativos, mas não precisam saber pintar, não é necessário, pois eles se valem duma chamada arte conceitual, explicativa, que dispensa a definição do Aurélio. Mas tudo isso é discutível” alicerça.

CINEMA
Transportando-separa o mundo cinematográfico, o inquieto Ziraldo dá o seu palpite sobre a convivência plena entre arte e entretenimento: “Se é possível? Claro! Basta ver um filme de Charlie Chaplin, assistir uma boa peça de teatro”, confirma. A comprovar a regra também o colega “Jaguar, grande cartunista.”

Em relação aos nomes que o influenciaram Ziraldo é direto e afiado: “Sem dúvidas o cartunista romeno Saul Steinberg e o franco-húngaro André François, não só a mim, mas toda uma geração”, assume e começa a se lembrar das perdas sentidas neste ano, não só de festa, mas também de partidas: “O Millôr foi o sujeito mais inteligente que conheci, pena que não soube usá-la pras questões afetivas, mas como pensador, pode escrever, foi o homem mais importante da minha vida!” e esbalda-se em calorosas risadas que se estendem até Ivan Lessa, outra ausência sofrida.

CHICO ANYSIO
Grande pilar do humor, homenageado pelo desenhista em livro que compila ilustrações de todos os personagens, o criador do Professor Raimundo (entre tantos milhares) é referendado com as honrarias devidas: “Só existiram dois fenômenos no Brasil, o Chico Anysio, maior ator do mundo, e Pelé! Os dois são irrepetíveis. Esse Messi até tenta chegar perto, mas não tem carisma. E esse menino Neymar, cuidando-se, pode ser o segundo melhor da história, porque o primeiro, não tem jeito, já tá definido”, afirma Ziraldo ao cair com malemolência no campo esportivo.

Defensor da importância da literatura, Ziraldo mostra-se infeliz com os rumos que o planeta toma em certos sentidos: “A televisão não perpetua ninguém, tanto é que já estão esquecendo o Chico, algo inacreditável pela carreira daquele homem. O mundo só evoluiu por causa do livro, ele mantém as ideias acesas, ao alcance de todos. Depois dele, houve uma mudança na humanidade da água para o vinho. Gutenberg introduziu a Revolução da Imprensa e em 500 anos chegamos na lua, um salto incrível”, empolga-se.

“NÃO QUERIA COMEMORAR”, DIZ
Sobre as comemorações da efeméride, as oito décadas de Ziraldo, finaliza: “O negócio é o seguinte, eu falei que não queria festa para não incomodar as pessoas, mas como elas já estão se incomodando, estou achando ótimo!” sorri com inegável flexibilidade nos dentes, duros demais para o tempo, como um aforismo de Nietzsche.

Ziraldo Humor

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 22/10/2012.

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9 Comentários

  • “É preciso ter coragem para dizer as verdades e aguentar as consequências”. Li e adorei 😉

    Resposta
  • eai Raphael… boa sorte na tua nova empreitada… espero q vc tenha muito sucesso.. tenho certeza que essa é realmente a tua area! e se um dia pintar o livro dos Stakeholders, quero uma copia autografada…quem sabe um dia vc ficarà famoso e essa copia valera uma fortuna!! hehehe abraços

    Resposta
  • Olá Raphael,

    Sou estagiário na PUC TV. Li sua matéria, na edição de hoje do HD, sobre os 80 anos do Ziraldo. Também estou produzindo uma matéria sobre o autor de Menino Maluquinho e gostaria que você, se possível, me passasse o contato dele para agendamento de uma entrevista. Desde já agradeço.

    Resposta
  • A Turma do Pererê do Ziraldo
    Para Raphael Vidigal, com
    abraço do
    Tatu Pedro Vieira

    Resposta
  • O primeiro livro que vc leu: “O Menino Maluquinho”, logo que aprendeu a ler. A leitura e a escrita passaram a ser parte essencial na sua vida, não é mesmo, Raphael? Parabéns mais uma vez! Vc está no caminho certo! Mil beijos…

    Resposta
  • Obrigado a todos que comentaram! Ziraldo tem o nome marcado na história do humor, das artes e da literatura. Abraços

    Resposta
  • Ziraldo, dê uma olhada no meu Facebook e veja o desenho que eu fiz de você. Você é uma pessoa muito inteligente, ókei, tchau.

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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