Entrevista: Roberto Menescal elege 6 discos preferidos

“Toda a arte é feita de silêncio – inclusive a própria música.” Mario Quintana

Roberto Menescal completa 80 anos

Talvez ele nem fosse músico. É o que afirma Roberto Menescal que, nesta quarta (25) completa 80 anos de vida, dos quais 60 foram dedicados à música. A estreia foi acompanhando ao violão a cantora Sylvinha Telles (1934 – 1966), em 1957. “O sonho do meu pai era que eu trabalhasse no Banco do Brasil ou na marinha, porque eram profissões mais seguras”, informa o compositor capixaba, autor de clássicos sobre a paisagem carioca como, por exemplo, “O Barquinho” e “Rio”, parcerias com Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994).

“Um dia o Tom Jobim bateu na minha porta e me deu a desculpa que eu precisava para seguir na música”, recorda. Menescal dava aulas de violão “para mocinhas da zona sul que não sabiam tocar”, quando recebeu o convite do Maestro Soberano para gravar “Orfeu da Conceição”, peça escrita por Vinicius de Moraes que se transformou em disco e virou até filme. “Ele queria me dar cachê e eu não quis receber. Me mandou largar tudo e seguir na música. Jobim é o meu grande mestre”, exalta Menescal. Cantor bissexto, violonista dos mais requistados, arranjador e produtor musical de um sem número de trabalhos ligados à bossa nova, o aniversariante aproveita a oportunidade para presentear os fãs com a lista dos discos que mais o influenciaram.

“Julie Is Her Name” (1955) – Julie London
“Na época todas as cantoras eram acompanhadas por uma banda: baixo, piano, bateria, guitarra. E você não conseguia distinguir os sons com precisão. Quando a Julie London grava esse disco com apenas voz, guitarra e baixo, o paradmiga muda, porque é possível ouvir todas as notas. Mostrei esse disco para todos os meus amigos da época, músicos fantásticos como Oscar Castro Neves, Carlinhos Lyra, Baden Powell, e combinamos de cada um escolher uma faixa para dali um mês a gente se encontrar e mostrar um para o outro. Aprendemos milhões de acordes com isso, considero o disco mais importante no nosso crescimento musical”

“Canção do Amor Demais” (1958) – Elizeth Cardoso
“A gente não curtia muito a Elizeth, a escola dela era daquele canto meio circense, de ter que mostrar a voz. Mas as músicas, compostas pelo Tom Jobim e o Vinicius de Moraes, eram tudo o que a gente queria. E esse disco ainda marca o surgimento do João Gilberto, chamado pelo Tom para tocar violão em algumas canções. Aí tem uma história interessante, quando na gravação o João fala para a Elizeth que ela está cantando errado a música ‘Chega de Saudade’. Tom e o Aloysio de Oliveira (produtor do álbum) ficam apavorados. O João mostra a música para a Elizeth e ela fica sem entender a questão. Aquele clima pesado. Ao ver aquilo o diretor da gravadora decide que quer gravar o João e lançar o primeiro disco dele”

“Chega de Saudade” (1959) – João Gilberto
“Esse disco foi o nosso grito de guerra, de toda a nossa turma e geração. A gente ia de loja em loja perguntando se tinha o disco, sabendo que não tinham lançado ainda, só para as pessoas tomarem conhecimento, era a nossa forma de divulgação. O João dizia que quando o Nelson Gonçalves cantava ele dava todas as notas, enquanto o João, no mesmo trecho, cantava apenas duas. Ele trouxe essa interpretação mais exata, sem muitas visagens”

“A Bossa dos Cariocas” (1962) – Os Cariocas
“Eles trouxeram a modernidade da vocalização em grupo para o Brasil. Nos Estados Unidos havia milhões de conjuntos assim e, mesmo aqui, os Anjos do Inferno e Bando da Lua já faziam sucesso. Esse disco é importante para mim porque traz essa formação da vocalização em grupo aliada à bossa nova, com um repertório nosso, que se identificava com a gente”

“Elis Regina” (1963) – Elis Regina
“A Elis abre a possibilidade para uma nova forma de cantar, de se colocar não perante os grupos, mas à frente deles, ela dominava a cena, o canto. A gente costumava dizer que tinha a bossa cool, da Nara (Leão), Astrud Gilberto, e a bossa para fora, da Elis. Além de ser um cantora perfeita tecnicamente, Elis tinha uma expressividade fora do comum”

“Construção” (1971) – Chico Buarque
“Chico trouxe grandes obras com esse álbum antológico e foi mais do que importante ao quebrar a lenda de que música com mais de três minutos não tocava no rádio. ‘Construção’ tinha sete minutos e fez um sucesso tremendo, tocava o tempo inteiro”

Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli

Raphael Vidigal

Fotos do site oficial do artista. Na segunda imagem, Menescal com Ronaldo Bôscoli.

Publicada no jornal O Tempo em 25/10/2017.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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