Entrevista: Déa Trancoso, o bem-te-vi de Almenara

“pôr de sol pingo de saudade
a flor cheiro de mel na água cor de leite
acorda o peixe
sonho de fósforo” Paulo Leminski

Dea-Trancoso

Déa Trancoso era uma ilustre desconhecida do grande público quando recebeu indicação ao Prêmio de Música Brasileira em 2007, nas categorias disco regional, cantora regional, projeto visual e cantora por voto popular, em razão do disco “TUM TUM TUM”. Não levou nenhuma. Mas o fato já lhe valeu “um louro enorme”, diz ela sobre concorrer “com grandes nomes da MPB”. Além disto, o álbum, inicialmente lançado por seu próprio selo, foi relançado em 2010 pela “Biscoito Fino”. Agora, depois de 30 anos morando em Belo Horizonte, Déa está de volta ao Vale do Jequitinhonha, de onde saiu e que lhe inspirou o incensado trabalho. “Hoje resido em São Gonçalo do Rio das Pedras, alto do Vale, minha região natal”, confirma.

Nascida em Almenara, perto da divisa de Minas Gerais com a Bahia, Déa é hábil experimentadora de sotaques, influências, origens. Seu trabalho confunde-se com a pesquisa, onde ritmos embrionários, como o semba, e rituais indígenas, como o catimbó, constituem espinha dorsal. A respeito dos planos para o novo ano, a entrevistada segue a natureza. “Em 2014 completo 50 anos. Não tenho planos. Desse modo quem comanda, hoje, é o vento. Meu único desejo é lançar meu primeiro livro de poemas. No entanto, isso está vinculado ao destino. Se ele quiser, chegará a hora de lançar. Senão, aguardo. Tudo sem pressa. Tudo calminho”, diz. Com uma discografia iniciada em 2006 e que contém três títulos, a artista colocou no mercado em 2012 box completo.

ESTIRPE
Déa Trancoso, hoje, é uma artista admirada por nomes como Egberto Gismonti, que escreveu a contracapa de seu inaugural CD, Ná Ozzetti e Mônica Salmaso, que gravaram em dueto canção do segundo título da carreira fonográfica, “Minha Voz”, presente no autoral “Serendipity”, e tantos outros. Mas essa história teve importante capítulo no lar da ainda garota, em Almenara. “A música sempre foi uma companheira cotidiana. Apesar de eu não ser de uma família de músicos profissionais, sou, como tanta gente no Brasil, de uma família extremamente musical. Nossas serenatas eram famosas na cidade. O apelido da minha mãe era ‘bem-te-vi da Minas Caixa’ (onde trabalhava)”, recorda. O pai, “boêmio de alta estirpe”, também foi importante.

Este começo ligado “à música doméstica, nos encontros com amigos e familiares”, teve o auxílio luxuoso dos grandes e eternos mestres do ofício. Em “especial os compositores da ‘Velha Guarda do Samba’ e do Samba-Canção”, sublinha. “Tudo na voz de Nelson Gonçalves, que foi o cantor que mais ouvi. Quase o estudei, ouvia prestando atenção em tudo, no timbre, na colocação, na emissão, na afinação, tudo”, destaca. Desta maneira, o cantor do rádio é considerado “o primeiro professor”. Nada que a convencesse a seguir a mesma profissão. “Minha saída de Almenara teve mais a ver com a vontade de me embrenhar na palavra. Não me lembro de ter decidido ser cantora. Apenas fui cantando. Quando vi, já estava entrando na casa misteriosa de dona música”.

FLOR
Além do primeiro disco pautado no recolhimento de obras de domínio público, muitos com o contorno do folclore nacional, e do segundo, com a participação de nomes como Chico César, Badi Assad e Rogério Delayon, primeira aventura autoral da compositora, Déa traz no currículo, com orgulho, o terceiro filho desta prole compacta e justa. “Flor do Jequi”, de 2012, foi feito em parceria com Paulo Bellinati, através de projeto aprovado na Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais. “Conheci o Bellinati através do violonista Weber Lopes, de lá para cá fui sempre pensando num jeito de fazer algo com ele”, revela. A oportunidade surgiu quando o fotógrafo Marcelo Oliveira a convidou para encantar um CD no livro “Estórias de Luz II”, com patrocínio da Natura.

Déa topou na hora e convidou o ilustre companheiro. “‘Flor do Jequi’ é um lindo encontro entre a academia e o popular. Um trabalho de grande responsabilidade para quem gosta do Brasil como nós”, define. A opção por lançar este e todos os outros discos pelo próprio selo tem inúmeros motivos. “Fui compreendendo que era preciso estar preparado para atuar na plataforma material da música”, afirma. A frase de um pensador, que Déa julga ser de Mário de Andrade, ajudou neste desafio. “‘Ser músico não é apenas tocar um instrumento, é tocar a vida’”, cita. “Para tocar a vida é bom que você saiba do processo todo. Assim você tem a inspiração, lapida, organiza a apresentação, grava, dirige, mixa, masteriza, divulga, oferece o concerto, enfim”, enumera.

PAIXÃO
Um dos poetas preferidos de Déa Trancoso, o curitibano Paulo Leminski aconselha “pisar este planeta/como quem esmaga uma flor”. Déa não enfrenta a natureza do mesmo jeito, mas dá passos firmes através da arte e em busca de melhores condições para a cultura. Ainda sobre a criação do selo, diz: “Para isso se dar de uma maneira adequada você precisa ser dono de si mesmo. A ‘Tum Tum Tum Produções’ é isso. É uma Déa Trancoso jurídica, capaz de ir conversando para fora do quintal cada vez mais”. Já no campo da literatura alia ao maior cultivador do haicai brasileiro outros guias. “Rabindranath Tagore, Goethe e Guimarães Rosa”, avisa. E estende os braços para o cinema de Kim Ki-duk e a fotografia de Sebastião Salgado, Marcelo Oliveira e Cartier Bresson.

Formada em jornalismo pela PUC Minas, Déa ressalta as qualidades que aprendeu com o método. “O jornalismo toma conta da palavra quando ela precisa ser organizada em um projeto, por exemplo, e mantém viva a curiosidade que é fundamental na pesquisa”, avalia. Mas é na, com e pela música que as palavras de Déa nascem com maior paixão e inventividade. “Na música, as minhas maiores referências são, no canto feminino, Clementina de Jesus, Clara Nunes, Aracy de Almeida, Ná Ozzetti, no masculino, Nelson Gonçalves, todos os compositores da ‘Velha-Guarda do Samba’, todos os ritmos afro-indígenas, Bobby McFerrin”, se embevece. E relembra outro momento marcante da carreira. “Foi lindo abrir o show de Naná Vasconcelos”.

DESTINO
O feito, “numa praça lotada de Belo Horizonte”, ocorreu durante a Festa da Música, “um projeto maravilhoso”, ressalta Déa. Além da conexão com a música do premiado percussionista brasileiro, mestre absoluto do berimbau, a artista trava ligação com a canção erudita. “Van Beethoven é um músico que se confunde com a história da civilização humana. Tem até algumas escolas espirituais que afirmam que ele encarnou apenas para ‘deixar passar’ a ‘Nona Sinfonia’. A ‘Nona Sinfonia’, segundo essas escolas, seria o resumo da peripécia humana sobre a face da terra”, resume. O amor por Beethoven é explicado através de uma frase do gênio. “Ele produziu muito e quando ficou sabendo de sua surdez disse: ‘eu vou viver e vou pegar nas faces do destino!’”.

Com apresentações na Europa, em países como Inglaterra, França, Espanha, Holanda e Bélgica, e tendo participado de coletânea lançada no Japão e nos Estados Unidos, a cantora não troca lugar nenhum do mundo por sua terrinha. “Foram experiências muito boas pra desiludir. Eu gosto de me desiludir. Quanto mais me desiludo, mais me aproximo do essencial”, filosofa. “A Europa é bonita, interessante, mas o Brasil é o melhor de tudo pra mim. Sou brasileira até o talo. Os concertos mais bonitos que fiz foram no Brasil, especialmente no sertão brasileiro, nos lugarejos”, rememora. Sobre a maneira com que conduz a vida, não hesita: “O melhor caminho é desiludir-se. Construir uma trajetória do tamanho das próprias pernas. Esse tamanho pode mudar, quando outras pernas parceiras se juntarem, mas é necessário que as suas estejam sempre lá dando conta do trajeto”, Déa voa, bem-te-vi de Almenara.

DISCOGRAFIA
2006 – TUM TUM TUM
2011 – Serendipity
2012 – Flor do Jequi (com Paulo Bellinati)

Dea-Trancoso-entrevista

Raphael Vidigal

Fotos: divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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