Comédia De Três Ratos

“Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. ‘Isso também é liberdade humana’, eu pensava, ‘movimento soberano’. Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.” Franz Kafka

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O Senso comum do escritor
Na noite do acontecido uma coisa azul embargou a imagem. Era coisa posta, nunca existente até aquela noite. Ao menos o que vizinhos relataram. Na noite do acontecido uma coisa verde embargou a paisagem. Era coisa velha, muito assimilada em livros de história. Ao menos o que vizinhos relataram. Eu, dono da casa, não tive a coragem de ir revelá-la. O enfrentamento, para a pouca idade, é coisa que excita, mas para um velho, apenas atormenta, asfixia e mata. Na noite do acontecido uma coisa verde espalhou as margens. E então pude ver dentro do vermelho o azul da noite. Mas eu uma criança velha o dono da casa nunca tive coragem de revelar a imagem, a paisagem, ou mesmo o livro de história, ou mesmo o que os vizinhos falaram. Na noite do acontecido. Na noite do acontecido. Uma coisa. Azul. Embargou. Espalhou. Uma. Verde. Margem. Minha vida é um livro aberto, mas algumas páginas estão queimadas.

O Quadro de reclamações do jornalista
Um terno escuro, um óculos de aro verde ou roxo, uma gravata listrada, o batom da moda, um sutiã sem alça, uma calcinha de lycra, um abajur de carne. O tambor na parede, a pirueta nos ares, uma escova de dente e o fio dental na bolsa. Uma séria careta ou uma justa saia. O pinel na sarjeta e o vagabundo na primeira página. A louca intercedeu junto à prostituta, no corredor do bordel, da avenida, da casa de vários, em busca duma explicação do quê significa a vida. A prostituta, mais interessada em se recuperar para o próximo round do trabalho, respondeu: a vida, a vida é um sanduíche na praia, uma fração divina, enquanto eu arrumo a saia, a justa saia, o batom da moda, o sutiã sem alça, a calcinha de lycra, o abajur de carne, o óculos. Porém, tudo isso é dispensável. Jornalista é uma pessoa que tem um comentário interessante sobre qualquer assunto, poucas vezes com conhecimento, pouquíssimas vezes, profundo. Ademais, persistência é quando dá certo. Teimosia é quando dá errado.

A Obra incompleta do artista plástico
Venha, venha até mim, venha. Venha até mim, venha. Venha até mim, venha. Empilhou latas de isopor, cinco, um número da sorte, e as colou no arame. Escolheu a mais versátil cor, branca, e espalhou com gosto. O lábio professor, vermelho, ganhou neste momento a palidez dos Andes. Percebeu o toque angelical, a lhe roçar as costas, e as asas, mesmo lisas, a irritar os olhos. Quando ia espirrar tampou o nariz com o braço. Os dois pés, enterrados no arame, ganharam então os ares. Veio o medo e enrijeceu a barriga, que sempre andara flácida. O pulmão encheu-se de espuma, e comprimiu-lhe a face. Não sabia o quanto era difícil ser um artista plástico. Enfim desceu, recobrou a consciência e quando ia pregar em frente à obra um quadro explicativo veio o anjo e o encarou com raiva, perseverança e pasmo. Afinal o homem não aprendeu, mesmo depois do vôo. As melhores pessoas são as que conhecemos pouco.

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Raphael Vidigal

Pinturas: “Isto não é um cachimbo”; e “O Filho do Homem”, de René Magritte, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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