Clube da Esquina com heavy metal: o encontro de Toninho Horta e André Cabelo

*por Daniel Barbosa

“E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?” Maiakovski

Quase duas décadas distantes um do outro, dois fenômenos musicais ocorridos ao longo da segunda metade do século passado fizeram Minas Gerais reverberar mundialmente. Para além da questão temporal, é sabido que o Clube da Esquina, cujo embrião data do final dos anos 60 e início dos 70, e o heavy metal feito em Minas, que teve seu apogeu na segunda metade dos anos 80, nunca se sentaram à mesma mesa, por óbvias razões estéticas e conceituais. Quando, em 1987, o Sepultura lançou o álbum “Schizophrenia” – que o colocou definitivamente como o expoente máximo daquela geração do metal mineiro e lhe abriu as portas para o mundo –, eu estava com 15 anos e meus interesses musicais giravam todos em torno do rock pesado.

Àquela altura, o Clube da Esquina já era uma marca registrada do Estado e desfrutava de prestígio internacional, mas era algo de que eu mal ouvira falar. O meu universo era o do heavy metal, do punk e do hardcore – ambientes herméticos, com seus fãs fechados em seus respectivos mundinhos, ao ponto de até entre eles haver rusgas. Metaleiros não se davam com punks e vice-versa. Eram comuns as brigas generalizadas – e tacitamente combinadas, eu diria – entre uns e outros em frente ao bar Pop & Kid, na esquina das avenidas Cristóvão Colombo e da Contorno com rua Fernandes Tourinho, na Savassi. Quem gostava de heavy metal só podia gostar de heavy metal, sob pena de, caso contrário, ser tachado de “traidor do movimento”.

Descobertas. Era uma cena em plena ebulição e, por isso, apesar do hermetismo, dispunha de um bom cardápio sonoro para ofertar. Na esteira do sucesso do Sepultura e orbitando a Cogumelo – selo e loja que estava no cerne daquela movimentação –, surgiram bandas como Overdose, Multilator, Chakal, Sarcófago, Holocausto, Witchhammer e tantas outras. A tribo de metaleiros costumava se reunir na porta da loja Cogumelo, na avenida Augusto de Lima, próxima ao cruzamento com rua Rio de Janeiro, para escutar as novidades que sempre estavam girando no toca-discos e conversar a respeito de bandas internacionais que despontavam e cujos trabalhos chegavam ao Brasil naquele momento, como Slayer, Sodom, Possessed, Kreator, Destruction.

Eu, sempre que as economias permitiam, voltava para casa com algum desses vinis. A década virou e, com essa virada, meu gosto musical começava a se expandir. Foi durante a faculdade, que comecei a cursar em 1991, que descobri e me interessei pela MPB. O álbum “Transa”, de Caetano Veloso, foi particularmente importante para essa abertura. Muitos dos meus contemporâneos continuavam fiéis ao heavy metal, mas ser um “traidor do movimento” já não era um problema para mim, então fui, cada vez mais, ampliando o leque estético e ouvindo outras coisas – sem deixar de me interessar pelo rock pesado.

Lendas. Aliás, tanto continuava interessado que seguia investindo numa banda de hardcore que criamos, eu e mais dois amigos, ainda adolescentes. Nos preocupávamos em ter instrumentos melhores, equipamentos melhores, e ensaiávamos com afinco toda semana, num esboço de estúdio montado por André Tavares – que naquela época já tinha o apelido de André Cabelo – no porão de sua casa, no bairro Jardim América. Uma bateria e uns amplificadores dividiam o pequeno espaço com todo tipo de tralha. Mas era ali, naquele porão, que muitas bandas de metal e congêneres – boa parte delas dali mesmo, do Jardim América e dos bairros vizinhos, como Nova Suíça e Salgado Filho – ensaiavam, buscando ainda surfar na onda provocada pela Cogumelo e seus lançamentos.

Foi dali que saímos em grupo, eu, os colegas de banda, André Cabelo e os integrantes do grupo que ele mantinha à época, o Vultur, e mais algumas pessoas, para ir assistir ao lendário show que reuniu Ramones e Sepultura no Parque da Gameleira, em 1994. Ao mesmo tempo que me mantinha um ávido consumidor de shows (e discos) de rock pesado, também já costumava frequentar, naqueles anos 90, lugares como o bar Aqui Ó, que Toninho Horta, figura central do Clube da Esquina, e sua família – Perla, Paula, Gracinha e Paulo – mantinham no bairro Horto. O espaço, que na verdade integrava o quintal da casa dos Horta, recebia diversos shows de MPB, jazz e música instrumental, quase sempre conduzidos pelo próprio Toninho em companhia de nomes como Esdras “Neném” Ferreira e Paulinho Carvalho.

Conexões. Era um ponto de encontro também de jovens instrumentistas que despontavam na cena e cujo desenvolvimento passei a acompanhar com proximidade e interesse a partir daquele momento. Nas conversas com essa turma, os frequentadores do Aqui Ó e os diletantes de MPB e música instrumental mineira, o heavy metal era um acontecimento passageiro e descartável que não merecia maiores atenções. Da mesma forma, nas conversas que eu mantinha nas rodas roqueiras, o Clube da Esquina era solenemente desprezado, quando não atacado.

Diferentemente da cena da música instrumental mineira, do Clube da Esquina e de suas descendências – que cravaram lugar na história da música popular brasileira e souberam se manter em evidência –, o movimento em torno do metal em Minas Gerais foi perdendo fôlego ao longo dos anos 90 e 2000. O gênero, que sempre teve vocação para o gueto, estava, afinal, devidamente alocado em um; tornou-se datado, virou “a cena do metal em Minas nos anos 80”. Isso não quer dizer, contudo, que o metal mineiro virou um fóssil. Bandas de rock pesado continuaram a surgir e o público seguiu comparecendo aos shows. O Estado, ainda hoje, tem no Eminence uma banda de metal com trânsito internacional, com turnês realizadas em vários países, uma discografia robusta e uma legião de fãs – tudo isso mantendo as bases em Minas.

Encontro. O Vultur, do André Cabelo, acabou – assim como várias das bandas chanceladas pela Cogumelo – mas ele seguiu adiante com seu estúdio – batizado Engenho –, investindo, modernizando, ampliando as instalações. E tanto fez que acabou por reverberar para muito além do universo roqueiro. Cabelo tornou-se um técnico de som muito requisitado, o Estúdio Engenho acabou virando uma referência, aberto a todos os tipos de trabalho, gravando desde os grupos de rock pesado de seus primórdios até gente como Geraldo Vianna, Sérgio Pererê, Juarez Moreira, Makely Ka e tantos outros nomes do universo da canção contemporânea em Minas Gerais.

E, como músico, Cabelo seguiu trilhando a seara do metal: passou a integrar, como guitarrista, a formação do Chakal (aquele mesmo, surgido na ebulição roqueira dos anos 80) e posteriormente passou a ocupar, também, o posto de vocalista. O grupo, diga-se, segue em franca produção, criando, gravando e divulgando suas músicas. A fama de André Cabelo e do Estúdio Engenho seguiu se espalhando e chegou aos ouvidos de… Toninho Horta, que, entre 2016 e 2017, o procurou para gravar seu novo disco, que viria a ser lançado em 2019, batizado “Belo Horizonte”. Em novembro de 2020, veio o Grammy Latino de Melhor Álbum de MPB para o rebento que, afinal, uniu aqueles pontos distantes da história da música mineira. Sim, porque Cabelo não apenas capitaneou as gravações de “Belo Horizonte”, como acabou convidado por Toninho para assinar a coprodução do disco.

Depoimento. “Esse disco resultou de um processo de três anos de gravação. O Toninho gravou o disco todo aqui, a gente editou e fez uma primeira mixagem no decorrer desse tempo. Ao todo, foram gravadas 35 faixas, das quais tiramos 18. No decorrer do processo, até porque o Toninho viaja muito, eu fiquei encarregado de ter que resolver várias questões relativas à feitura do disco; em função disso, ele acabou me convidando para fazer a produção junto com ele, então, além de gravar, editar e fazer todo o processo de captação do álbum, fiz a coprodução”, diz André Cabelo, explicando assim o gramofone dourado do Grammy – igual ao que o Toninho Horta também tem na sua casa – que ele compartilhou em sua página do Facebook no dia 9 de março e que hoje orna a estante de sua sala.

“Esse disco foi gravado relativamente ao vivo, a banda foi montada dentro do estúdio, a gente fez tudo meio que junto. Obviamente que depois tiveram uns overdubs, mas a base, a captação inicial com Neném na batera, a Lena na flauta, o Toninho ao violão e o André Dequech nos teclados, isso foi feito com todos tocando num take só. Depois o Yuri Popoff, que estava em São Paulo, veio para BH para colocar os baixos, mas a primeira captação da base foi toda feita ao vivo”, complementa esse histórico metaleiro das Alterosas.

Foto: Fred Magno; e Instagram/reprodução, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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