Clássico instantâneo, em ‘Dark’ o livre arbítrio é cordeiro do desejo

*por Pedro Ramos

“Como as pessoas não entram em colapso com a futilidade da própria existência?” Adam, S2E01

O universo de ficção científica ganhou um clássico instantâneo no dia 27 de junho de 2020, quando foi ao ar a 3ª e última temporada da série “Dark”. Concebida pelo casal Baran bo Odar e Jantje Friese, a série conquistou inúmeros fãs e enorme prestígio, sendo considerada a melhor produção original Netflix até hoje (Fonte: https://editorial.rottentomatoes.com/article/the-netflix-original-series-showdown/).

Com uma trama mentalmente exaustiva, trilha sonora composta com esmero e um visual dinâmico, “Dark” teve seu momento breve, porém marcante: um total de 26 episódios, contando todas as temporadas, contam uma história densa e complexa, com uma diversidade enorme de personagens e histórias, que, à primeira vista, parecem secundárias à trama principal, mas que se entrelaçam de maneira elegante e sucinta no final.

A densidade da história não cansa, pois é fortemente apoiada por um estilo requintado e sofisticado de storytelling e cinematografia, além de ser didática ao brincar com conceitos de filosofia e física quântica. Para os desanimados, “Dark” pode, sim, parecer complexo demais: porém tudo se amarra no final, e não há dúvidas de que  a jornada vale a pena.

Sinopse. A história se passa na pequena, mas longe de ser pacata, cidade fictícia de Winden, interior da Alemanha, onde o desaparecimento de 3 garotos desencadeia o desmantelamento de 4 famílias: os Kahnwald, os Nielsen, os Doppler e os Tiedemann, representados por personagens extremamente carismáticos e relacionáveis em cada um dos quatro núcleos.

O drama familiar é o gancho que prende o espectador, mas é logo deixado em segundo plano ainda na primeira temporada, quando o protagonista descobre que está preso em um laço temporal infinito, e que qualquer escolha é apenas uma ilusão: tudo já está pré-determinado.

A partir daqui o texto conterá spoilers (poucos) sobre o fim da série

Adam mostra sua cicatriz

No centro da série estão Jonas Kahnwald e Marta Nielsen, colegas de classe na escola da cidade e pares platônicos um do outro. Embora a série alterne entre o drama adolescente e o crime policial, o motor utilizado – o sumiço de Mikkel Nielsen, irmão mais novo de Marta – gira por um propósito maior.

Sem escolha dessa vez, a “pílula vermelha de Matrix” é enfiada goela abaixo em Jonas Kahnwald logo no começo da série, quando se é revelado que o garoto desaparecido, o Mikkel Nielsen, e também irmão mais novo de sua amante Marta, é, na realidade, seu pai.

Mistério. Aparatos de viagem no tempo e incesto – o casal principal, Marta e Jonas, são tia e sobrinho – escondem a real intenção narrativa de “Dark”. O protagonista se desconstrói em espiral ao provocar o suicídio do próprio pai e ao causar dor e sofrimento à sua família, independentemente de suas escolhas. Na realidade, suas escolhas já estavam pré-determinadas.

A série se autoexplica, ao definir explicitamente um paradoxo famoso: no “Paradoxo de Bootstrap”, um homem viaja ao passado para conhecer seu eu mais jovem e lhe entrega um livro. Você abre o livro e descobre que o autor é você mesmo, mas você ainda não escreveu aquele livro. É um livro do futuro, tudo certo, você ainda vai escrever aquele livro no futuro… Mas, agora que você tem o livro, você não precisa escrevê-lo novamente, certo? E, nesse caso, quem escreveu o livro, senão você? Qual é a origem daquele objeto? Um objeto ou ideia que não possua um ‘momento da criação’: existe e não existe ao mesmo tempo.

Muito bíblico e cientificamente preciso, é claro que o argumento está presente em todos os grandes conflitos: Claudia Tiedemann mata acidentalmente seu pai após ler um jornal do futuro que noticiava a data da morte do mesmo; Ulrich Nielsen viaja ao passado para espancar um garoto de 13 anos por acreditar que o garoto vai se tornar o assassino de seu filho; e, finalmente, Charlotte Doppler, que descobre ter sido adotada e que sua mãe biológica é sua filha do futuro: “Paradoxo de Bootstrap” em sua explicitude máxima, quase que o ovo e a galinha.

Esses e outros tecidos narrativos são estampas distintas para o mesmo argumento: um laço temporal de passado, presente e futuro não possui origem. “O começo é o fim, e o fim é o começo”.

Jonas bate um papo com ele mesmo

O Paradoxo de Bootstrap sustenta a série por duas temporadas, mas é expandido na terceira, quando a trama atinge um nível de complexidade alto ao apresentar a existência de um universo paralelo ao universo assistido nas duas primeiras temporadas. Neste mundo alternativo, personagens trocam de pares românticos, cabelos, figurinos, porém cometem os mesmos erros. Ou, mais precisamente, estão presos aos mesmos desejos.

“O homem é livre para escolher o que quer, mas não é livre para desejar o que deseja”. Presos em um laço temporal e espacial, os personagens revivem todas as suas escolhas ruins, de novo e de novo. Sob uma ilusão de livre arbítrio, Jonas, o protagonista, confronta suas três vidas de Nietzsche: a perda da ingenuidade nele mesmo, a perda da inocência em uma versão adulto de si, e, finalmente, a perda da vida em Adam, o vilão da série.

Destruição. Marta Nielsen também se apresenta em três fases da vida e lidera os affairs no mundo B, tanto no ranking de sofrimento quanto no ranking de crueldades cometidas. Aqui, o clichê de fé versus ciência é inevitável: A sociedade secreta “Que Haja Luz”, liderada por Eva (versão mais velha de Marta) batalha contra a sociedade “E Assim o Mundo Foi Criado”, liderada por Adam (versão mais velha de Jonas), criada no mundo A.

Presos em um ciclo de autodestruição, Adam mata Marta no mundo A, e Eva mata Jonas no mundo B, para que um nunca exista no mundo do outro. O filho que é gerado pelos dois vai até o passado e engravida uma moça chamada Agnes Nielsen, dando origem a toda a árvore genealógica das famílias na série, nos dois mundos paralelos.

A Eva não interessa o paraíso

Conceitos. Ao batalhar contra si, Jonas se torna Adam, um sociopata que mata em nome da construção do “Paraíso”: a ausência de tudo. No mundo B, Eva rejeita o Paraíso e usa seu filho – uma entidade anônima e com três existências físicas, uma criança, um adulto e um idoso – para exterminar as pontas soltas de sua linha do tempo, na esperança de mantê-la intacta. A existência coletiva de seu filho evoca, por fim, a conclusão da jornada de ambos: a morte do ego.

Nesse momento oportuno, Claudia Tiedemann, a física quântica, assume timidamente a cena para encantar os fãs de ficção científica. Dessa vez, no universo quântico. Nas cenas finais, as ideias de causalidade quântica se diluem de maneira elegante nos movimentos de Eva, quando o conceito de “sobreposição de estados” é apresentado: toda e qualquer realidade possível existe concomitantemente.

Quando se observa, porém, o que se vê é resultado da observação. Causalidade… A realidade é causada pela observação, pelos nossos desejos, por nossa mente. A existência de um observador externo permite que Claudia Tiedemann levante o óbvio: onde estaria um terceiro observador distante de Adam e Eva, Jonas e Marta?

Conclusão. Após três vidas, três estágios, três temporadas, e, por fim, três mundos paralelos, Jonas e Marta vão até um terceiro mundo, o mundo de Origem e lá impedem a invenção da viagem no tempo, eliminando da existência todos os personagens provenientes da linha genealógica de Adam e Eva, incluindo os protagonistas.

O sacrifício é recompensado na última cena, em que personagens secundários à trama jantam enquanto uma tempestade acomete Winden. De repente, tudo fica escuro, e há um monólogo sobre o alívio que a escuridão traz, ao livrar o homem de seus desejos. É o ensinamento de viver o presente, e não habitar em um passado de remorsos ou em um futuro desolador.

Fotos: Netflix/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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