Cinema: Novo

Glauber Rocha revolucionou o cinema brasileiro com sua proposta realista

O Cinema Novo trouxe a marca de “uma câmera na mão, e uma idéia na cabeça”. E câmera na mão treme, incomoda, de preferência, revoluciona. Essa era a idéia dos idealizadores do movimento, políticos que gritavam contra a injustiça através da estética da fome. E se era estética, era arte. Portanto livre de compromissos com o público, as grandes empresas, o lucro, a bilheteria. Havia um quê vermelho sangue naquelas produções ideológicas e contestadoras. A novidade era tamanha, que os participantes do inicial cinema faziam questão de repudiar tudo que já havia sido feito. Era novo mesmo.

E como o novo tem por mania afastar situantes que conservam valores inquestionáveis, teve por serviço afastar com louvor as platéias acostumadas à chanchadas cômicas. O cinema novo não estava pra brincadeira. Empunhava com orgulho sua bandeira suada de batalhas e de Rios a 40 graus de febre.

O Filme: Deus e o Diabo na Terra do Sol

A ditadura e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” fizeram suas vítimas no mesmo ano, de 1964, e se perpetuaram por longo tempo. Ambas foram combatidas e contestadas com as armas possíveis. Ao que a truculência ditatorial respondia com crimes hediondos e torturas, a violenta película cinematográfica sobre o vaqueiro Manuel questionava com a mesma veemência. Estavam ali sendo feitos dois movimentos distintos de embate, correndo por veias sanguíneas e sanguinárias. A Bahia de Glauber Rocha buscava a tradução de um Brasil por inteiro, pobre, na raiz, sofrido. O Brasil ditatorial era a metade de uma condição pré-humana, onde se matava quem fosse contra o regime. Glauber bem que tentou inserir seu regime próprio, mais na tela, desrespeitando com categoria quem lhe indagasse o contrário. E o diabo se viu sob a terra do sol até o final de 1985. Antônio das Mortes permaneceu por mais tempo no imaginário coletivo brasileiro.

O Ícone: Glauber Rocha

“Glauber se consumiu em seu próprio fogo”, falou o poeta Ferreira Gullar. De fato o incendiário diretor nascido no interior da Bahia tinha a primitiva forma de defesa inventada pelo homem como uma de suas armas. Glauber propôs um cinema faminto por combates e guerras inglórias. Um Brasil que fosse mostrado na tela tal qual miserável e apocalíptico era. Conseguiu através de suas agitações gestuais que deixaram um importante legado cultural para o país por qual se aventurou registrar no cinema. Seu cinema novo que realmente tornou-se posse de sua figura, dada a característica dominante de sua personalidade. O instinto falou mais forte que o homem, da mesma maneira que fez sua arte valer através de sua sensibilidade sensorial atravessou esse mundo com fogo.

Raphael Vidigal

Produzido para o blog Brasil na Cena, matéria de Cinema ministrada na PUC Minas por Robertson Mayrink.

Compartilhe

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Email

Comentários pelo Facebook

7 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

[xyz-ips snippet="facecometarios"]