Cinderela vive no Sul de Minas desde que marido a proibiu de cantar

*Raphael Vidigal Aroeira

“You are my destiny
You are what you are to me
You are my happiness
That’s what you are” Paul Anka

Cinderela está com 88 anos, mora em Itajubá, Sul de Minas, e, no dia do aniversário, foi se encontrar com as amigas. Esse não é um conto-de-fadas, muito pelo contrário. Ela se queixa da solidão, e usa uma imagem da tradição indiana para ilustrar o seu cotidiano, segundo a qual, quando o marido morre, a mulher é queimada junto. Depois que ficou viúva, Cinderela experimentou uma espécie de segunda morte. “Ninguém me convida para nada, não recebo convite de casamento, entrega de prêmio, nada… Deve ser o costume daqui, minhas amigas reclamam da mesma coisa”, relata. A primeira morte foi justamente ao se casar, em 1962. Foi quando ela voltou a ser a Luiza Trevisan.

O marido impediu que ela renovasse o contrato com a emissora de rádio que mantinha na época, e transformou a outrora Cinderela em uma dona-de-casa, numa espécie de gata-borralheira às avessas que, depois de conhecer as luzes do estrelato, voltou a limpar a casa e esfregar roupas com sabão no tanque. Cinderela nunca mais cantou. “Não canto nem no chuveiro. Só canto mentalmente, quando quero recordar as músicas que eu cantava. Não solto mais o gogó, vão pensar que eu estou louca”, debocha. Cinderela diz que as músicas de agora não combinam com ela. “Hoje em dia não tem mais música, é expressão corporal”, prossegue, dando mais uma mostra de sua verve ferina.

O apelido surgiu numa de suas primeiras apresentações. Era então uma menina de 15 anos, com uma docilidade pura, transmitida através da voz. Em 1951, os cinemas passavam o clássico desenho “Cinderela”, de Walt Disney. Por puro acaso, ela subiu ao palco com um vestido branco de renda, decote redondo, manga fofa e muitas anáguas. “Antigamente, para cantar na noite a gente usava traje a rigor, como se fosse um baile”, explica. Sempre acompanhada pela mãe, ela chamou a atenção do músico Leo Albano. Suas mexas loiras e os olhos azuis deram a letra para o batizado. O apelido pegou e ela se tornou febre entre as crianças, que a enxergavam como autêntica fada…

“Mesmo sem fazer programa infantil, eu era uma deusa para as crianças. Elas e os gays me adoravam. Os homens, se apreciavam, eu ficava calada pra não apanhar da esposa”, brinca. Eleita Rainha do Carnaval em 1957, Cinderela participou da chanchada “Vou Te Contá…”, dirigida por Alfredo Palácios, em 1958, mas nunca conseguiu assistir à película. “Não podia sair na rua que as pessoas me reconheciam”, recorda. O mesmo acontecia com o ídolo Cauby Peixoto, que tinha suas roupas rasgadas pelas fãs. Cinderela soltava a voz, na noite paulistana, com o conjunto de Moacir Peixoto, irmão mais velho de Cauby. Cantava de tudo, e abusava dos idiomas: francês, inglês, italiano, e etc.

Foi um maestro quem a orientou a partir para o repertório internacional, convencido de que “loira de olhos azuis cantando samba” não dava jogo. Deu certo. Cinderela ganhou quatro discos de ouro, e correu o mundo das rádios brasileiras com sua versão para a clássica “You Are My Destiny”, de Paul Anka, uma canção romântica talhada para a voz melodiosa de Cinderela. Os interesses comerciais da época a levaram a gravar marchinhas que ela mesma considera menos relevantes, mas que animaram os foliões, como “A Sereia de Biquíni”, “Corre, Sansão” e “Vamos Dar Uma Voltinha”. Naquele período, é bom que se diga, ainda havia a censura oficial, à qual as músicas eram submetidas.

Certa feita, o censor foi decidir se Cinderela poderia cantar a marchinha “A Culpada foi a Cobra”, de Alfredo Borba. A letra maliciosa indicava a proibição. Mas Cinderela estava de maiô e o censor pouco deu atenção à letra, concentrando-se nas pernas da princesa, o que não o livrou de um sermão da mãe da moça que, a despeito de ser ele uma autoridade do governo, o espinafrou. Acima dos governos, estão as mães. Cinderela, para tirar um dinheiro a mais, não deixava de exibir as pernas de fora, quando atuava como vedete. As amigas diziam que ela era estonteante, e as fotografias antigas comprovam a forma escultural. A cantora não escapou aos ciúmes do marido…

Ela lamenta ter abandonado a carreira, no auge do sucesso. Era o costume da época. Cinderela foi mais uma vítima dessa cultura machista que ainda viceja no Brasil. Quando se mudou para Itajubá, a cidade ainda não tinha televisão. Foi o marido quem levou a novidade, em 1974, ainda em preto e branco, só com a TV Tupi e o comando da torre para desliga-la, rigorosamente, à meia-noite. A cidade cresceu, “ficou moderna, universitária”. “Minha rotina é a de uma viúva que não teve filhos. Moro na mesma casa há 40 anos. Sou mineira de coração”, diz ela, que nasceu na cidadezinha de Bebedouro, em São Paulo. Ao completar 80 anos, viveu o seu primeiro renascimento como uma Cinderela.

Pesquisadores de São Paulo a procuraram para realizar um documentário sobre sua trajetória, que teve noite de estreia e hoje está disponível no YouTube, com direito a making-off em que ela não contém as lágrimas. Um dia, Cinderela recebeu uma carta que teve a intenção de rasgar, mas foi logo contida e, ao responder, tornou-se tema da monografia da pesquisadora Thais Matarazzo. O tempo passou. Houve consolo e desolação. Cinderela, de bochechas rosadas, cabelos loiros e olhos azuis, ainda encanta quem a ouve cantar em gravações raras que contam a história de uma outra época. A senhora que vive em Itajubá é testemunha desse período de magia e de ilusão.

Matéria publicada originalmente no portal da Rádio Itatiaia, em 2022.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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