As 10 melhores músicas brasileiras sobre Esperança

*por Raphael Vidigal

“Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?” Carlos Drummond de Andrade

“Depois da tempestade, vem a bonança”. O preceito bíblico é transfigurado de diversas maneiras pela sabedoria da música popular brasileira para reafirmar o mesmo ideal: a crença na esperança, a noção de que, por pior que seja o momento, o futuro há de reservar dias melhores. Essa compreensão aparece, sobretudo, na figura do sol, astro dos ciclos da natureza que traz em sua imagem o calor e a luminosidade que nos leva para frente, apesar dos vários obstáculos.

Por isso, Paulo Vanzolini nos conclama a dar a volta por cima em seu samba-canção e Chico Buarque enfrenta com sagacidade a covardia da ditadura militar. Tom Zé usa de seus ardis tropicalistas para reconfigurar a ideia de felicidade, enquanto Martinho da Vila mostra que o samba é capaz de lavar a alma e nos preparar para as próximas batalhas. Do rock ao pop, Lulu Santos, Pitty, Renato Russo e Flávio Venturini também comparecem cheios de poesia e de esperança.

“Volta por Cima” (samba-canção, 1962) – Paulo Vanzolini
“Samba é que nem osso, uma vez que tá na rua, vai na boca de qualquer cachorro”, riu-se Paulo Vanzolini, quando perguntado por Zé Henrique o que fazer com a música que este havia ganhado, e que, por briga com a gravadora, não poderia gravá-la. Foi então que “Volta por Cima” encontrou Noite Ilustrada, e por três semanas consecutivas angariou o primeiro lugar nas paradas de sucesso do ano de 1962. Notícia que seu autor só veio a ter quando voltou de sua viagem à Amazônia, entretido com os afazeres da zoologia, e ouviu no rádio a sua exaltação para aquilo que ficaria conhecido no dicionário Aurélio da Língua Portuguesa como “ato de superar uma situação difícil”. Para Vanzolini, a parte mais importante da letra não está no título, mas no verso “reconhece a queda…”.

“Apesar de Você” (samba, 1970) – Chico Buarque
Exilado na Itália, Chico Buarque retornou ao Brasil em 1970, após mais de um ano, incentivado pelo dono de sua gravadora, André Midani, que garantia a melhora da situação. Chico se decepcionou ao constatar o verdadeiro cenário. Para expressar sua indignação e esperança, compôs o samba “Apesar de Você”, no qual mandava recados diretos, como: “Você vai pagar e é dobrado/ Cada lágrima rolada/ Nesse meu penar”. Incrivelmente, os censores tardaram a captar a mensagem, e caíram na ladainha duma “briga de amantes”. Quando a canção estourou nas rádios, a população, bem mais esperta e atenta, logo a tomou nos braços e entoou em toda parte. A música foi lançada por Clara Nunes em 1971, e, proibida, voltou a ser gravada apenas em 1978, no novo LP de Chico Buarque.

“Menina, Amanhã de Manhã” (tropicália, 1972) – Tom Zé e Antônio Perna
Inspirado no slogan da ditadura militar, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o irreverente Tom Zé compôs, em 1972, ao lado do parceiro Antônio Perna, “Menina, Amanhã de Manhã” dentro do espírito tropicalista que sempre o guiou. A sagacidade do baiano de Irará consistia em combater o nefasto regime lançando mão de ironias sutis e tendo, como arma, justamente a felicidade, valor sufocado por torturas e assassinatos institucionalizados pelo Estado. Na versão de Tom Zé, a felicidade oferecida pela ditadura era enfiada goela abaixo dos cidadãos, imposta de maneira pasteurizada e falsa. Dada a amplitude de interpretações sobre composições abertas como as do baiano, a canção ganhou sentido oposto ao cair na boca do povo e com o decorrer dos anos, virando mantra de esperança.

“Juízo Final” (samba, 1973) – Nelson Cavaquinho e Élcio Soares
O reconhecimento à obra de Nelson Cavaquinho começou a se dar de forma mais intensa na década de 60, a partir das gravações de Ciro Monteiro, Nara Leão e Elizeth Cardoso. Em 1970, ele próprio ganhou a oportunidade de gravar suas músicas em um disco que levava seu nome, e, em 1973, teve o derradeiro registro solo, onde cantava pela primeira vez ao lado do eterno parceiro Guilherme de Brito. Nelson ainda tocava pela primeira vez em disco o instrumento do apelido. Já com o nome bastante consolidado no mercado, Clara Nunes lançou no álbum “Claridade”, de 1975, a música esperançosa de Nelson que decretava a chegada do sol no horizonte, a vitória do bem sobre o mal, a luz a brilhar nos corações. O amor será eterno, era o seu “Juízo Final”, sempre atual.

“Canta, Canta, Minha Gente” (samba, 1974) – Martinho da Vila
Bamba da Vila Isabel, reduto de outro sambista histórico da música brasileira, o pioneiro Noel Rosa, o pacato e sensível Martinho da Vila levou seu estilo de vida para as próprias composições, praticamente indissociáveis de seu autor. Em 1974, ele já era um sambista considerado quando colocou na praça o LP “Canta, Canta, Minha Gente”. A faixa-título era uma ode à capacidade de resiliência do povo brasileiro que, àquela altura, enfrentava o pior período da tenebrosa ditadura militar que assolou o país durante vinte anos. Com ritmo sincopado e cadenciado, os versos conclamavam a uma alegria que deveria se impor aos poucos: “Canta, canta, minha gente/ Deixa a tristeza pra lá/ Canta forte, canta alto/ Que a vida vai melhorar”. O antídoto para aquela depressão jazia no samba.

“Amanhã” (balada, 1977) – Guilherme Arantes
Em 1977, Guilherme Arantes compôs uma balada de espírito hippie, mas, sobretudo, um hino de esperança. O próprio título já entregava a proposta. “Amanhã” retrata a incansável luta, a busca eterna por um destino melhor e mais confortável do que o oferecido pelo momento presente, tudo por uma lente otimista, leve e confiante. “Amanhã, será um lindo dia/ Da mais louca alegria/ Que se possa imaginar”, relata Guilherme Arantes nos versos da canção, lançada por ele mesmo no álbum “Ronda Noturna”. A música foi regravada por Caetano Veloso, em um registro impecável, acompanhado apenas por seu violão. “Amanhã, a luminosidade/ Alheia a qualquer vontade/ Há de imperar! Há de imperar!”. Curiosamente, a letra nasceu do fim dum relacionamento amoroso.

“Mais Uma Vez” (balada, 1987) – Renato Russo e Flávio Venturini
Um encontro casual entre Renato Russo e Flávio Venturini nos estúdios da EMI-Odeon, em 1986, gerou uma das mais bonitas canções brasileiras sobre esperança. Os respectivos líderes da Legião Urbana e do 14 Bis estavam ocupados com as gravações dos álbuns “Dois” e “Sete” quando se encontraram nos corredores. Venturini improvisava uma melodia e Renato propôs escrever a letra, com a ideia de uma composição que falasse que o sol voltaria a brilhar após a tempestade. A espera valeu a pena. O resultado, três meses depois, foi a gravação em dueto de “Mais Uma Vez”, balada lançada pelo 14 Bis, em 1987. Anos depois, uma versão apenas com Renato, editada no álbum póstumo “Presente”, estourou em todo o país e virou o tema de “Mulheres Apaixonadas”.

“A Cura” (pop, 1988) – Lulu Santos
Na década de 1980, o mundo vivenciava uma de suas mais trágicas epidemias. O vírus da Aids tirava sorrateiramente a vida de milhares de jovens saudáveis, acostumados a colocar em prática uma sexualidade liberta de tabus. No início, convencionou-se dizer que a doença atingia apenas pessoas homossexuais, o que seria desmentido pela ciência com o tempo. Lulu Santos, como tantos outros, foi um dos que perdeu diversos amigos para o vírus, como o cantor Cazuza e o ator Lauro Corona, mortos no auge do sucesso. Diante daquela situação limite, ele decidiu usar a arte como forma de superação. Compôs, em 1988, “A Cura”, de pegada pop, lançada no álbum “Toda Forma de Amor”, cuja capa original, com o casal Barbie e Ken pelados numa cama, acabou censurada.

“Enquanto Houver Sol” (balada, 2004) – Sérgio Britto
Um ano antes do lançamento de “Enquanto Houver Sol”, a banda Titãs figurou no ranking das músicas mais tocadas no país com “Epitáfio”, cuja temática reflexiva acerca do tempo e da existência se assemelhava ao próximo sucesso. Composta por Sérgio Britto e gravada em 2004, a balada logo entrou na trilha da novela “Celebridade”, protagonizada por Malu Mader, esposa de Tony Bellotto. O próprio Britto admite que esse tipo de canção, executada ao piano, por muito tempo “não teve vez no Titãs”. Quando chegou a sua hora, ela saiu arrasando quarteirões. “Quando não houver saída/ Quando não houver mais solução/ Ainda há de ver saída/ Nenhuma ideia vale uma vida”, determinava o autor nos versos. Já com o conjunto reduzido a três, a música foi regravada em acústico em 2020.

“Serpente” (rock, 2014) – Pitty
Com uma imagem que alude ao ouroboros, símbolo místico que representa uma serpente que devora a própria cauda, a cantora Pitty colocou na praça, em 2014, o single “Serpente”. A ideia era refletir sobre o conceito de eterno retorno elaborado pelo filósofo alemão Nietzsche, e depositar na passagem do tempo as fichas para a mudança de expectativa, ou seja, a noção de que a esperança se impõe pela própria natureza da existência. “Chega dessa pele/ É hora de trocar/ Por baixo ainda é serpente/ E devora a cauda pra recomeçar”, destaca a baiana. A letra, de pegada espiritualista, ainda se aproxima de outras manifestações religiosas, como candomblé e hinduísmo. No mesmo ano, o rock ganhou um videoclipe em formato de curta-metragem, em que Pitty reafirma sua disposição.

Foto: Léo Aversa/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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